VAMOS COMEÇAR TUDO DE NOVO!

Francisco de Assis, o fascinante

Francisco “ardia em um desejo enorme em voltar à humildade do começo, e seu amor era tão grande e alegremente esperançoso, que queria reduzir seu corpo, à servidão antiga, embora já estivesse no limite de suas forças. Afastava de si todos os obstáculos de preocupações e freava de uma vez a agitação de todas as solicitudes. Precisando moderar seu rigor antigo por causa da doença, dizia: ‘Vamos começar a servir a Deus, meus irmãos, porque até agora fizemos pouco ou nada’”  (1Celano 103).

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Frei Almir Ribeiro Guimarães

freialmir@gmail.com

 

ORAÇÃO DE ABERTURA 

Absorvei, Senhor, eu vos suplico o meu espírito

e pela suave e ardente força de vosso amor,

desafeiçoai-me de todas as coisas

que debaixo do céu existem

a fim de que eu possa morrer por vosso amor,

ó  Deus, que por meu amor vos dignastes morrer 

(Oração de São Francisco).

 

Textos bíblicos (para começar o retiro orantemente)

  • Aquele que faz coisas novas

Sim, vou criar um novo céu e uma nova terra; já não haverá lembrança do que se passou, nisto já não se pensará. Antes, exultai e alegrai-vos sem fim por aquilo que eu crio (...). Vou rejubilar-me por Jerusalém e alegrar-me por meu povo; nele não se ouvirão mais choros nem gritos de dor, não haverá crianças que vivam apenas uns dias, nem anciãos que não completem seus dias. Pois será jovem quem  morrer aos cem anos e quem não chegar aos cem anos  será como um amaldiçoado”  (Isaías 65,  17.20).

Que novo anda Deus fazendo no mundo, na Igreja e em sua vida?

  • O Deus dos pequeninos e simples

Texto proclamado na Festa do Seráfico Pai

Naquele tempo disse Jesus: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi de teu agrado. Tudo me foi entregue pelo Pai. De modo quem ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar. Vinde a mim  todos vós, fatigados es sobrecarregados, e eu vos aliviarei.  Tomai  sobre os ombros meu jogo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e achareis descanso para vossas almas. Pois meu jugo é suave é meu peso é leve”   (Mateus  11,25-30).

 Como e por que Francisco pode receber as revelações do  Senhor?

 

Outros textos de abertura do retiro

  • “Necessário mudar a vida, mudar tudo;  mudar tudo não quer dizer tudo destruir, mas salvar tudo”  ( Maurice Bellet)
  • Eis-me aqui: imbecil, ignorante diante de coisas desconhecidas (Georges Bernanos).
  • “Francisco, ‘o homem do século futuro’. Assim o chamava o seu primeiro biógrafo. Quanto a nós, homens de um século envelhecido que conheceu campos de concentração e de mortes e que inventou a bomba atômica, duvidamos se ainda existe um século futuro. Por vezes, o medo nos gela. Diz-se que nos tempos de Francisco apareceu “um lobo grandíssimo, terrível e feroz, o qual não somente devorava os animais, mas  também os homens, de modo que todos os citadinos estavam tomados de grande medo” (Fior, 25).  Aprendemos a conhecer melhor este lobo, que é de todos os tempos.  Não corre nas florestas, mas mora em cada um de nós e em cada grupo humano, pronto a dilacerar e a devorar. Quem hoje nos livrará deste lobo? Quem for capaz será verdadeiramente o homem do século futuro.  Avançará  sem medo pelos caminhos da história e milhares de irmãos o acompanharão. Atrás dele caminhará, livre e alegre, o grandíssimo lobo domesticado” (Éloi Leclerc, in  Francisco de Assis. Retorno ao Evangelho, p. 128)

 

O que dizem a respeito de Francisco

Nosso Retiro Mensal  foge um pouco do esquema no qual foram elaborados os textos precedentes.  Queremos fazer uma série de citações a respeito de Francisco, esse ser simples  que recebeu as confidências do Senhor e  esse homem novo que nos ajuda a buscar a novidade de vida  respondendo ao convite do Papa Francisco. Não podemos trilhar caminhos batidos.  Francisco,  simples e serenamente humilde,  Francisco é aquele  que cria o novo em sua vida, que não caminha por trilhas batidas, o homem de um novo século.  Atrás dos “homens novos” dos tempo atuais segue o lobo domesticado pela vida de homens parecidos com  Francisco de Assis.

  • Francisco, se abre à doçura de Deus:  “Francisco  não foi  de início um modelo de doçura. Suas ambições o havia atirado à guerra: à guerra voluntária como caminho para a glória. Mas ele encontrou Cristo e, finalmente, se o universo se transfigurou aos seus olhos  foi porque o seu coração se abriu à grande doçura de Deus. Francisco soube domesticar sua própria agressividade. Converteu o lobo, aquele lobo que não vive apenas nas florestas, mas que se oculta em cada um de nós... E o lobo feroz se tornou fraternal. Aquela força de combate e de crueldade metamorfoseou-se numa energia de amor, numa força  criadora de comunhão entre os seres” (E.Leclerc, O sol nasce em Assis, Vozes, p. 95).
     
  • Francisco, homem do século futuro - Celano: “Ninguém é capaz de compreender quanto se comovia quando pronunciava vosso nome,  Senhor santo. Parecia um outro homem, um homem do outro mundo, todo cheio de júbilo e do mais puro prazer” (1Celano 82). O Dicionário  Franciscano  insiste no novo em Francisco:  “Francisco parecia aos seus contemporâneos um homem que, de certa maneira, voltou às suas origens e é também o homem dos últimos tempos. Sua presença era como de uma nova luz enviada do céu para dissipar as trevas do mal.  Ele é “o novo evangelista destes últimos tempos que mostrou o caminho e a verdade do Filho de Deus. Com ele, o mundo vive uma nova juventude, a Igreja é “renovada”, os cristãos adquirem o espírito novo (1Cel 89).  É realmente notável  esse sentido de novidade que o biógrafo  coloca em destaque.  rata-se da novidade da vida futura  já presente e vivida nele: é sinal bem visível em sua pessoa do caráter efêmero deste mundo e mostra tangível da bem-aventurada realidade escatológica deste novo mundo”  (Dicionário Franciscano, Leonardo Izzo, p. 775).
     
  • O cristianismo vivo que reina no mundo proveio de Francisco -    Transcrevo reflexões de Éloi Leclerc a respeito de Francisco  que quase nos parecem  exageradas:  “A propósito de Francisco de Assis, escreve o historiador  Georges Duby  na obra  Le Temps des cathédrales:  “De parceria com Cristo foi Francisco o grande herói da história cristã. Pode-se afirmar sem exagero que o que hoje resta de cristianismo vivo provém diretamente dele  ( Le Temps des cathédrales, Gallimard, 1976, p. 170).  Poderá parecer exagerada esta opinião. Mas sem qualquer exagero é legítimo pensar e dizer com P. Lippert que “se Deus algum dia conceder à Igreja a ordem religiosa do futuro, para a qual se já se voltam muitos olhares, essa ordem apresentará sem dúvida os traços espirituais de Francisco de Assis  (P. Lippert, La Bonté, Aubier  1946, p. 120).  (E.  Leclerc, Caminho de Contemplação, pro-manuscripto, p.43).
     
  • Francisco leva o homem a crer na bondade divina -  “Francisco é dessas figuras da qual a humanidade sempre sentirá orgulho. Suas qualidades forçam a simpatia;  seus defeitos, se os tem,  são atraentes;  sua santidade nada tem de exotérico, afetado ou ameaçador, seus dons naturais suscitam em geral admiração;  seus ensinamentos exalam tal frescor, poesia e serenidade, que mesmo espíritos embotados  podem encontrar neles razões para amar a vida e crer na bondade divina”  (Omer Englebert,  Vida de São Francisco de Assis. Trad. Frei Adelino Pilonetto.  EST Edições, Porto Alegre, 2004, p.9).
     
  • Francisco, original e genial -  Francisco de Assis é personagem original e genial, situado entre 1182, data de seu nascimento, e 1226, ano de sua morte. A respeito de nenhum santo tanto se escreveu como a seu respeito, na frente de todos os textos da literatura religiosa. Por ele se interessaram historiadores, literatos, teólogos, sociólogos, filósofos, artistas, cineastas, etc. Na lista de admiradores seus estão católicos, protestantes, ortodoxos, heterodoxos, racionalistas, panteístas e até  ateus devotos. Conservadores e reformistas, tradicionalistas, revolucionários, místicos e ecologistas nele se apoiam para justificar teses e antíteses, tradições ou contradições. Trata-se de um personagem a respeito do qual muito se falou, precisamente este que se propôs a pouco falar e pouco escrever.  Descobrimos esse personagem não só em seus escritos e palavras, mas também em suas obras, seus gestos, atitudes e insinuações, inclusive por seus silêncios e provocações. Francisco de Assis é um santo com inumeráveis e contrastantes interpretações. Talvez essa riqueza de perspectivas oculte a autêntica realidade de sua existência e cause um certo desconcerto. Nisto reside a pluralidade de famílias que disputam  sua autenticidade.  É o santo mais interpreta e, por isso, o santo mais desfigurado, convertendo-se, assim, num santo enigmático. O Poverello impacta por sua simpatia, simplicidade, humanidade e bondade, inclusive por suas contradições.  Evoca serenidade, humanidade e poesia. Cativa por sua nobreza, ternura e desinteresse. Soube sincronizar admiravelmente santidade com poesia, canto com sofrimento, alegria com pobreza, amabilidade com austeridade, Evangelho com humanidade, imanência com transcendência, mística com ação, religiões com os problemas mais contundentes da vida. É um cavaleiro da fé, que caminha sem duplicidade nem arrogância, mas com audácia e decisão  querendo atingir os fins a que se propôs.  Toma distância das mentiras piedosas, desconhece os pensamentos medíocres. Não suporta a vulgaridade, nada tem de cumplicidade com subterfúgios fáceis nem melindres oportunistas. Sabe respeitar a todos os que destacam sem ser um barato bajulador. Não precisa bajular a ninguém. Despreza os bens temporais e não tem nenhuma pretensão de grandeza nem ânsia de galgar postos grandiosos da sociedade ou da Igreja porque acredita que a própria existência é graça e nobreza. A maior que lhe pode ser tributada é realçar sua magnanimidade. Foge do servilismo, embora sirva a todos. Desmascara as lisonjas dos aduladores e servis.  Consegue ser totalmente livre sem fazer concessões ao egoísmo e à extravagância” (José Antonio Merino OFM, Francisco de Asís, santo enigmático e provocador, Encarte, Vida Nueva, n. 2663).
     
  • Esse ‘revolucionário’ Francisco -  Chesterton  escreveu uma apaixonante  biografia sobre o santo.  Dele retenho, por necessidade de brevidade, uns poucos parágrafos. “Não é possível ler racionalmente a história de um homem apresentado como espelho de Cristo  sem compreender sua fase final como  Homem das Dores e,  sem ao menos apreciar artisticamente a propriedade de ele ter recebido,  numa nuvem de mistério e  de isolamento, e não provocadas por mão humana, as feridas sempre abertas que curam o mundo” (...).  A vinda de São Francisco foi como o nascimento de uma criança numa casa escura que tivesse acabado por uma maldição; uma criança que cresce sem ter consciência  da tragédia e que a vence pela inocência. Nele, é preciso não só inocência  como desconhecimento. É da essência da história que ele se  jogue na grama verde sem ver se ela esconde um cadáver ou que suba numa macieira sem saber que ela é a forca de um suicida.  Foi essa anistia e reconciliação  que o frescor do espírito franciscano  trouxe ao mundo”  (São Francisco de Assis.  A Espiritualidade da Paz, Ediouro, 2001, p. 18 e 171).
     
  • Francisco olha o  mundo com olhos de criança -   “Hoje como outrora, os Pobres de Javé veem aparecer o Reino de Deus naquilo que há de mais frágil no mundo: o olhar duma criança:  “Foi nos dado um filho...”: este oráculo do profeta Isaías  continua a ser válido, pois encerra o futuro do mundo. Os viandantes da noite, os desorientados das sombras, viram surgir uma luz:  e esse arrebol de aurora  brilha no olhar de uma criança.  Maravilhoso paradoxo: uma criança, um ser indefeso, tão fraco que nem é capaz de falar,  nem sequer sabe falar  e é ela que nos vem transmitir a Palavra na sua plenitude! Nos seus ombros minúsculos e frágeis repousa a onipotência!  A sua fragilidade, para quem saiba entendê-la, é princípio, criação, novidade imprevisível. No seu olhar brilha a  infância divina. É ela,  essa criança,  a grande comunicação de Deus ao mundo. Tal como o Criador, também o homem, enfim, a quis desde o princípio.  Diz-se que foi o  Pobre de Assis  o inventor do presépio de Natal.  Pelo menos contribuiu para divulgar esta prática devota. Mas o mais importante é o fato de ele ter visto e ter feito ver  com outros olhos o acontecimento do Natal: com um coração  de pobre e com olhos de criança.  “Eu quereria  ver com os meus próprios olhos, dizia ele, o Menino, tal como ele era, deitado numa manjedoura, a dormir sobre o feno, entre  um boi e um jumento..”  Era uma ideia nova e infantil por um lado, mas por outro lado maravilhosa e genial, como só os poetas a costumam ter:  a de ver e fazer ver, com olhos de criança, o próprio Deus no seu gesto de  “ternura”.  Era isso o mais importante para o futuro do mundo. Numa sociedade de mercadores, dominada pela paixão do dinheiro, tornava-se urgente dar a ver a toda gente a gratuidade de Deus. Num  mundo onde os clérigos  sonhavam com a teocracia, era urgente mostrar a todos a humildade de Deus. E num tempo de cruzadas e guerras  santa, nada mais necessário  do que fazer ver a ternura de Deus. Enquanto a cristandade, ufana de si mesma,  sonhava em celebrar a sua própria epifania, erguendo cada vez mais altas  para o céu as torres e flechas das catedrais, como um Te Deum  flamejante, Francisco de Assis e seus primeiros companheiros, contemplavam, na penumbra de um estábulo, Deus a vir ao mundo  na fragilidade de uma criança. Chegavam assim à fonte maravilhosa. E abrindo-se a esta comunicação com Deus, transformavam-se naquilo que contemplavam: nasciam para a vida divina. E em alegria criadora restituíam a Deus o mundo, a humanidade e o próprio  Deus”  ( E. Leclerc,  Caminho de Contemplação, op.cit.p. 53-54).

Obs.:  Seria conveniente refletir em grupo  sobre estes textos e buscar  neles os traços do homem novo

 

 

Oração final

Francisco de minha vida

Francisco,

pequeno e grande Francisco,

tu continuas vivo entre nós.

Tu és o meu irmão,

meu irmão mais velho, 

meu irmão modelo,

meu irmão da roupa marrom,

das chagas douradas na mão,

apaixonado pelo Senhor Jesus.

 

Gosto de tem contemplar

erguendo os braços ébrios de amor,

cantando os louvores do Altíssimo

e Grande Senhor!

Acompanho-te pelas ruelas de Assis

com o irmão sol que te aquece o rosto,

pegando nas mãos a irmãzinha água

tão casta e tão transparente,

pisando na terra mãe

que produz variedades de flores e frutos.

 

Gosto de ver teu olhar acompanhar os irmãos,

os irmãos leprosos, os irmãos que te seguem,

os irmãos que são filhos do Altíssimo. 

Espreito-te  ao jogares tuas roupas

nas mãos de teu pai e proclamares livremente

que teu Pai está nos céus.

 

Aplaudo-te quando dizes

que os teus seguidores serão menores

e nunca hão de se alegrar

a não ser com o ultimo de todos os lugares.

Vejo-te percorrendo ruas e ruelas 

da meiga Assis dizendo a todos

que o Amor não é amado.

Aprecio a tua coragem de partir sem segurança,

sem sacola e sem dinheiro

para dizer a todos os homens

que chegou o Reino novo

do Filho da Virgem Maria.

 

Recolho-me num cantinho 

e vejo que sais da contemplação

com as chagas de Cristo Jesus 

nas mãos, nos pés e coração.

 

Morro e renasço contigo

quando cantas o salmo que fala que é preciso

que Deus nos tire desta prisão.

Francisco de ontem e de sempre,

Francisco da roupa marrom,

Francisco de minha vida!