Como vimos no final do texto da Relatio Synodi, o relatório final da III Assembleia Geral Extraordinária dos Bispos pede que agora “levantemos questões e indiquemos perspectivas que deverão ser maturadas e precisadas por meio da reflexão das Igrejas locais” (n. 62). Isto servirá, inclusive, de preparação para a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos prevista para outubro de 2015, também dedicada à família. Duas situações ficaram especialmente pendentes, ou seja, os divorciados recasados e a homossexualidade. Neste texto, vamos nos ater à primeira situação. Nossa reflexão buscará apontar para a vivência cristã dos divorciados recasados ou dos que se encontram em segunda ou mais uniões, segundo a atual doutrina do Magistério da Igreja.
Comecemos a examinar o Sínodo dos bispos de 1980 e a Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de 1981; eles contêm importantes orientações do Magistério da Igreja no tocante aos casais em segunda união. Buscou-se aí tratar dos pontos fundantes da doutrina católica sobre o matrimônio. É interessante perceber logo que os fiéis casados em segunda união são chamados a participar ativamente na vida da Igreja; estes não se considerem separados da Igreja (cf. FC 87). A admissão dos fiéis recasados aos sacramentos traz à tona, por sua vez, a proximidade ou mesmo a íntima união da Eucaristia e do sacramento da Penitência ou Reconciliação.
Quando se fala de pistas para a ação pastoral e acompanhamento moral junto aos casais em segunda união, faz-se oportuno pontuar algumas questões prévias, enquanto inseridos no contexto eclesial.

Orientações do Magistério
Há uma preocupação do Magistério da Igreja que é sempre salvaguardar a doutrina da indissolubilidade do sacramento do Matrimônio. Esta preocupação liga-se ao próprio sacramento da Eucaristia, enquanto significa e realiza a Aliança fiel de amor entre Cristo e a Igreja. Ao mesmo tempo, a Igreja procura caminhos para a prática pastoral e o acompanhamento moral para que estes casais participem na vivência comunitária da fé.
Foi-se o tempo em que a Igreja simplesmente considerava os casais em segunda união como ipso fato infames e publice indigni(1). Excluídos da Eucaristia e da Reconciliação, eis que eram publicamente infames (2). O tom utilizado no novo Código de Direito Canônico, de 1983, já tenta colher os frutos de uma nova reflexão. Ainda fala da não admissão à Eucaristia (3) para quem está em pecado grave; no entanto, começa a colher as declarações das partes para a verificação da validade de um matrimônio, constituindo prova de nulidade, buscando dar-lhe credibilidade. Compreende-se que há histórias humanas, às vezes trágicas.
O magistério da Igreja tem reiteradamente apresentado a defesa da indissolubilidade do matrimônio, como o fez, após a Familiaris Consortio, na Carta aos Bispos da Igreja Católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados e novamente casados, de 1994, na introdução de um documento de 1997 da Congregação para a Doutrina da Fé, onde já se fala de uma vivência cristã dos recasados (4). Também estes não devem perder a esperança de alcançar a salvação.
Sempre recordando os pontos fulcrais da doutrina católica, a Igreja já manifesta a sua solicitude e busca que estes fiéis recasados perseverem na vivência destes ensinamentos; sabe que nem sempre têm culpa própria, manifestando o desejo de acompanhá-los maternal e misericordiosamente. O próprio Sínodo de 1980 já expressava o desejo de um “cuidado pastoral” e, concomitantemente, um “estudo mais aprofundado neste campo”, sugerindo que se leve “em consideração a prática pastoral das Igrejas Orientais” (5).

A salvação dos fiéis em segunda união
Levar todos os batizados à salvação é a missão da Igreja, segundo a LG 14-17; 48, a GS 2 e AG 7. Com estas afirmações do Concílio Vaticano II, a Igreja sente-se hoje na obrigação de renovar seus esforços para garantir os meios ou os caminhos da salvação aos que contraíram segundas núpcias. Pelo Batismo, estes também estão incorporados à comunidade dos fiéis 6). Como poderia a Igreja abandoná-los à própria sorte? A situação em que se encontram não rompe esse vínculo batismal. Por isso, também a estes a Igreja deve oferecer os meios de que dispõe para a salvação.

Vejamos o que diz a Familiaris Consortio:
“Com firme confiança, ela vê que mesmo aqueles que se afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade” (7).
A oração, a penitência e a caridade sinalizam que estes casais não estão desligados da Igreja e nem condenados a perder a graça da salvação. A Igreja quer “acompanhá-los com coração maternal e confirmá-los na fé de que não estão excluídos da corrente da graça que purifica, ilumina, transforma e conduz à salvação eterna” (8). Aqueles que foram abandonados, em inocência, pelo cônjuge legítimo, recebem da Igreja um olhar especial de preocupação.
Não há porque perder a confiança na misericórdia divina. Observe-se, nestes casos, o princípio da misericórdia e da compaixão e o princípio da verdade e da coerência. Quem ama a verdade, aproxima-se da misericórdia divina; fá-lo-á pelos caminhos possíveis, como são os da oração, da penitência e da caridade, enquanto persistir o impedimento da Penitência e da Eucaristia. Sendo a salvação um dom de Deus, ela está aberta a todos os homens e deve ser buscada por todos, confiando com esperança na misericórdia divina.

A participação na vida da Igreja
Toda a comunidade cristã é lembrada pelo Papa João Paulo II, na Familiaris Consortio, de que ela tem a tarefa de auxiliar os que se encontram em segunda união para que não se considerem fora da Igreja (9). Filhos de Deus e membros da Igreja, pelo Batismo, eles continuam cristãos e não precisam se esconder para participar da comunidade cristã (10). Eles também fazem parte da acolhida fraterna e devem se sentir amados e integrados na Igreja. Há uma participação ativa que, segundo a palavra do magistério, aparece até como um dever. Vejamos: “Ouvir a palavra de Deus, frequentar o Sacrifício da Missa, perseverar na oração, incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça,  educar os filhos na fé cristã, cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus” (11).
Além disso, aponta-se para a participação na “comunhão espiritual”. A isto se chegou pelo desejo intenso pela Eucaristia, lembrando, no entanto, que “é necessário esclarecer aos fiéis interessados para que não considerem a sua participação na vida da Igreja reduzida exclusivamente à questão da recepção da Eucaristia” (12). Existe aí a perspectiva de uma participação ativa crescente na vida da Igreja, o que pode envolver sua participação em movimentos, retiros, liturgia etc. Isso supõe, é claro, a superação de toda forma de exclusão e um amadurecimento da própria comunidade cristã, capaz de viver a benevolência e a misericórdia de Deus.

A Comunhão para os fiéis recasados
Dada à situação objetiva em que se encontram os casais em segundas núpcias, a Igreja não os admite à Comunhão Eucarística e à Penitência, segundo a atual praxe e doutrina eclesiais. Objetivamente, o matrimônio ratificado é indissolúvel (13), é de ordem divina (14), não podendo ser dissolvido por nenhum poder humano. Assim, qualquer segunda união coloca o fiel em contradição objetiva com a verdade da indissolubilidade do matrimônio. Requer-se aqui uma fidelidade inviolável (15). Além disso, o pacto conjugal torna o amor conjugal irrevogável (16), pois foram por Cristo revestidos da sua própria união com a Igreja. É “grande este mistério” (Ef 5,32), enquanto nele se exprime o amor esponsal de Cristo e da Igreja (17).
O amor entre Cristo e a Igreja realiza-se na Eucaristia. Contradizendo a aliança indissolúvel de Cristo com a Igreja no matrimônio, os que se encontram recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística (18). Esta não admissão não é apresentada como contendo um caráter punitivo ou discriminatório, já que é o estado ou a condição de vida dos casais que impossibilita o acesso à Eucaristia (19). Poderia a linguagem sacramental ser desmentida pela linguagem existencial?  Isto não falsificaria os sinais sacramentais, que acabariam dizendo o contrário do seu real e verdadeiro conteúdo?
Pastoralmente, a admissão dos recasados à Eucaristia induziria em erro e em confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio (20). Só que esta situação, segundo o Catecismo da Igreja Católica e o Código de Direito Canônico (cânon 874, § 1, 3°), chega a ser impeditivo para exercer certas responsabilidades eclesiais que, segundo Joseph Ratzinger, podem ser múltiplas, tais como: padrinho ou madrinha de Batismo, leitor da Palavra, ministro extraordinário da Eucaristia, catequese, membro do conselho de pastoral (21). Argumenta-se que “o bem comum da Igreja exige que se evite a confusão e em qualquer caso o escândalo” (22).

Regularização da situação dos fiéis recasados
O foro externo, ou seja, o Tribunal Eclesiástico é o que tem competência para decretar a nulidade de um matrimônio. Ao analisar as circunstâncias em que se deram o consentimento, ele pode chegar a concluir que o ato não foi válido. Trata-se de critérios objetivos que precisam ser provados em foro externo. Há um caráter público do sacramento do matrimônio, não sendo o consentimento dos esposos uma decisão privada. Mesmo quando há uma sã consciência de que o matrimônio não foi válido, deve-se procurar o Tribunal Eclesiástico para que este examine as causas matrimoniais para a verificação da sua nulidade ou não. O magistério da Igreja tem insistido na busca da comunhão com a Igreja, sem a qual não se pode estar em comunhão com Cristo (23).

Admissão dos fiéis recasados aos sacramentos
Há uma íntima união entre os sacramentos da Eucaristia e o da Penitência (24). A reconciliação abre o caminho da Eucaristia. A conversão, por sua vez, implica numa mudança de vida, sendo esta uma condição para o perdão. Para Joseph Ratzinger, esta conversão requer, para os recasados, o abandono da situação objetiva contrária à indissolubilidade do matrimônio (25); isto se faz por uma separação de corpos ou, se vivendo juntos, que não vivam maritalmente. Vejamos, para isso, o que diz a Familiaris Consortio:
“A reconciliação (...) que abriria o caminho (à eucaristia) pode ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como consequência, concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos sérios, quais, por exemplo, a educação dos filhos – não podem se separar, assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprio dos cônjuges” (26.
Há quem aponte para todo um envolvimento afetivo, normalmente existente, o que tornaria difícil esta separação27. Por outro lado, muitos são os que não buscam um novo relacionamento estável, sem recasar-se; isto costuma ser fruto de uma opção livre, madura e consciente. Neste caso, não se retiram as palavras ditas no altar para dá-las a outra pessoa, o que testemunha a indissolubilidade do matrimônio. Outras vezes, a solução remete para uma segunda união, por educação dos filhos ou por outro motivo sério, porém abrindo mão do relacionamento marital, solução que é reconhecida de difícil aplicação. A dificuldade de se abster de relações íntimas aumenta mais quando os casais são mais jovens28. Esta é uma realidade que merece um aprofundamento todo próprio em momento oportuno.
Havendo os que seguem a última proposta, estando dispostos a assumir tal compromisso, poderiam ser admitidos à Penitência e à comunhão Eucarística. Mesmo assim, pede-se que não haja ocasião de escândalo na comunidade29.

À guisa de conclusão
    Dada a doutrina magisterial acima explicitada, fica a convocação para que toda a Igreja zele por uma pastoral acolhedora, fundada na misericórdia divina e no amor de Jesus. A Teologia da Aliança oferece inspirações para o acompanhamento da Igreja dos que se encontram em segundas núpcias. 
A pergunta continua a ser: Como tornar a misericórdia mais completa? Há um convite por intuir soluções práticas, como o Sínodo dos Bispos (1980), na proposição 14, também intuiu. A III Assembleia Geral Extraordinária dos Bispos (2014), retomando as palavras do Papa Francisco na Evangelii Gaudium (n. 44), assim se exprime: “Sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. [...] A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas”.

NOTAS

1 Cf. Código de Direito Canônico de 1917, cânones 2356 e 855,1.
2 Cf. RATZINGER, Joseph. Introducción. In: CONGREGACIÓN PARA LA DOCTRINA DE LA FÉ. Sobre la atención pastoral de los divorciados vueltos a casar: documentos, comentário y estúdios. Madrid: Palabra, 1997, p. 11.
3 Cf. Código de Direito Canônico de 1983, cânon 915.
4 Cf. CONGREGACIÓN PARA LA DOCTRINA DE LA FÉ. Op. cit., p. 15-25. 
5 SÍNODO DOS BISPOS DE 1980. Prop. Sin. 14,6.
6 Cf. CIC § 1267.
7 JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. 17ª edição, São Paulo: Paulinas, 2003, n° 84, último parágrafo.
8 RATZINGER, Joseph. Op. cit., p. 24-25.
9 Cf. JOÃO PAULO II. Op. cit, nº 84.
10 Cf. SCAMPINI, Luciano. Casais em segunda união: acolhida fraterna na Igreja. Aparecida: Santuário, 1999, p. 38.
11 JOÃO PAULO II. Op. cit, nº 84.
12 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos bispos a respeito da comunhão eucarística por divorciados novamente casados. § 6.
13 Cf. Código de Direito Canônico, cânon 1141.
14 Cf. GS 48.
15 CIC § 1646.
16 Cf. GS 48.
17 JOÃO PAULO II. Carta às famílias – 1994: Ano da Família. Col. Documentos Pontifícios n° 256, Petrópolis: Vozes, 1994, nº 72.
18 Cf. SÍNODO DOS BISPOS DE 1980. Prop. Sin.14,3.
19 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Op. cit., § 4.
20 Cf. JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. Op. cit., nº 84.
21 Cf. RATZINGER, Joseph. Op. cit., p. 20-21.
22 Ibidem, p. 22.
23 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos bispos.. Op. cit., § 9.
24 Cf. JOÃO PAULO II. Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2001, nº 37.
25  Cf. RATZINGER, Joseph. Op. cit., p. 22.
26 JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. Op. cit., nº 84.
27 Cf. AZNAR, Gil; FLECHA ANDRÉS, José R. Divorciados y Eucaristia. Salamanca: Universidad Pontifícia, 1996, p. 119.
28 Cf. ibidem, p. 119.
29 Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta aos bispos.. Op. cit., § 4

 

 

O relatório final da III Assembleia Geral Extraordinária dos Bispos sobre a família

Com a aprovação e a publicação do Relatório Final1 – Relatio Synodi –, no dia 18 de outubro de 2014, foi encerrada em Roma a III Assembleia Geral Extraordinária dos Bispos. O texto final é encabeçado pelo título: “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”. Este foi dividido em três partes: I. A escuta: o contexto e os desafios sobre a família; II. O olhar sobre Cristo: o Evangelho da Família; III. O confronto: perspectivas pastorais. Uma introdução e uma conclusão acompanham o texto. Ao todo, o texto forma um conjunto de 62 parágrafos. Foram 183 os presentes na votação final. Na nota 1, abaixo, encontra-se o link do texto no site do Vaticano, onde podemos ter, inclusive, a informação dos “placet” e dos “non placet” de cada parágrafo. Vale à pena conferir.

Este Relatório Final é apenas o primeiro documento fruto deste Sínodo. O Papa Francisco deverá publicar, em 2015, uma Exortação Apostólica sobre o mesmo. Este Sínodo constitui-se, portanto, na primeira etapa de um caminho que prossegue até o próximo Sínodo Ordinário, a realizar-se de 4 a 25 de outubro de 2015.

Na Introdução, os Bispos, reunidos em torno do Papa, volvem o seu pensamento na direção de todas as famílias, “com suas alegrias, seus cansaços e suas esperanças” (n.1), agradecendo ao Senhor por “tantas famílias cristãs que respondem com generosa fidelidade à sua vocação e missão” (n. 1). Reconhecem que a família é verdadeiramente uma “escola de humanidade”, fazendo referência à Gaudium et Spes n. 52, e a redescobrem como “sujeito imprescindível para a evangelização” (n. 2). Na escuta atenta dos sinais de Deus e da história e na fidelidade a eles, vão se perfilando as três partes que aqui apresentamos sucintamente.

A primeira parte – A escuta: o contexto e os desafios sobre a família – assume a realidade da família hoje com todas as suas luzes e sombras, tendo presente cada um dos seus membros, e capta tanto os pontos positivos como os desafios que se apresentam, sem esquecer o contexto de mudanças antropológico-culturais que envolve a família. Nos aspectos positivos, o texto sublinha a maior liberdade de expressão, maior reconhecimento dos direitos da mulher e das crianças em algumas regiões do mundo (cf. n. 5). Entre os desafios, está o forte individualismo que enfraquece os laços familiares, isola as pessoas e confina, em alguns casos, os sujeitos em seus próprios desejos assumidos como um absoluto (cf. n. 5). A isso se acrescenta a crise de fé, dando origem a uma profunda solidão. Temos aí um contexto muito pobre da cultura de hoje, fruto da ausência de Deus e da fragilidade das relações. A família encontra igualmente desafios socioeconômicos que não encorajam os jovens ao matrimônio, faltando da parte dos Estados oferecer condições favoráveis à opção de formar uma família.

Nesta mesma parte, enumeram-se desafios particulares que envolvem a família e o matrimônio, tais como: a poligamia, o matrimônio por etapas, matrimônios combinados, matrimônios mistos com disparidade de culto, a união por convivência ou coabitação. Apresentam-se ainda desafios tais como o nascer e o crescer numa família de um só genitor ou em contextos familiares alargados, frutos de divórcios e de novas uniões. A violência contra a mulher, o abuso sexual, a violência da guerra, do terrorismo e de organizações criminosas, bem como a migração forçada são outras situações que deterioram as condições em que vivem nossas famílias. 

Logo de saída, como Igreja, nos deparamos com desafios de grande monta, tais como o cuidado concreto das pessoas, a ajuda aos casais no seu desenvolvimento emocional/afetivo, tendo como base o diálogo, a confiança, o amor misericordioso de Deus. Cabe aqui uma integração da afetividade, superando visões distorcidas vindas da cultura atual que penetram com facilidade em nossos lares. Preocupa também a baixa natalidade, fundada numa mentalidade antinatalista. Para a Igreja, todo este contexto a desafia a “dizer uma palavra de verdade e de esperança” (cf. n. 11), do sentido do “ser humano”, de sua origem divina, acolhendo sempre as pessoas em sua existência concreta, encorajando seu desejo de Deus e sua vontade de se sentirem plenamente na Igreja.

A segunda parte – O olhar sobre Cristo: o Evangelho da Família – nos brinda com a fundamentação teológica, toda centrada em Cristo, fonte da esperança cristã.  A partir d’Ele, se abrem caminhos novos e possibilidades impensadas (cf. n. 12). Deus comunica à humanidade a sua graça da aliança, numa orientação para Cristo; isto Ele o realiza em diferentes graus, envolvendo a ordem da criação com a ordem da redenção. São muitas as sementes do Verbo, ainda escondidas, que precisam ser descobertas, inclusive em meio às transformações profundas de nosso tempo. Cabe, portanto, empreender “um processo dinâmico, que avança gradualmente, com a progressiva integração dos dons de Deus” (cf. 13).

O relatório final do Sínodo reafirma a união indissolúvel entre o homem e a mulher, fazendo referência a Jesus Cristo (Mt 19,3-8). Enfatiza que a indissolubilidade do matrimônio não representa uma imposição, mas integra a lógica do “dom”, que advém da graça e da cruz assumidas. A família integra assim o projeto de Deus, fundando-se na família das origens. Ela vem envolta do mistério de Amor da Trindade. E ela recebe de Cristo, através da Igreja, “a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão” (n. 16). Existe uma dignidade do matrimônio e da família que a Igreja sempre promoveu através dos séculos, tendo o Concílio Vaticano II dedicado à família todo um capítulo da Gaudium et Spes, com destaque para o amor como o seu centro. Após o Concílio Vaticano II, o Magistério da Igreja não cessou de dedicar-lhe uma atenção contínua, aprofundando o ensino sobre o matrimônio e a família (cf. 17-20).

Enraizados na graça do batismo, que os une a Cristo na Igreja, os nubentes se acolhem no dom total, na fidelidade e na abertura à vida. Envoltos pela graça de Cristo e pelo cuidado da Igreja, a família é reconhecida como a “célula basilar necessária e fecunda da convivência humana” (n. 22). Evidencia-se no relatório final do Sínodo: “na família, ‘que se poderia chamar de Igreja doméstica’ (Lumen Gentium, 11), matura a primeira experiência da comunhão entre as pessoas, nas quais se reflete, pela graça, o mistério da Santíssima Trindade” (n. 23).

A Igreja sabe que o vínculo nupcial se funda no sacramento que contém um caráter indissolúvel. Ao mesmo tempo, sabe da fragilidade que acompanha as pessoas no matrimônio, Por isso, “sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. [...] Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas” (Evangelii Gaudium, n. 44). 

A Igreja quer também revelar a sua pedagogia da graça e apresentar a plenitude do plano de Deus àqueles que se encontram unidos num contrato civil, divorciados, em segunda união ou que apenas coabitam. A estes também a Igreja quer apresentar a luz de Cristo, reconhecendo que a graça de Deus opera em suas vidas, levando-os a fazer o bem e a cuidarem com amor uns dos outros. A Pastoral Familiar terá um olhar atencioso, misericordioso e encorajador em relação aos jovens que assumem uniões nem sempre estáveis. “Os jovens batizados são encorajados a não hesitar diante da riqueza que lhes proporciona o sacramento do matrimônio aos seus projetos de amor” (n. 26). “Quando a união atinge uma notável estabilidade através de um vínculo público, é vivida com afeto profundo, com responsabilidade ante à prole, com capacidade de superar as provações, pode ser vista como uma ocasião de acompanhá-la no crescimento em direção do sacramento do matrimônio” (n. 27). Cabe à Igreja “acompanhar com atenção e cuidados os seus filhos mais frágeis” (n. 28).

A terceira parte – O confronto: perspectivas pastorais – inicia observando que o relatório final deteve-se apenas em algumas questões pastorais mais urgentes, confiando a concretização das mesmas às Igrejas locais, na comunhão “cum Petro e sub Petro” (n. 29). O anúncio do Evangelho da Família é uma urgência e constitui uma missão de todo o povo de Deus. Diante da fragilidade humana, não cabe vir com condenações, mas importa buscar sempre salvá-la. Em primeiro lugar, está sempre a graça. Importa cooperar com a graça na obra de Deus. Não basta se ater ao teórico. É hora de anunciar as riquezas do matrimônio, sem calar diante das dificuldades, dispondo-se a uma “renovação radical da práxis pastoral à luz do Evangelho da Família” (n. 37).

A realidade social é complexa e os desafios que se nos apresentam requerem de nossa parte um empenho maior na preparação dos nubentes ao matrimônio. Toda a comunidade deve estar envolvida neste empenho. Além disso, faz-se necessário acompanhar os primeiros anos da vida matrimonial (cf. n. 40) para enfrentar os desafios, aprofundar o sentido do sacramento, crescer espiritualmente, acolher o dom dos filhos, crescer na solidariedade e na pertença à Igreja, sendo fortalecidos pela participação aos sacramentos.

É igualmente indispensável que haja um cuidado pastoral em prol daqueles que vivem em matrimônio civil, coabitam ou que estão nas chamadas uniões de fato. Trata-se de um diálogo pastoral a ser travado, cientes da plenitude do Evangelho, debruçando-se sempre com paciência e cuidado junto às pessoas envolvidas, transformando tais situações em oportunidade de um caminho em busca da plenitude que se revela no Evangelho. É preciso saber cuidar das famílias feridas, dos separados, divorciados e não recasados, dos divorciados e recasados, das famílias monoparentais. Caridade, misericórdia, reconciliação e perdão não podem ser noções distantes, mas que se encontram no coração de escolhas pastorais corajosas, alimentadas de um olhar e zelo diferenciados. Não podemos ficar alheios ao sofrimento que comportam muitas dessas situações, nem às feridas que demoram a cicatrizar, muito menos à longa espera por uma solução. Muitos Padres sinodais sublinharam a necessidade de sermos mais acessíveis e ágeis nos procedimentos relativos ao reconhecimento dos casos de nulidade (n. 48), possivelmente sem custos.  Cada situação aqui descrita necessita ser acompanhada com um atento discernimento e grande respeito, sem discriminação, promovendo a sua participação na vida da comunidade. Com relação aos divorciados recasados, quanto à acolhida ou não aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia, há posicionamentos que excluem esta possibilidade; há outros que buscam uma acolhida não generalizada, precedida de um discernimento para cada caso e de um caminho penitencial (cf. n. 52).

Com relação à homossexualidade, apesar das manchetes publicadas na mídia no decorrer do Sínodo, o relatório final pouco falou, dedicando-lhe dois breves parágrafos (n. 55 e 56). Por um lado, refere-se a uma atenção pastoral, relembrando a não discriminação com relação às pessoas homossexuais. Por outro lado, o relatório enfatiza que não há fundamento no fato de querer estabelecer analogias entre as uniões homossexuais e desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família.

A transmissão da vida e as taxas muito baixas de natalidade mereceram uma atenção no relatório final, destacando que “a abertura à vida é uma exigência intrínseca do amor conjugal” (n. 57), sinal de um amor vivido em sua plenitude. Lembra ainda que cabe encorajar a adoção de crianças, de órfãos e de abandonados; esta é uma “forma específica de apostolado familiar” (n. 58) e “exprime uma fecundidade especial da experiência conjugal” (n. 58). A afetividade tem aí um lugar indispensável, cabendo proporcionar caminhos em direção à maturidade.

A tarefa educativa permanece um dos grandes desafios da família, exigindo ainda mais empenho, haja vista as realidades culturais de nosso tempo. As famílias são chamadas a serem “lugares de crescimento, de transmissão concreta e essencial das virtudes, que dão forma à existência [...], de suscitar escolhas e responsabilidade, vividas à luz do Evangelho” (n. 60-61). Cabe à Igreja vir em apoio às famílias na missão que lhes é própria.

Na breve conclusão, os Padres sinodais lembram que as reflexões contidas neste relatório final têm como objetivo “levantar questões e indicar perspectivas que deverão ser maturadas e precisadas por meio da reflexão das Igrejas locais no decorrer do ano que nos separa da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos prevista para outubro de 2015, dedicada à vocação e missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo” (n. 62).

Notas:

1 - Cf. Synod14 - “Relatio Synodi” della III Assemblea generale straordinaria del Sinodo dei Vescovi: “Le sfide pastorali sulla famiglia nel contesto dell’evangelizzazione” (5-19 ottobre 2014). Acessível em http://press.vatican.va/content/salastampa/pt/bollettino/pubblico/2014/10/18/0770/03044.html.

 

 

 

O Sínodo dedicado à Família se aproxima
Ecos do Instrumentum laboris

Está se aproximando a realização do III Sínodo Extraordinário dedicado à Família. Este realizar-se-á nos dias 5 a 19 de outubro próximo. Serão 253 os participantes (1). Os Padres sinodais serão 191, incluindo os 25 chefes de dicastérios da Cúria Romana e os 114 presidentes de Conferências Episcopais: 36 da África, 24 da América, 18 da Ásia, 32 da Europa e 4 da Oceânia. Serão 62 os outros participantes, incluindo 8 Delegados fraternos: dentre os quais, também Hilarion, presidente do Departamento para as relações exteriores do Patriarcado de Moscou. Das Igrejas Orientais, virão treze expoentes, provenientes de países em conflito, como Iraque e Ucrânia, representados respectivamente pelo Patriarca caldeu, Louis Sako, e pelo Arcebispo maior greco-católico Shevchuk. E ainda treze casais de cônjuges que farão parte dos 38 auditores, com direito de palavra, mas não de voto. Outros dois casais fazem parte dos 16 peritos, ou seja dos colaboradores do Secretário especial. 

As nossas reflexões, veiculadas todo mês pelas “Comunicações”, tiveram como objetivo abordar sempre um tema relacionado à família, como parte da formação permanente. O foco deste mês é o próprio Instrumentum laboris deste Sínodo. Este é fruto de uma vasta consulta a toda a Igreja, cujas contribuições foram reunidas e sintetizadas no instrumento de trabalho (2). Portanto, a seguir, apresentaremos alguns itens deste Instrumentum laboris (apenas IL para as menções e citações).

O IL organiza-se em três grandes partes: I. Comunicar o Evangelho da família hoje; II. A pastoral da família face aos novos desafios; III. A abertura à vida e a responsabilidade educativa. Cada uma destas partes é subdividida em capítulos. Há uma “apresentação” feita pelo Secretário Geral do Sínodo dos Bispos Cardeal Lorenzo Baldisseri, seguida de uma “premissa”. Após as 3 partes que formam o corpo do documento, temos uma conclusão muito breve, seguida de uma “Oração à Sagrada Família”. Ao todo, perfilam-se 159 parágrafos.

Na “premissa”, remete-se para o anúncio do Evangelho da família, núcleo vital da sociedade e da comunidade eclesial, como parte integrante da missão da Igreja, em continuidade com as iniciativas já tomadas por Bento XVI, por ocasião da Assembleia sinodal sobre a nova evangelização para a transmissão da fé cristã e do Ano da fé. Citando a Dei Verbum n. 8, sublinha que “a tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo”, para enfatizar, em seguida, que “a família constitui um recurso inesgotável e uma fonte de vida para a pastoral da Igreja; por conseguinte, a sua tarefa primária é o anúncio da beleza da vocação para o amor, grande potencial também para a sociedade”.

Na primeira parte – Comunicar o Evangelho da Família hoje –, o IL começa fazendo a leitura do desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família. O dado bíblico torna-se a iluminação fundamental, quer vindo do Antigo Testamento quer vindo do Novo Testamento. O próprio Jesus viveu e cresceu numa família, sendo sua pregação em favor do vínculo sacramental indissolúvel, Ele que assume o amor humano e o aperfeiçoa. “Na encarnação, Ele assume o amor humano, purifica-o, leva-o à plenitude, e doa aos esposos, com o seu Espírito, a capacidade de o viver, permeando toda a sua vida de fé, esperança e caridade” (IL n. 4). O amor nupcial passa a se referir “ao grande mistério” que torna presente no mundo o amor entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 31-32). No decorrer da história, a Igreja sempre enfatizou o ensinamento sobre a dignidade do matrimônio e da família (cf. GS 47-52), definindo o matrimônio como comunidade de vida e de amor (cf. GS 48). Para isso, se requerem sacerdotes e ministros preparados para acompanhar os fiéis ante a riqueza deste sacramento, segundo o ensinamento da Igreja.

Ainda na primeira parte, o IL reconhece ser problemático o uso do termo lei natural, referido à família, por sua perda de sentido, pelo seu uso equivocado, apontando ser desejável uma renovação da linguagem (cf. IL n. 20-30). Uma vez referida à pessoa de Cristo, a família “continua a ser um espaço privilegiado no qual Cristo revela o mistério e a vocação do homem” (IL n. 31). E junto ao povo de Deus, “a família é reconhecida como um bem inestimável, o ambiente natural de crescimento da vida, uma escola de humanidade, de amor e de esperança para a sociedade” (IL n. 31); ela é a “célula básica da sociedade, o espaço onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros” (EG n. 66). Buscando fundar a família na Trindade, o IL afirma que “a experiência do amor recíproco entre os esposos ajuda a compreender a vida trinitária como amor: através da comunhão vivida em família, as crianças podem divisar uma imagem da Trindade” (n. 35), sendo “o matrimônio o ícone do amor de Deus por nós” (n. 35). Evidenciam-se os pais como os primeiros educadores, na fé vivida e explicitada, na oração própria da família como “igreja doméstica”, no desenvolvimento integral de seus membros, no vínculo duradouro e estável ante a crise e instabilidade atuais.

Finalizando a primeira parte, o IL aponta para “a necessidade de uma pastoral familiar que tenha como objetivo uma formação constante e sistemática acerca do valor do matrimônio como vocação, da redescoberta da genitorialidade (paternidade e maternidade) como dom”. E insiste que “o acompanhamento do casal não se deve limitar à preparação para o matrimônio, em relação à qual se aponta - aliás - a necessidade de rever os percursos” (n. 49).

Na segunda parte – A pastoral da Família face aos novos desafios –, o IL inicia citando a responsabilidade dos Pastores e a necessidade de reunir os diversos carismas e ministérios na comunidade eclesial em prol da Pastoral Familiar; busquem-se, inclusive, formas novas para uma presença efetiva da Igreja junto às famílias, uma Igreja com a coragem de “sair” de si, animada pelo Espírito Santo (cf. IL n. 50). Encontra-se uma diversidade muito grande e uma riqueza ímpar na preparação para o matrimônio, que deve ser levada a sério e ser mais propagada. Merece apoio a piedade popular e a espiritualidade familiar que alimentam a vida de nossas famílias.

Nesta parte, há todo um capítulo sobre os desafios pastorais da família (n. 61-79), começando por mencionar a crise da fé e a vida familiar, passando pelas situações críticas internas à família, pressões externas à família, até chegar a tratar de algumas situações particulares. Outro capítulo inteiro ocupa-se das situações pastorais difíceis (n. 80-120), quer familiares, quer aquelas situações que remetem para as uniões do mesmo sexo. Com relação às primeiras, “sobressai a consideração comum de que, no âmbito daquelas que podem ser definidas situações matrimoniais difíceis, escondem-se histórias de grande sofrimento, assim como testemunhos de amor sincero. ‘A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. [...] a casa paterna na qual há lugar para todos com a sua vida cansativa’ (EG 47). A verdadeira urgência pastoral é a de permitir que estas pessoas curem as feridas, sarem e retomem o caminho juntamente com toda a comunidade eclesial” (IL n. 80). Enumeram-se aqui diversas situações e algumas questões: as convivências ad experimentum; as uniões de fato; os separados, divorciados e divorciados recasados; os filhos e quantos permanecem sozinhos; as mães solteiras; as situações de irregularidade canônica; o acesso aos sacramentos; os separados e os divorciados; a simplificação das causas matrimoniais; a atenção às situações difíceis; os não-praticantes e não-crentes que pedem o matrimônio; e solicitações diversas de orientação.

Com relação às uniões entre pessoas do mesmo sexo, o IL aponta que, “nas respostas das Conferências Episcopais, há referências ao ensinamento da Igreja”. «Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. [...] No entanto, os homens e as mulheres com tendências homossexuais ‘devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Deve evitar-se, para com eles, qualquer atitude de injusta discriminação’» (CDF, Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 4)” (IL n. 110). Com relação ao “caso das pessoas que vivem nestas uniões pedirem o batismo para o filho, as respostas, quase unanimemente, ressaltam que o filho deve ser acolhido com a mesma atenção, ternura e solicitude que recebem os outros filhos. Muitas respostas indicam que seria útil receber diretrizes pastorais mais concretas para estas situações” (n. 120).

Na terceira parte – A abertura à vida e a responsabilidade educativa –, são apresentados dois capítulos. O primeiro deles apresenta os desafios pastorais acerca da abertura à vida. Aqui, salienta-se a visão cristã da vida e da sexualidade e lembra-se da Humanae vitae, quando afirma a união inseparável entre o amor conjugal e a transmissão da vida. Solicita-se, no IL, que se conheça o ensinamento da Igreja neste particular, incluído o dos métodos de regulação dos nascimentos e o da discussão em torno da paternidade e maternidade responsáveis. Os desafios se avolumam nesta área, merecendo desdobramentos diversos, sobretudo ante o fosso existente entre o ensinamento da Igreja e a educação civil, especialmente em regiões mais secularizadas. Relatam-se práticas pastorais, fazem-se considerações sobre a participação sacramental, enfatizando a necessidade de promover uma mentalidade aberta à vida.

O segundo capítulo desta parte desenvolve o tema da Igreja e da família diante do desafio educativo, no qual se destaca a importância de uma educação integral no seio de nossas famílias. Inserem-se neste âmbito a transmissão da fé e a iniciação cristã. Há uma preocupação particular com relação à educação cristã em situações familiares difíceis. Afirma-se que “a Igreja é chamada a assumir um importante papel de mediação, através da compreensão e do diálogo” (IL n. 144). Muitas são as indicações de que há necessidade de renovação, de criatividade e mesmo de alegria na maneira de a Igreja acompanhar de maneira adequada as diversas realidades familiares (cf. IL n. 147).

Notas

  • 1 - Os detalhes da participação foram recolhidos no site: http://pt.radiovaticana.va/news/2014/09/09/participar%C3%A1_no_s%C3%ADnodo_sobre_a_fam%C3%ADlia,_um_leigo_mo%C3%A7ambicano,_ativo_na/por-824360
  • 2 - SINODO DOS BISPOS – III ASSEMBLEIA EXTRAORDINÁRIA. Os desafios pastorais da família no contexto da Evangelização. Cidade do Vaticano: Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos; Libreria Edirice Vaticana, 2014.

 

Situações especiais e casos difíceis

São cada vez mais numerosas, em nossos dias, as situações especiais nas quais se encontram nossas famílias. São, não raras vezes, casos difíceis, vividos em meio a muitos conflitos e não poucos sofrimentos. Importa saber tratar com o devido embasamento ético-moral os que vivem nestas situações. Entre estas situações, podemos enumerar, como o faz a Familiaris Consortio, as uniões livres, o matrimônio por experiência, os casais unidos só em matrimônio civil, os separados e divorciados, os que contraem segunda união, os sem família e muitas outras situações particulares(1).

Podemos elencar estas ou outras situações na forma como o faz o Diretório da Pastoral Familiar, da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB: uniões de fato; separação mantendo a fidelidade ao vínculo conjugal; matrimônio canônico precedido por um divórcio civil; casados na Igreja, divorciados civilmente e novamente unidos pelo casamento civil; católicos unidos apenas no civil; crianças e famílias em situação de risco pessoal e social; crianças e adolescentes desprotegidos, abandonados ou em perigo; atenção aos idosos; famílias de migrantes(2). O Instrumentum laboris do Sínodo, a ser realizado em outubro próximo, acrescenta situações familiares especiais ou difíceis como as convivências ad experimentum e as mães solteiras(3).

1. O acompanhamento pastoral

Com relação às situações aqui aludidas, queremos apontar algumas linhas gerais e norteadoras do acompanhamento pastoral que aí se fazem necessárias. Para isto, se requer o empenho e o cuidado moral e pastoral nos seguintes pontos:

  • a) Conhecer as situações e as suas causas concretas, caso por caso;
  • b) Empenhar-se numa ação de esclarecimento paciente;
  • c) Não abandonar, por motivo algum, os que se encontram em qualquer uma dessas situações. João Paulo II diz-nos: “Que elas não se considerem separadas da Igreja”(4).
  • d) Buscar, sempre que possível, “aplainar o caminho para regularizar a situação”(5).
  • e) Fazer sempre uma obra de prevenção, evitando ulteriores degradações;
  • f) Distinguir entre o mal e a pessoa. “Ele (Jesus) foi intransigente para com o mal, porém misericordioso para com os homens”(6).
  • g) Oferecer às famílias em dificuldades apoio e orientação, no diálogo;
  • h) Aos cônjuges separados, preste-se apoio e acolhida, com especial atenção aos filhos;
  • i) Distinguir quem é causa e quem é vítima em cada um dos casos. É bom sempre ter presente que “a pessoa é mais que a situação em que está envolvida”(7);
  • j) Distinguir, com atenção e perspicácia, os que procuram ‘recursos’ mal intencionados;
  • k) Sejam dadas as orientações necessárias para os que podem ou devem recorrer aos tribunais eclesiásticos.

Na Familiaris Consortio são apresentados também os chamados “casos difíceis” da Pastoral Familiar, além dos já citados. Trata-se de circunstâncias particulares, tais como, “as famílias dos emigrantes por motivos de trabalho; as famílias dos que são obrigados a ausências longas, por exemplo, os militares, os marinheiros, os itinerantes de todo tipo; as famílias dos presos, dos prófugos e dos exilados; as famílias que vivem praticamente marginalizadas nas grandes cidades; aquelas que não têm casa, as incompletas ou ‘monoparentais’; as famílias com filhos deficientes ou drogados; as famílias dos alcoólatras; as famílias desenraizadas do seu ambiente social e cultural ou em risco de perdê-lo; as discriminadas por motivos políticos ou por outras razões; as famílias ideologicamente divididas; as que dificilmente conseguem ter um contato com a paróquia; as que sofrem violência ou tratamentos injustos por causa da própria fé; as que se compõem de cônjuges menores; os idosos, não raramente forçados a viver na solidão e sem meios adequados de subsistência”(8).

Para estes casos, solicitava João Paulo II que haja “um empenho pastoral ainda mais generoso, inteligente e prudente, na linha do Bom Pastor, para aquelas famílias que – muitas vezes independentemente da própria vontade ou pressionadas por outras exigências de natureza diversa – se encontram em situações objetivamente difíceis. A este propósito é necessário voltar especialmente a atenção para algumas categorias particulares, mais necessitadas não só de assistência, mas de uma ação mais incisiva sobre a opinião pública e sobretudo sobre as estruturas culturais, econômicas e jurídicas, a fim de se poderem eliminar ao máximo as causas profundas do seu mal-estar”(9).

Importa, ao mesmo tempo, deixar claro que “as notas essenciais do matrimônio sacramental são a unidade, a indissolubilidade, o bem dos cônjuges e a procriação e educação dos filhos”(10). O caráter indissolúvel do matrimônio aparece sempre como uma “premissa maior”. Ao mesmo tempo, busca-se lembrar que a graça sacramental coloca os cônjuges num caminho de santificação e que, portanto, é caminho de crescimento, de aperfeiçoamento gradual, fortificando a unidade indissolúvel.

2. Um quadro de instabilidade familiar

Não podemos, é claro, fechar os olhos para a diversidade de situações conjugais e familiares. Hoje em dia, constatamos que a família deixou de ser uma realidade monolítica, dentro do quadro que herdamos de uma família patriarcal e extensa. A nucleação familiar encontra-se reduzida, com uma composição variável, portanto, polifacética.

A análise das situações especiais, muitas vezes difíceis, nos faz constatar que, além do fenômeno estrutural, existe o relacional. Constatamos muitas vezes que “a família pode estar estruturalmente bem organizada e, no entanto, ser irregular pela desarmonia em suas relações: esponsais, familiares, filiais, fraternas, falta de um dos membros”(11). Além disso, damo-nos conta de uma real instabilidade familiar em nossos dias. 

A instabilidade familiar torna-se mais claramente presente em nosso país à medida que a sociedade se urbaniza, a industrialização avança e uma visão moderna e pós-moderna de indivíduo se impõe, esta reforçada pela força dos meios de comunicação social. A própria revolução industrial trouxe alterações no núcleo familiar, quer na maneira como se leva a cabo a atividade produtiva, não mais decidida dentro do quadro familiar, quer na transformação das relações sociais, antes centradas na grande família(12).

“O indivíduo passa a trocar sua energia por um salário que é pessoal. A força da tradição decai. Fatores mais racionais, de capacidade, realização e eficácia, passam a reger a vida, numa sociedade que deixa de ser estática. Esses fatores afetam em cheio o tipo de família patriarcal. De instituição principal, a família passa a uma posição subalterna, face ao econômico capitalizado. A grande indústria passa a tratar com indivíduos e não mais com famílias. Isso vai ‘liberando’ o indivíduo de suas obrigações, cargas e dependências familiares, o que vale também para as mulheres e os jovens. O trabalho, que se dava dentro do grupo familiar extenso, agora passa a um meio não-familiar, cujos critérios são igualmente extrafamiliares”(13).

O Instrumentum laboris do próximo Sínodo, dedicado à Família, enumera também “a crise da fé na sua relação com a família; os desafios internos e os desafios externos, que dizem respeito à realidade familiar; algumas situações difíceis, relacionadas com uma cultura do individualismo e com a desconfiança nas relações estáveis”(14). Cabe aqui consultar o próprio documento preparatório do Sínodo.

3. Doutrina da Igreja e atenção às situações especiais e difíceis

Há uma preocupação do Magistério da Igreja que é sempre salvaguardar a doutrina da indissolubilidade do sacramento do Matrimônio. Esta preocupação liga-se ao próprio sacramento da Eucaristia, enquanto significa e realiza a Aliança fiel de amor entre Cristo e a Igreja. Ao mesmo tempo, a Igreja procura caminhos para a prática pastoral e o acompanhamento moral para que estes casais participem da vivência comunitária da fé.

Foi-se o tempo em que a Igreja simplesmente considerava os casais em segunda união, por exemplo, como ipso fato infames e publice indigni(15). Excluídos da Eucaristia e da Reconciliação, eis que eram publicamente infames(16). O tom utilizado no novo Código de Direito Canônico, de 1983, já tenta colher os frutos de uma nova reflexão. Ainda fala da não admissão à Eucaristia(17) para quem está em pecado grave; no entanto, começa a querer ouvir as declarações das partes para a verificação da validade do matrimônio, constituindo eventuais prova de nulidade, buscando dar-lhe credibilidade. Compreende-se que há histórias humanas, às vezes trágicas.

O Magistério da Igreja tem reiteradamente apresentado a defesa da indissolubilidade do matrimônio, como o fez, após a Familiaris Consortio, na Carta aos Bispos da Igreja Católica a respeito da recepção da comunhão eucarística por fiéis divorciados e novamente casados, de 1994, na introdução de um documento de 1997 da Congregação para a Doutrina da Fé, onde já se fala de uma vivência cristã dos recasados(18). Também estes não devem perder a esperança de alcançar a salvação.

Sempre recordando os pontos fulcrais da doutrina católica, a Igreja já manifesta a sua solicitude e busca que estes fiéis recasados perseverem na vivência destes ensinamentos; sabe que nem sempre têm culpa própria, manifestando o desejo de acompanhá-los maternal e misericordiosamente. O próprio Sínodo de 1980 já expressava o desejo de um “cuidado pastoral” e, concomitantemente, um “estudo mais aprofundado neste campo”, sugerindo que se leve “em consideração a prática pastoral das Igrejas Orientais”(19).    

O Instrumentum laboris da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, recém-publicado, destaca com clareza a atenção a ser dedicada às situações difíceis. Vejamos o que diz o documento:

“A caridade pastoral impele a Igreja a acompanhar as pessoas que passaram por uma falência matrimonial e a ajudá-las a viver a sua situação com a graça de Cristo. Uma ferida mais dolorosa abre-se para as pessoas que voltam a casar-se, entrando numa condição de vida que não lhes permite o acesso à comunhão. Sem dúvida, nestes casos a Igreja não deve assumir a atitude de juiz que condena (cf. Papa Francisco, Homilia, 28 de Fevereiro de 2014), mas a de uma mãe que acolhe sempre os seus filhos e cuida das suas feridas em vista da cura (cf. EG 139-141). Com grande misericórdia, a Igreja é chamada a encontrar formas de ‘companhia’ com as quais apoiar estes seus filhos num percurso de reconciliação. Com compreensão e paciência, é importante explicar que a impossibilidade de aceder aos sacramentos não significa ser excluídos da vida cristã e da relação com Deus”(20).

Notas

  • 1 Cf. JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. 17ª edição. São Paulo: Paulinas, 2003, n. 77; 80-85.
  • 2 CNBB – Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, Diretório da Pastoral Familiar, São Paulo: Paulinas, 2005, cap. 7.
  • 3 III ASSEMBEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS - 2014. Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização (Instrumentum laboris). Cidade do Vaticano, 2014, n. 81 e 88.
  • 4  Cf. JOÃO PAULO II. Op. cit., n.  n° 84, p. 146.
  • 5  Ibidem, n. 81, p. 143.
  • 6  Citação do Papa Paulo VI, feita por CNBB. Orientações pastorais sobre o Matrimônio. Col. Documentos da CNBB n° 12. São Paulo: Paulinas, 1978, p. 24.
  • 7  Cf. ibidem, p. 32.
  • 8 JOÃO PAULO II.  Op. cit., n° 77, p. 134-135.
  • 9 Ibidem, n° 77, p. 134.
  • 10 CNBB – Setor Família e Vida. Diretório da Pastoral Familiar. 1ª versão (provisória). Brasília: CNBB, 2003, parte VII.
  • 11 SOBRADO, Clemente. Linhas para uma Pastoral Familiar das “situações irregulares”. Boletim CELAM, 273, julho-setembro de 1996, p. 78.
  • 12 Cf. HINOJAL, Isidoro Alonso. A crise da instituição familiar (entrevistando William J. Goode). Rio de Janeiro: Salvat Editora do
  •  Brasil, 1979, p. 43s.
  • 13 AGOSTINI, Nilo. Teologia Moral: Entre o pessoal e o social. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 71.
  • 14 III ASSEMBEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS - 2014. Op. cit., n. 61.
  • 15 Cf. Código de Direito Canônico de 1917, cânones 2356 e 855,1.
  • 16 Cf. RATZINGER, Joseph. Introducción. In: CONGREGACIÓN PARA LA DOCTRINA DE LA FÉ. Sobre la atención pastoral de los divorciados vueltos a casar: documentos, comentário y estúdios. Madrid: Palabra, 1997, p. 11.
  • 17 Cf. Código de Direito Canônico de 1983, cânon 915.
  • 18 Cf. CONGREGACIÓN PARA LA DOCTRINA DE LA FÉ. Op. cit., p. 15-25. 
  • 19 SÍNODO DOS BISPOS DE 1980. Prop. Sin. 14,6.
  • 20 III ASSEMBEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS - 2014. Op. cit., n. 103.

 

O cuidado moral e pastoral de nossas famílias

A família constitui-se, segundo a Igreja, “num patrimônio da humanidade”, num dos seus “mais importantes tesouros”(1). Em nossa condição de discípulos missionários de Jesus Cristo, sentimo-nos chamados a trabalhar em prol da família, empreendendo em favor dela os nossos melhores esforços. Sendo a família “um dos bens mais preciosos da humanidade”(2), ela permanece a comunidade fundamental, o horizonte de vida permanente, o sustentáculo do humano.

Sabemos como é urgente a presença pastoral da Igreja em favor da família, sobretudo em nossos dias. João Paulo II foi enfático em afirmar que “é preciso empregar todas as forças para que a pastoral da família se afirme e desenvolva, dedicando-se a um setor verdadeiramente prioritário, com a certeza de que a evangelização, no futuro, depende em grande parte da Igreja doméstica”(3).

1.  A necessária atitude pastoral em favor da família

Já em 1974, na sua XIV Assembleia Geral, a CNBB incluía como prioridade, no seu então Plano Bienal (1975/1976), a Pastoral da Família. A Comissão Representativa da CNBB, em consonância com a Comissão Episcopal de Pastoral, aprovou e publicou em março de 1975 o documento Em favor da Família, no qual se projetam algumas linhas de ação, assim resumidas:

  • “a) Criar condições para que a família possa realizar sua tríplice missão de formadora de pessoas, de evangelizadora e de construtora da sociedade;
  • b) Levar em consideração a evolução pela qual passa a instituição familiar e bem assim os novos valores que surgem;
  • c) Colaborar na realização de estruturas sociais que permitam às famílias marginalizadas atingir condições mínimas de estabilidade;
  • d) Incentivar e aprimorar a pastoral junto aos casais cristãos, a começar pela preparação séria para a consciente celebração do sacramento do matrimônio”(4).

Os pontos acima já demonstram uma clareza que foi se impondo pouco a pouco na prática na linha de uma Pastoral Familiar. Esta foi superando o quadro de uma Pastoral da Família, mais centrada no núcleo familiar como tal, sem ter em contra a incidência dos fatores socioeconômicos e culturais sobre o quadro familiar, o que a Pastoral Familiar procura hoje incluir(5).

Em nossos dias, diante do considerável número de movimentos, institutos e serviços familiares, a Pastoral Familiar busca um entrosamento de todo esse empenho existente. Sobre isso, já líamos no texto-base da Campanha da Fraternidade de 1994:

“Algumas vezes, os movimentos, serviços e institutos parecem centrar-se em suas necessidades internas. Pode acontecer que alguns deles tenham dificuldades em trabalhar mais em união com a Pastoral Familiar paroquial ou diocesana. Nem sempre paróquias e dioceses têm Pastoral Familiar organizada e os movimentos ocupam este vácuo, não sabendo ou não podendo colocar as bases de uma Pastoral Familiar mais ampla e mais completa. Certo é que, devido à sua estruturação, à formação permanente de seus membros, ao número relativamente elevado de seu contingente, esses movimentos poderão dar uma indispensável colaboração na concretização de todas as etapas da Pastoral Familiar”(6).

A Pastoral Familiar deve permear toda a ação evangelizadora da Igreja, desde os tempos fortes da atividade pastoral (Natal em Família, Campanha da Fraternidade, Semana Nacional da Família) até a proposta de uma educação para o amor, que deve estar presente em todas as pastorais. Como nos diz o Documento de Aparecida, é próprio da Pastoral Familiar “comprometer de maneira integral e orgânica as outras pastorais, os movimentos e associações matrimoniais e familiares a favor das famílias”(7).

Um dos desafios, sobretudo em situações como a nossa, é integrar na Pastoral Familiar os menos favorecidos. E aqui precisamos superar os clichês que trabalham com os aparentemente “superiores” e os “inferiores” da sociedade, os “cultos” e os “incultos”, os aparentemente “certinhos” e os “errados” etc. É bom dar-se conta que existe toda uma cultura que brota dos empobrecidos, com uma força vital toda própria, assim descrita por João Paulo II em Puebla, no México: “A sua visão de vida, que reconhece a sacralidade do ser humano e do mundo, o seu respeito pela natureza, a humildade, a simplicidade, a solidariedade são valores que hão de estimular o esforço por levar a cabo uma autêntica evangelização inculturada”(8).

Difíceis condições de vida ameaçam a instituição familiar. Em especial, é preocupante a situação das crianças e dos idosos. Merece contínua atenção a dignidade e participação das mulheres e a responsabilidade do homem e pai de família. “Somos chamados a trabalhar para que tal situação seja transformada e a família assuma seu ser e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja”(9).

2. O aporte ético-moral

Quando falamos do aporte ético-moral, entra em cena a capacidade de discernimento, fruto de uma consciência reta e verídica, crítica e prudente. Capta-se o que é preciso fazer (= moral), quais os caminhos possíveis e/ou necessários (= moral), qual é o modo de proceder (= postura ético-moral), qual a postura prudencial-crítico-reflexiva de discernimento e de depuração (= ética) que se fazem necessários para tratar da realidade da “família” e quais os parâmetros mais indicados etc.

Como se vê, são muitas as questões. Diante delas, podemos reagir dizendo que o ideal evangélico e as normas que dele derivam são claros... Basta ajustar-se. Ninguém duvida do ideal “sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito”, nem do convite “convertei-vos e crede no Evangelho”. Ocorre, porém, que o ponto de partida é tomar as pessoas naquilo que elas são e, a partir daí, esboçar um caminho numa pedagogia do crescimento, da progressão, passo após passo.

Na Familiaris Consortio, João Paulo II supõe a pedagogia do crescimento ao afirmar: “A ação pastoral da Igreja deve ser progressiva, também no sentido que deve seguir a família, acompanhando-a passo a passo nas diversas etapas da sua formação e desenvolvimento”(10).

Este acompanhamento progressivo pode ser captado no próprio caminhar do povo de Israel. Na escravidão do Egito, a convocação e as exigências são umas; para o povo que está a caminho da Terra Prometida, no deserto, as exigências são outras; e para o povo que já está na Terra Prometida, o apelo é outro ainda. Fica o ideal comum a ser buscado sempre. Porém, a cada etapa cabem os devidos passos, sem queimar etapas e, assim, sem cair no artifício do “vamos fazer de conta que aqui estou ou estamos”, como se o ideal já estivesse de todo realizado.

Deixar de tomar em conta a “situação real” das pessoas, da comunidade, da sociedade e partir de imediato para a cobrança do “ideal”, ou fazer de conta que nele já nos encontramos todos, cria situações que levam a um “faz de conta” artificial, com previsão de quedas, regressões, desilusões, capitulações. É como forçar a criança a ingerir alimentos sólidos quando só consegue ou lhe convém absorver alimentos líquidos.

São Paulo ilustra bem a situação que acabamos de tocar ao dizer aos Coríntios: “Dei-vos a beber leite, não vos dei comida sólida, porque ainda não podíeis suportá-la” (1Cor 3,2). Na carta aos Hebreus, lemos: “Ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus. Tendes necessidade de leite em lugar de alimentos sólidos” (Hb 5,12). Ou ainda aos Coríntios: “Quando era criança, falava como criança, raciocinava como criança; quando cheguei a ser homem, deixei as coisas de criança agora inúteis” (1Cor 13,11-12).

“Jesus não entra em cena ‘cobrando comportamentos’, mas proclamando a todos uma boa-notícia. Significativamente as maiores exigências evangélicas são precedidas do ‘bem-aventurados’. As exigências evangélicas não são ditadas por normas desencarnadas, mas por uma pedagogia do amor. A força ou a fraqueza de uma norma se concretiza no fascínio que ela desperta ou deixa de despertar. Uma vez fascinados por um ideal, os seres humanos são capazes de tudo, inclusive de dar sua vida por uma causa. Mas sem este fascínio se sentem impotentes e mesmo revoltados. A tarefa primeira do agente da Pastoral Familiar não é cobrar comportamentos, mas, a partir da valorização das sementes divinas numa situação, fascinar os ouvintes por um ideal”(11).

Importa fascinar as pessoas pelas propostas que emanam do Evangelho. Ao mesmo tempo, cuide-se para abrir os caminhos, apontar as possibilidades, criar as condições, evitar degradações, mesmo que se faça necessário proferir palavras com voz profética diante das situações que submergem nossas famílias em condições tanto subumanas quanto de incerteza no rumo a seguir.

“Visto que a família é o valor mais querido por nossos povos, cremos que se deve assumir a preocupação por ela como um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja. Em toda diocese se requer uma pastoral familiar ‘intensa e vigorosa’ para proclamar o evangelho da família, promover a cultura da vida, e trabalhar para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados”(12).

Concluindo, ressalto como muito oportunas as palavras do Papa Francisco quando pede uma “pastoral inteligente e corajosa para as famílias”, solicitando que “realcemos o plano luminoso de Deus sobre a família, e ajudemos os cônjuges a vivê-lo com alegria em sua vida, acompanhando-os em suas muitas dificuldades”(13).

Notas

  • 1 Cf. BENTO XVI. Discurso inaugural. V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Aparecida. 13 de maio de 2007; V CONFERÊNCIA GERAL DO ESPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de Aparecida. Brasília/São Paulo: CNBB/Paulinas/Paulus, 2007, n° 114.
  • 2 JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. 17ª edição. São Paulo: Paulinas, 2003, n° 1, p. 3.
  • 3 Ibidem, n° 65, p. 109-110.
  • 4 CNBB – Comissão Representativa. Em favor da família. 8ª edição. São Paulo: Paulinas, 1986, p. 7s.
  • 5 Vários estudos buscaram pontuar a evolução da “Pastoral da Família” para a “Pastoral Familiar”. Cf. MOSER, Antônio. A pastoral familiar a partir dos menos favorecidos. REB, 212 (1993), p. 771-790; VÁRIOS AUTORES. Introdução à Pastoral Familiar – Estudos, diretrizes e subsídios pastorais. Aparecida: Santuário, 1990; CNBB – Setor Família. Pastoral Familiar – Reflexões e propostas. Aparecida: Santuário, 1990; IDEM. Pastoral Familiar no Brasil. Col. Estudos da CNBB n° 65. São Paulo: Paulinas, 1993; IDEM. 1994 – Ano Internacional da Família. SEDOC, 27 (1994), p. 97-108; IDEM. Como organizar a Pastoral Familiar. São Paulo: Paulus, 1994.
  • 6 CNBB – Campanha da Fraternidade 1994. A família como vai? (Texto-base). São Paulo: Salesiana, 1994, n° 128, p. 71.
  • 7 Documento de Aparecida, n° 436, a.
  • 8 JOÃO PAULO II. Discurso de abertura da IV Conferência Geral do CELAM. In: IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Nova Evangelização, Promoção Humana, Cultura Cristã (Documento de Santo Domingo). Petrópolis: Vozes, 1992, n° 22, p. 23.
  • 9 Documento de Aparecida, n° 432.
  • 10 IDEM. Exortação apostólica ‘Familiaris Consortio’. Op. cit., n° 65, p. 110.
  • 11 MOSER, Antônio. Op. cit., p. 787.
  • 12 Documento de Aparecida, n° 435.
  • 13 PAPA FRANCISCO. “Uma pastoral inteligente e corajosa para as famílias”. In: Vatican Insider, 20-02-2014.

 

Família cristã: Igreja doméstica

O Papa Francisco, ao escrever às famílias, em preparação à Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos, a realizar-se em outubro próximo, lembrou que a próxima Assembleia Sinodal é toda dedicada à Família. Pediu o necessário e significativo apoio das orações de todos e destacou o seguinte: “Na verdade, esta Assembleia sinodal é dedicada de modo especial a vós, à vossa vocação e missão na Igreja e na sociedade, aos problemas do matrimônio, da vida familiar, da educação dos filhos, e ao papel das famílias na missão da Igreja”(1). Existe, sim, uma “contribuição indispensável do matrimônio”(2), como explicitou o Papa na Evangelii Gaudium, que aqui identificaremos como educadora da fé e evangelizadora, no importante espaço evangelizador no qual se constitui a família.

1. Educadora da fé e evangelizadora
O Papa João Paulo II, na exortação apostólica Familiaris Consortio, sublinhou com especial clareza a missão da família cristã como igreja doméstica, destacando que ela é educadora da fé e evangelizadora. Vejamos alguns textos:

  • “Participando da vida e da missão da Igreja..., a família cristã vive a sua tarefa profética acolhendo e anunciando a Palavra de Deus: torna-se, assim, cada dia mais comunidade crente e evangelizadora”(3).
  • “Deus que, de fato, chamou os esposos ‘ao’ matrimônio, continua a chamá-los ‘no’ matrimônio. Dentro e através dos fatos, dos problemas, das dificuldades, dos acontecimentos da existência de todos os dias, Deus vai-lhes revelando e propondo as ‘exigências’ concretas da sua participação no amor de Cristo pela Igreja, em relação com a situação particular – familiar, social e eclesial – na qual se encontram”(4).
  • “À medida que a família cristã acolhe o Evangelho e amadurece na fé, torna-se comunidade evangelizadora”(5). “A família, como a Igreja, deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e de onde o Evangelho se irradia. Portanto, no interior de uma família consciente desta missão, todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os pais não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem também receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. Essa família torna-se, então, evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está inserida”(6).
  • “O ministério de evangelização dos pais cristãos é original e insubstituível... A família deve formar os filhos para a vida, de modo que cada um realize plenamente o seu dever segundo a vocação recebida de Deus... O ministério de evangelização e de catequese dos pais deve acompanhar também a vida dos filhos... O ministério de evangelização e de catequese da Igreja doméstica deve permanecer em comunhão íntima e deve harmonizar-se responsavelmente com todos os outros serviços de evangelização e de catequese...”(7).
  • “Como ‘pequena Igreja’, a família cristã é chamada, à semelhança da ‘grande Igreja’, a ser sinal de unidade para o mundo e a exercer desse modo o seu papel profético, testemunhando o Reino e a paz de Cristo, para os quais o mundo inteiro caminha”(8).

O Concílio Vaticano II, na constituição Lumen Gentium, n° 11, refere-se ao papel dos pais na família e chama a família de “Igreja doméstica”; este se tornou o texto de referência para todas as reflexões posteriores. Vejamos o texto:

  • “(A família) é, por assim dizer, a Igreja doméstica onde os pais devem ser para seus filhos, mediante a palavra e o exemplo, os primeiros pregadores da fé; encorajando a cada um em sua vocação e prestando especial atenção a uma vocação sagrada”.

O decreto Apostolicam Actuoditatem, do Vaticano II, retoma a ideia de que a família é uma igreja doméstica; nele se fala da família como “santuário doméstico da Igreja”. Santuário significa um lugar sagrado para a oração e o amor.

Após o Concílio Vaticano II, como sabemos, a expressão “igreja doméstica” é muito usada para designar a família. Entrou na exortação apostólica Familiaris Consortio de João Paulo II, ampliando o tema. É significativa uma mensagem pastoral (17/11/1993) “Seguir o caminho do amor”, dos Bispos dos Estados Unidos, por ocasião do Ano Internacional da Família de 1994, estimulando as famílias a considerar o seu lar uma igreja doméstica. Na carta, os Bispos lembram que esta doutrina se encontra na “igreja primitiva” e que “por séculos não foi suficientemente realçada, mas o Concílio Vaticano II reintroduziu”(9).

  • “A doutrina do Vaticano do Vaticano II sobre a família como igreja doméstica proporcionou um valioso contrapeso a uma exagerada ênfase colocada muitas vezes, após o Concílio de Trento, sobre o matrimônio como contrato. Ajudou a reintroduzir a ideia de que o casal cristão e seus filhos participam de uma realidade sacramental permanente, mediante a qual são santificados e convidados a participar ativamente na missão externa da Igreja, especialmente através do serviço e da hospitalidade. O desafio que a Igreja enfrenta hoje é o de favorecer o potencial ministerial da família. São necessárias novas abordagens pastorais para capacitar as famílias a pôr em prática todos os seus recursos litúrgicos e ministeriais”(10).

2. Para que a família seja um espaço evangelizador (11)

Um primeiro grupo de elementos são mais gerais. Aqui vamos nos deter nestes(12). A um segundo grupo cabem ações simples e concretas(13).
 

a) Elementos gerais (englobantes)

Participação na comunidade cristã: para viver, celebrar e proclamar a fé. Nossas paróquias devem ser, para isso, comunidades vivas dos que creem, onde os leigos, sobretudo casados, participam com a sua rica experiência de vida e profissional para o enriquecimento da própria Igreja. Criem-se espaços fraternos, de acolhida, sendo para isso muito rica a experiência familiar (atenção, alegria, comunhão, solidariedade, o cuidado dos pequenos detalhes...); criem-se equipes de pastoral sacramental (batismo, matrimônio, família...), levando sempre a aprofundar a vivência do batismo; promovam-se encontros de todo tipo, desde os lúdicos até encontros como os eucarísticos, sempre num ambiente de família; estimule-se a presença nas pastorais, juntos às crianças, os adolescentes, os jovens..., apresentando modelos de cristãos que buscam viver com maturidade e sinceridade a sua fé.

Revitalizar a família como igreja doméstica: “Pequena igreja” ou “igreja doméstica” (FC 21) são expressões analógicas ou comparações que sublinham o vínculo entre a Igreja e a família. Assim, não é possível viver a nossa missão sem fazer referência ao mistério da própria Igreja. Para isto, são importantes os seguintes pontos: o sacramento do matrimônio como a raiz, o núcleo original e duradouro da família e, consequentemente, da igreja doméstica (Deus é Amor, sendo o sacramento do matrimônio o lugar da vivência da fé e do amor); realização do espírito evangélico, sendo a família o primeiro espaço para a sua vivência (pessoas que se comunicam, que se amam, se respeitam, na liberdade, responsabilidade, generosidade, na autoridade que se dá no serviço, crescimento pessoal de cada membro, crítica ante qualquer desumanização, luta pela justiça e a paz), onde os aspectos pessoais, familiares e sociais se complementam; família como lugar de oração e núcleo de vida eclesial.

 — Papel dos pais no processo de amadurecimento da fé dos filhos: Importa criar um clima de fé, levando a uma adesão pessoal a Jesus Cristo (ligando sempre fé e amor); ter critérios para assumir atitudes ante os acontecimentos (sabendo o que nos move desde a raiz de nossa vida e possa orientá-la), atitude de abertura, respeito, confiança, educando para uma liberdade responsável, saber dialogar, educando sempre, sem deixar para outras entidades o que se pode e deve fazer na família; buscar testemunhar pela vida o que se vive na fé.

 — Educação autoritária e fé: A educação autoritária não ajuda e nem mesmo conduz ao desenvolvimento integral dos filhos; esta se mostra ainda muito primária; a tarefa dos pais é preparar os filhos para a vida; dominá-los não é uma preparação; cabe propor-lhes uma formação adequada para que, no uso da liberdade, possam ir forjando a sua própria personalidade. Os pais se esforcem para também entender o ponto de vista dos filhos; sua época é a atual, seu mundo é o do agora.

Com isso, os pais tenham ciência de que são os primeiros educadores dos filhos: Vivam a fé profundamente, sendo o Evangelho a verdade de vida, numa fé interiorizada e que vá criando as bases para opções de vida, falando com a autoridade que inflama o coração desde o mais profundo do nosso ser (e dos filhos), rezando sempre (sem complexos), demonstrando interesse face os outros, sem se abater antes as dificuldades.
 

b) Elementos concretos

Cabe ter presente os seguintes quesitos, que se explicitam bem no concreto da vida:

— Atenção aos acontecimentos da vida (pessoais, sociais, familiares, cívicos) para ajudar os filhos na reflexão e percepção da vida e, se possível, descobrir neles o chamado de Deus...

— Ensinar a rezar, mesmo que nem sempre pareça fácil, sabendo que tudo começa na família; os filhos precisam perceber que rezar é inerente à vida de família.

— Pistas práticas: ver os adultos rezarem, rezar com os adultos (silêncio, gestos, palavras), valorizar as festas e celebrações cristãs, participar da eucaristia dominical etc.

— A educação da fé é uma missão da família e da comunidade cristã, numa vivência complementar. Por isso, os pais participem das atividades catequéticas, celebrativas, missionárias na/da comunidade. A catequese, por exemplo, é uma atividade comunitária; é indispensável o papel exercido pela família, que é o agente principal, papel que será complementado pela comunidade de fé(14).

— Fé e vida crescem juntas)15); é vivida no colo dos pais; cresce com as experiências no seio da família; se expressa na comunidade; é confirmada na vida do dia-a-dia; e chega a ser adulta, incluindo o compromisso de construção da sociedade e, sempre que necessário, de sua transformação.

NOTAS

  • 1. PAPA FRANCISCO. Carta do Papa Francisco às Famílias. Roma, 25 de fevereiro de 2014.
  • 2.  IDEM. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013, nº 66, p. 58.
  • 3.  JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. 17ª edição. São Paulo: Paulinas, 2003, n° 51, p. 87.
  • 4. Ibidem, n° 51, p. 88-89.
  • 5. Ibidem, n° 52, p. 89.
  • 6. PAULO VI. Envangelii nuntiandi, nº 71; cf. JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. Op. cit., n° 52, p. 89.
  • 7. Ibidem, n° 53, p. 92.
  • 8. Ibidem, n° 48, p. 83.
  • 9. Cf. FAHEY, Michael A. A família cristã como igreja doméstica no Vaticano II. Concilium, 260 (1995/4), p. 116.
  • 10. Ibidem, p. 116
  • 11. Cf. BOIX, Josep. La família: ambito de evangelización. PHASE, 203 (1994), p. 419-437.
  • 12. Cf. ibidem, p.420-429.
  • 13. Cf. ibidem, p.430-437.
  • 14. DIOCESE DE OSASCO  - Centro Catequético Diocesano. Educação da fé: Missão da família e da comunidade. São Paulo: Paulinas, 1994 (Cadernos Catequéticos n° 1).
  • 15. SERBENA, Íris M Boff. Fé e vida crescem juntas: Para pais e educadores. São Paulo: Paulinas, 1987.

 

Aspectos teológicos que embasam a família e o matrimônio

Para muitos, hoje em dia, casar-se é fazer um contrato entre duas pessoas. Bastaria ir ao cartório ou nem isso; para alguns, seria uma questão de ir morar juntos. Para nós, cristãos, o matrimônio é mais; ele é o lugar da gratuidade e da graça; nele se realiza uma comunidade de vida e de amor; nós católicos dizemos que é graça sacramental. Assim, ele se torna sinal da presença do amor de Deus. Por isso, o matrimônio é o fundamento da família e um dos bens mais preciosos da humanidade. Aí está a chance para a humanidade crescer de maneira firme e estável(1).

1. A família e o matrimônio no projeto de Deus

A família tem consistência enquanto alicerçada sobre esta base que a inscreve no projeto de Deus. Compreendemos, então, que o Documento de Santo Domingo (1992) fale disso com as seguintes palavras:

“No plano de Deus Criador e Redentor, a família descobre não só a sua identidade senão também sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida através de quatro atos fundamentais:

a) A missão da família é viver, crescer e aperfeiçoar-se como comunidade de pessoas que se caracteriza pela unidade e indissolubilidade. A família é o lugar privilegiado para a realização pessoal junto com os seres amados.

b) Ser ‘como o santuário da vida’, serva da vida, já que o direito à vida é a base de todos os direitos humanos. Este serviço não se reduz só à procriação, é antes auxílio eficaz para transmitir e educar em valores autenticamente humanos e cristãos.

c) Ser ‘célula primeira e vital da sociedade’. Por sua natureza e vocação, a família deve ser promotora do desenvolvimento, protagonista de uma autêntica política familiar.

d) Ser ‘Igreja doméstica’ que acolhe, vive, celebra e anuncia a Palavra de Deus, é santuário onde se edifica a santidade e a partir de onde a Igreja e o mundo podem ser santificados”(2).

Esta identidade e esta missão da família estão alicerçadas no amor. A própria realização do ser humano – homem e mulher – funda-se no amor. O lugar privilegiado para vivê-lo é na família, “íntima comunidade de vida e de amor”(3). Numa obra de 1960 – Amor e responsabilidade –, Karol Wojtyla já escrevia: 

  • E necessário aqui sublinhar que o amor é a realização mais completa das possibilidades do homem. É a atualização máxima da potencialidade intrínseca da pessoa. Esta encontra no amor a maior plenitude do próprio ser, da própria existência objetiva. O amor é o ato que realiza do modo mais completo a existência da pessoa”(4).

O matrimônio, como todo sacramento, é um gesto visível que realiza o dom da graça, alicerçado “n’Aquele que em Si mesmo é dom de todo o dom..., confirmado no mistério da Encarnação que se tornou, na história dos homens, fonte de uma beleza nova...”(5). Portanto, é Cristo o primeiro e único sacramento. E a Igreja, por sua vez, é sacramento de Cristo; e incorpora o matrimônio neste mistério que a une a Cristo. “Assim os cônjuges encontram em Cristo o ponto de referência para o seu amor esponsal”(6). 

  • “A família é um caminho do qual o ser humano não pode separar-se... Quando falta a família logo à chegada da pessoa ao mundo, acaba por criar-se uma inquietante e dolorosa carência que pesará depois sobre toda a vida”(7).

No encontro com as famílias, em 2001, o Papa João Paulo II exclamava: “Família, torna-te aquilo que és”! E acrescentava: “Família, crê naquilo que és”!(8) O Papa convocava, assim, as famílias a encontrarem a verdade sobre si mesmas, encorajando-as a vivê-la no mundo de hoje. “Arquitetura de Deus, plano de Deus inviolável, a família também é arquitetura do homem, compromisso do homem no desígnio divino”(9). “No plano de Deus Criador e Redentor, a família descobre não só a identidade senão também sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida através de quatro atos fundamentais”(10): “a formação de uma comunidade de pessoas, o serviço à vida, a participação no desenvolvimento da sociedade, a participação na vida e na missão da Igreja”(11).

Hoje, sentimos ser urgente uma “ação efetiva favorável à família e à vida: na sociedade (leis e políticas familiares), na cultura (pensamento, literatura, meios de comunicação social) e, sobretudo, nas comunidades cristãs (renovação do espírito de abertura à vida)”(12). A meta pastoral é “ajudar os cônjuges a procederem de tal sorte que a sua família se torne sempre mais ‘uma Igreja doméstica’, ‘a primeira comunidade evangelizadora’(13), ‘o primeiro espaço para o engajamento social’, ‘o lugar primeiro da humanização da pessoa e da sociedade’”(14). Isto se funda na convicção de que somos “povo da vida e pela vida”, da qual “resulta decisiva a responsabilidade da família: é uma responsabilidade que brota da própria natureza dela – uma comunidade de vida e de amor, fundada sobre o matrimônio e da sua missão que é ‘guardar, revelar e comunicar o amor’”(15).

2. A graça e o dom que acompanham a família no sacramento do matrimônio

Deus quis a família, sendo a Trindade o seu centro, num convite para que ela viva à sua imagem. Torna-se “Igreja doméstica”, representação (analógica) da Igreja no seu todo e da Igreja particular(16). Em formas específicas, a família se insere no Reino de Deus. A família está inserida na Igreja, povo sacerdotal, sendo “chamada a santificar-se e a santificar a comunidade cristã e o mundo”(17). A família constitui-se na comunidade em diálogo com Deus, um verdadeiro santuário doméstico da Igreja. Ela tem no sacramento do matrimônio, a graça, qual dom, que a acompanha ao longo de toda a sua existência. Não se resume na celebração do matrimônio. É Jesus Cristo mesmo que “permanece com eles, para que, assim como ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, amem-se com perpétua fidelidade... Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e como que consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento especial”(18). “O matrimônio cristão [....] é em si mesmo um ato litúrgico de louvor a Deus em Jesus Cristo e na Igreja”(19).

Através dos tempos, a Igreja foi percebendo/desvendando que o matrimônio continha e contém toda uma estrutura sacramental, captando o “mistério” da “graça” de Deus que nele se faz presente. Ele é um sinal visível da doação realizada e do amor vivido na Encarnação do próprio Deus em Cristo. Jesus é na verdade “o” sacramento de Deus. A Igreja por sua vez é sacramento de Cristo. A grande graça que une Cristo e a Igreja é, por sua vez, sinalizada em vários sacramentos, entre os quais o matrimônio. A aliança matrimonial é assim elevada à dignidade de sacramento. A “íntima comunidade de vida e de amor”(20) nele presente torna o matrimônio como um todo “sacramento”, sendo sinal e presença do amor de Deus no coração da humanidade. Assim, o matrimônio tem um lugar especial nos planos do próprio Deus. 

  • “O matrimônio é um estado de vida que exprime e realiza naquilo que é, e segundo modalidades próprias, o caminho e a história da salvação. O matrimônio... encontra o seu significado na natureza mesma do fato e do estado conjugal: ser um casal, comunidade-comunhão”(21).
  • “Como no batismo a pessoa de fé é chamada por Deus a ser uma graça e uma proposta de salvação aos homens em geral, no matrimônio é chamada a sê-lo para uma pessoa em particular”(22).

Finalizo relembrando algumas palavras do Documento de Aparecida, quando os Bispos apresentam a família como “um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e caribenhos”, sendo “um patrimônio da humanidade inteira”(23). Relembram que “a família cristã está fundada no sacramento do matrimônio entre um homem e uma mulher, sinal do amor de Deus pela humanidade e da entrega de Cristo por sua esposa, a Igreja”(24). E sublinham que é “na comunhão de amor das três Pessoas divinas que nossas famílias têm sua origem, seu modelo perfeito, sua motivação mais bela e seu destino”(25).

Notas

  • 1. Cf. AGOSTINI, Nilo. Moral cristã: Temas para o dia a dia. 5ª edição. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 81-92.
  • 2. IV CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E CARIBENHO. Nova Evangelização, promoção humana, cultura cristã (Documento de Santo Domingo). Petrópolis: Vozes, 1992, n° 214.
  • 3. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et Spes n° 48. In: VIER, Frederico (coord.). Compêndio do Vaticano II: Constituições, decretos, declarações. 22ª edição. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 196.
  • 4. Cf. JOÃO PAULO II. Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano. Bauru: EDUSC, 2005, p. 17.
  • 5. IDEM. Carta às Famílias – 1994: Ano da Família, col. Documentos Pontifícios n° 256, Petrópolis, Editora Vozes, 1994, op. cit., nº 20, p. 81s.
  • 6.  Ibidem, nº 19, p. 74s.
  • 7. Ibidem, n° 2, p. 5-6.
  • 8. IDEM. Discurso durante o Encontro com as famílias, 22/10/2001, In: L’Osservatore Romano (edição portuguesa), 27/10/2001, n° 3, p. 3.
  • 9. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA. Congresso teológico-pastoral: A Familiaris Consortio no seu XX aniversário – Dimensão antropológica e pastoral, SEDOC 34 (2002), p. 626.
  • 10. IV CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E CARIBENHO. Op. cit., n° 212, p. 111.
  • 11. JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. 17ª edição. São Paulo: Paulinas, 2003, n° 17, p. 30.
  • 12. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA, Congresso teológico-pastoral..., op. cit., p. 633.
  • 13. Cf. CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E CARIBENHO. Op. cit., n° 64, p. 59.
  • 14. Cf. JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Christifideles laici. 11ª edição. São Paulo: Paulinas, 1990, n° 40, p. 109s; CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA. Diretrizes para a formação dos seminaristas sobre os problemas relativos ao matrimônio e à família. In: SEDOC 28 (1995), p. 334.
  • 15. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA. Preparação para o Sacramento do Matrimônio. In: SEDOC 29 (1996), p. 311.
  • 16. Cf. SPREAFICO, Dom Serafim. Família Cristã, Igreja doméstica. Encontro de Casais com Cristo e evangelização. São Paulo: Loyola, 1992, p. 49.
  • 17. JOÃO PAULO II.  Exortação apostólica Familiaris Consortio. Op. cit., n° 55, p. 94.
  • 18. Ibidem, n° 56, p. 95; GS 48.
  • 19. Ibidem, n° 56, p. 96.
  • 20. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et Spes n° 48. In: VIER, Frederico (coord.). Op. cit., p. 196.
  • 21. RUFFINI, Eliseo. Il matrimonio-sacramento nella tradizione cattolica. Rilettura teológica. In: GOFFI, Tullo (a cura di). Nuova enciclopedia del matrimonio. Edizione rinnovata, Brescia: Queriniana, 1988, p. 199.
  • 22. Ibidem, p. 204.
  • 23. V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de Aparecida. 7ª edição. Brasília; São Paulo: CNBB; Paulinas; Paulus, 2008,  nº 432.
  • 24. Ibidem, nº 433.
  • 25. Ibidem, nº 434.

 

Fundamentação bíblica do matrimônio

No livro do Gênesis (1,26), lemos que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança e, no versículo 27, a Escritura ressalta que “homem e mulher” o criou. Em Gn 2,18, acrescenta-se que “não é bom que o homem esteja só”, criando então Deus a mulher; esta fora reconhecida por Adão, ao dizer: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!”

Deus, que é Amor (cf. 1Jo 4,8), criou o ser humano à sua imagem e semelhança. “Por este motivo, a vocação ao amor é o que faz do homem a autêntica imagem de Deus: se faz semelhante a Deus à medida que se converte em alguém que ama”(1). Existe aí uma conexão entre Deus e o ser humano, homem e mulher. É o ser humano no seu corpo e na sua alma, na integralidade do seu ser, que está aí incluído no Amor.

1. A estrutura criacional do matrimônio (Antigo Testamento)

Este amor no matrimônio é sublinhado nas páginas bíblicas; para dar-lhe estabilidade, apontam para a fidelidade conjugal. É o que vemos no decálogo (Ex 20,2-17), quando ali é dito “não cometerás adultério” e “não desejarás a mulher do próximo”. Mesmo tendo esta base, no Antigo Testamento, o matrimônio tem fortes traços laicos e profanos; é celebrado nas famílias, não na sinagoga. Mesmo assim, “ele é vivido como um evento profundamente religioso, no qual se renova a ação criadora de Deus”(2). Desde este tempo, o matrimônio é marcado por uma estrutura própria, que o rito vem confirmar.

Os capítulos 2−3 do Gênesis trazem a mais antiga teologia do matrimônio. A escola javista imprime aí sua marca (segunda metade do século X aC). Quer-se retratar a experiência quotidiana e, ao mesmo tempo, refletir à luz da fé. Sente-se que a vida matrimonial está marcada pela dupla experiência do amor de Deus, por um lado, e do mal, por outro lado. Por que tal contradição? Por causa do pecado do ser humano. O próprio matrimônio pode revelar o projeto de Deus e pode escondê-lo; pode alimentar-se do desígnio de Deus como pode estar tomado pelo pecado.

O belo é ver que Deus tira o homem da sua solidão e lhe dá uma companheira a altura. Ao afirmar que “não é bom que o homem esteja só”, Deus dá o fundamento de uma das experiências mais profundas e primordiais da humanidade. O ser humano não existe para viver solitário, porque tem sempre necessidade dos outros, porque é feito para o diálogo. Neste relato, exprime-se a ideia de união. “O homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24). A força dessa união é tal que supera qualquer ligação de sangue (... “deixa seu pai e sua mãe”).

Deus, ao exprimir a intenção de dar ao homem uma companheira que lhe corresponda ou lhe seja semelhante, afirma a concepção segundo a qual homem e mulher são semelhantes em dignidade, chamados a viver na complementaridade (ela lhe é uma ajuda). Ambos têm a mesma origem, a mesma natureza (daí a figura da “costela”).  “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,21).  Fica evidenciada aí a alegria do homem face à mulher, ela que traz estampada a mesma dignidade, sendo chamados à correspondência de um face ao outro; chega-se a outra bela expressão: “E se tornam uma só carne” (Gn 2,24). Aqui é indicada a união completa, uma comunhão de vida interpessoal que reúne todas as dimensões do humano. A expressão “e se une à sua mulher”, aponta para o matrimônio monogâmico, ou seja, sai das mãos de Deus o casal humano formado de um só homem e de uma só mulher, sendo esta a estrutura criacional do matrimônio.

No entanto, quando o pecado se instala (... serpente), se estabelece uma ruptura, uma corrupção no homem e na mulher; eles perdem a transparência, se envergonham da sua nudez; a desordem se instala. Um acaba acusando o outro. Quebra-se o desígnio de Deus e o homem passa a dominar a mulher (Gn 3,16), o que não corresponde à vontade de Deus.

“Homem e mulher Deus os criou” (Gn 1,27). “Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom” (Gn 1,31). Todas as realidades da criação são belas e boas (segundo o adjetivo hebraico). Inclui-se aí a própria sexualidade. Tudo é incorporado na história salvífica de Deus e atravessado pela sua graça. A sexualidade faz parte dessa realidade positiva, mas não é autônoma, quer dizer, deve ser mantida dentro do projeto na qual foi pensada/criada; ela não é vivida sem regras ou puramente livre. Mesmo se ela faz parte da estrutura dialogante e realizadora do humano, ela pode cair na busca egoísta de prazer, fazendo da pessoa do/a outro/a um puro objeto. Não se trata aqui de uma visão negativa da sexualidade, fruto de uma visão dualista. O problema é quando a sua vivência entra na pequenez ou no vazio do pecado.
    
2. O matrimônio no Novo Testamento
Para falar do matrimônio, o Novo Testamento utiliza a riqueza que vem do Antigo Testamento. Porém, introduz algumas novidades relevantes: “a indissolubilidade do pacto nupcial, o primado do Reino de Deus, o caminho do celibato, o arquétipo da sociedade conjugal não é mais Adão e Eva, mas Cristo e a Igreja”(3).  À medida que se insere no mistério de Cristo, o matrimônio recebe o seu último aprofundamento.

“O que Deus uniu o homem não separe” (Mc 10,9). Num contexto em que a mulher podia ser despedida ou repudiada, podendo ser dada uma carta de divórcio, Jesus vem e afirma a indissolubilidade. Mateus 19,1-9 e Marcos 10,1-12 apresentam este relato. Em Lucas 16,18 fica clara a afirmação: “Todo aquele que despede a sua mulher e se casa com outra comete adultério”. Jesus toma radicalmente posição contra o repúdio da mulher, contra qualquer forma de divórcio. Não há exceções. Jesus reenvia ao projeto criador de Deus. “Nunca leste que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher... De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus uniu o homem não separe” (Mt 9,4-6). “A estabilidade da aliança esponsal faz parte do desígnio da criação... Dizer que a indissolubilidade é lei da criação significa dizer que esta é universal, inscrita na natureza mesma do amor nupcial. É estrutura antropológica universal”(4).

A grande novidade, a partir de Jesus, é a clareza e a profundidade com que ele exprime a natureza intrínseca do matrimônio, ligando-a ao amor de Deus manifestado em Jesus Cristo.

Os Evangelhos inserem o matrimônio no seguimento de Jesus Cristo, no qual vem sublinhado o dom total de si, a fidelidade e a solidariedade como notas próprias. Ao mesmo tempo, o matrimônio aponta para a comunhão com Deus. Ele é a figura dessa comunhão.

“Este mistério é grande” diz São Paulo aos Efésios (5,32). “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a sua Igreja e se entregou por ela... É assim que os maridos devem amar as suas esposas, como amam seu próprio corpo. Aquele que ama a sua esposa está amando a si mesmo. Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Pelo contrário, a nutre e a cerca de cuidados, como Cristo faz com a Igreja, e nós somos membros do seu corpo” (Ef 5,25-30).

Há uma grandiosidade neste texto paulino. Trata-se de um quadro excepcional. De Cristo vem o amor que salva, cabendo à Igreja inserir-se nele, respondendo pela “obediência”. O arquétipo do matrimônio é Cristo, a união de Cristo com a Igreja. Tudo se liga a esta aliança esponsal de Cristo e sua Igreja. Cristo-Igreja constitui-se no modelo, na norma. Aí o matrimônio cristão deve inspirar-se. Esse “como” Cristo traz um panorama vasto de aplicações, mas tem fundamentos como estes: amor desinteressado, fidelidade definitiva, completo dom de si, perdão.

Cristo-Igreja revela aquilo que Deus opera em cada matrimônio cristão. 

“Em cada matrimônio, Deus faz reviver a misteriosa união de Cristo com a Igreja. No matrimônio... realiza-se o mistério divino: o espaço conjugal... torna-se um lugar no qual o mistério salvífico de Cristo se reatualiza e se visibiliza: lugar, portanto, de salvação, de profecia e de testemunho. De salvação, porque é na sua concreta experiência matrimonial que os cônjuges são unidos no amor salvífico de Cristo que os livra do egoísmo e os abre ao completo dom de si mesmos. De profecia, porque a experiência do dom de si no recíproco amor é uma experiência humana, concreta, que antecipa e prefigura a realidade última, para a qual o homem é encaminhado: a comunhão plena e definitiva com Deus. E de testemunho, porque é através do amor concreto e visível dos esposos cristãos que o mundo entra em contato com o ‘verdadeiro amor’, que é o centro da novidade cristã e o sinal mais credível da morte/ressurreição de Cristo” (5).

Notas

  • 1     BENTO XVI. Catequesis. Vaticano, 17 de maio de 2005.
  • 2     MAGGIONI, Bruno. Il matrimonio nella Bibbia. In: GOFFI, Túlio (dir.). Nuova enciclopedia del matrimonio. Edizione rinnovata. Brescia: Queriniana, 1988, p. 147.
  • 3     Ibidem, p. 160.
  • 4     Ibidem, p. 164.
  • 5     Ibidem, p. 173.

 

O sentido antropológico da família

A família encerra um sentido antropológico de especial valor ao tornar-se muito cedo, na história da humanidade, o centro gravitacional do ser humano. Ela lhe é conatural. A própria natureza do ser humano tem na família o seu ponto de apoio principal; mais até, tem nela o ninho onde o próprio ser do humano se desdobra. A família tem como fundamento próprio a acolhida das qualidades intrínsecas da masculinidade e da feminilidade, a acolhida da vida nos filhos, numa ordenação ao amor familiar, dando origem a uma comunidade de vida e de amor.

  • “A família é um caminho do qual o ser humano não pode separar-se... Quando falta a família logo à chegada da pessoa ao mundo, acaba por criar-se uma inquietante e dolorosa carência que pesará depois sobre toda a vida”(1).

Modo próprio de ser: proximidade, relação e comunhão

O ser humano encontra na família a possibilidade de expandir-se no seu modo próprio de ser, enquanto ela lhe é a base para a experiência da proximidade e da relação, sendo capaz de comunhão. Esta é a realidade primeira – qual ethos – que marca a existência humana enquanto pessoa. A pessoa como um ser próximo, voltada para a comunhão, desde a sua natureza mais profunda, sente ser este o lastro do próprio ethos humano, qual identidade profunda, onde se assenta o seu modo próprio de ser. É a partir deste lastro que a pessoa humana estabelece ou tece, desde os primeiros instantes de sua vida, as relações fundamentais, quer consigo e os outros, quer com a natureza e a transcendência (Deus). A família é o ambiente propício e mesmo necessário para que a pessoa viva esta proximidade e comunhão, amparada no seu crescimento progressivo, a caminho da maturidade. Identificamos aí uma missão educativa que necessita estar embasada numa formação integral e numa compreensão da totalidade do ser humano, estando reunidas todas as suas dimensões.

  • “É na família que as crianças recebem dos pais os princípios básicos à volta dos quais se vai organizando a sua personalidade. No exemplo que recebem dos seus pais, as crianças modelam a própria atitude perante a vida e as suas exigências. Nas suas relações de irmãos e irmãs são iniciados do melhor modo possível na vida social”(2).

A família é o berço da experiência de proximidade entre pessoas. Esta experiência realiza-se no face a face com o/a outro/a, sendo altamente realizadora, sobretudo quando supera toda forma de coisificação e instrumentalização das pessoas, levando-as a fazer-se dom e a viver o amor. Vive-se aí o rico dinamismo da alteridade no respeito do/a outro/a; vive-se uma reciprocidade, uma acolhida, fundadas no diálogo, numa atmosfera de liberdade e de amor responsável, lastreadas na verdade. Logo notamos que crescem valores humanos como a generosidade, a doação de si, o respeito pelo próximo, o domínio de si e a temperança(3). Isto deve, inclusive, ser a base da educação sexual dos filhos e de todos os membros da família, levando-os a uma progressiva integração e maturidade. Este bem que é a sexualidade, verdadeiro dom recebido, passa a gerar comunhão e a “criar o bem das pessoas e das comunidades”(4). Esta comunhão que cria o bem das pessoas e das comunidades tem por húmus vital o amor. Ele é o presente essencial; todo o resto, em virtude do amor, transforma-se também num dom(5). 

  • “Desde os primeiros dias, o ser humano não vive só de pão; ele tem necessidade da presença do outro, desta primeira modelagem inteiramente sensitiva da relação. (...) Se esta necessidade de viver a presença amorosa se afirma desde a infância, a necessidade da criança vai se confirmar ao longo de seu desenvolvimento: ‘O ser humano não vive somente de pão’. A criança tem necessidade de ser amada por seu pai e por sua mãe, mas ela precisa também que seus pais ‘se amem’. É neste chão magnético da relação conjugal, dentro desta relação privilegiada entre o pai e a mãe que a criança lançará as raízes de seu equilíbrio afetivo e de sua capacidade de se abrir ela mesma às relações”(6).

Elementos fundamentais: um ser de encontro no amor

Do próprio interior do ser humano brota um chamado ao amor familiar. Trata-se de um mistério que o diferencia na ordem da criação.

  • “Notemos que os animais se acasalam e geram seres semelhantes a si; e as mesmas plantas, também por profundo desígnio da natureza, possuem o pólen de suas flores destinado de umas para as outras para o despontar de novas sementes. Mas não constituem famílias. Só os seres humanos, por sua psicologia, por sua capacidade de conviver no amor, constroem famílias, vivem em família, e não podem romper, sem consequências de frustração, os laços familiares”(7).

É uma evidência que o ser humano é “um ser de encontro”(8). O nascer não significa que estamos prontos e amadurecidos para a vida. Há uma moldagem do ser fisiológico e do psicológico que vai se completando após o nascimento na relação com o ambiente (a mãe, o pai, os irmãos, o lar... ou quem vier substituí-los, na falta eventual destes). 

  • “Aqui descobrimos o alto valor do relacionamento, que não é vínculo consecutivo à formação do ser humano, mas constitutivo. Ou seja, não é que eu existo e depois passo a me relacionar. Sem relacionar-me, não existo como pessoa, não me constituo como ser humano integral”(9).

No relacionamento, estabelece-se uma “trama afetiva”, cria-se um campo de amparo e acolhimento. Assim, o amamentar, o limpar um bebê... é acolher, é incluí-lo num âmbito de ternura, sendo fundamental para todo o desenvolvimento ulterior do ser humano, pois aí se constitui o encontro modelar. A partir deste encontro, a criança realizará depois outras formas de encontro (com pessoas, com os colegas, com a comunidade, com a natureza, com a cultura, com a tradição, com valores etc). “Se não puder encontrar-se com nada nem ninguém, a criança terá barrado seu desenvolvimento pessoal, estará asfixiada espiritualmente e ficará destruída como pessoa”(10).

  • “É necessário aqui sublinhar que o amor é a realização mais completa das possibilidades do homem. É a atualização máxima da potencialidade intrínseca da pessoa. Esta encontra no amor a maior plenitude do próprio ser, da própria existência objetiva. O amor é o ato que realiza do modo mais completo a existência da pessoa”(11)

A riqueza do casal humano

O significado esponsal do corpo, que não se reduz à dimensão física da sexualidade; antes, exprime o amor, tornando-se um dom. Nisto “afirma-se a pessoa”, numa “exterioridade”, na qual a nudez não é causa de vergonha; tal experiência constitui, na verdade, um componente fundamental da existência humana no mundo. Nesta reciprocidade do dom de si mesma, a pessoa humana encontra-se plenamente(12). Ocorre, no caso acima, o que estudiosos chamam de predomínio da bilateralidade e independência, com trocas saudáveis. “Ao nível do casal, isto é indispensável para que prossigam aliados e motivados. Na interação com os filhos, isto deve ser progressivamente conquistado, acompanhando suas etapas cronológicas”(13). Essa reciprocidade pode se dar também de maneira simétrica, bem como complementar(14).

  • “Na troca simétrica, ocorre uma situação semelhante à de uma imagem espetacular de um em relação ao outro e vice-versa. Ambos participam, com equivalência das circunstâncias. Exemplos dos mais simples aos mais complexos ocorrem no dia-a-dia: cada um fornece as forças de um braço para carregarem, pelas alças, uma sacola pesada. Se os dois são motoristas, podem se revezar numa viagem e assim por diante”(15).
  • “Na troca complementar, ocorre uma interação na qual um complementa, supre o outro. Por exemplo, um trabalha, ganha o salário; o outro administra. Enquanto a mãe dá o seio para a criança, o pai prepara um lanche para o casal e por aí afora (...). As duas formas de trocas são necessárias e mantenedoras do relacionamento e o predomínio exagerado de um só tipo é perigoso e desagregador”(16).

Identidade e diferença
Se é certo que há uma diferenciação sexual entre homem e mulher, salta logo aos nossos olhos a questão de como eles podem interagir, já que se subentende haver uma identidade própria que remete para a diferença. Na verdade, na relação interagem diferenças e semelhanças. Estas aparecem nos planos biológico, psicológico e sociocultural(17).

No plano biológico, é curioso notar que até a oitava semana não é visível uma diferenciação. Psicoafetivamente, o quadro é até mais complexo, pois interagem múltiplos fatores. No nível sociocultural, existe uma dinâmica toda próxima, mesmo que ainda complexa. Segundo Simone de Beauvoir, ninguém nasceria homem ou mulher; nós nos tornamos homem ou mulher, num acento dos fatores ideológicos, econômicos e sociais. O certo é que na relação entre os dois sexos se concretiza, de fato, o homem e a mulher, ou seja, modalidades diferentes do mesmo ser humano. Em nossos dias, tenta-se explicar a identidade e a diferença entre o homem e a mulher através das teorias da polaridade, da complementaridade e da reciprocidade. Pela polaridade, acentuam-se as diferenças; por vezes, isto é até uma necessidade numa sociedade por demais “unissex”. Pela complementaridade, acena-se para as deficiências ou incompletudes de cada lado; ninguém se basta a si mesmo, sendo constitutiva e necessária a relação. Pela reciprocidade, ressalta-se o caráter dialético dos sexos, havendo uma interação contínua entre o homem e a mulher, num processo de contínuo crescimento, já que nenhum dos dois pode se achar pronto ou acabado. As três teorias parecem apontar para momentos reais de nossa vida; nenhuma delas esgota o rico dinamismo da identidade e da diferença entre o homem e a mulher.

NOTAS

  • 1. JOÃO PAULO II. Carta às famílias – 1994: Ano da Família. Col. Documentos Pontifícios n° 256. Petrópolis: Vozes, 1994, n° 2, p. 5-6.
  • 2. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA. Congresso teológico-pastoral: A Familiaris Consortio no seu XX aniversário – Dimensão antropológica e pastoral. SEDOC 34 (2002), p. 628.
  • 3.  Cf. JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Familiaris Consortio. 17ª edição. São Paulo: Paulinas, 2003, n° 37; IDEM. Carta encíclica Evangelium Vitae. Col. Documentos Pontifícios n° 264. Petrópolis: Vozes, 1995, n° 92.
  • 4.  CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA. Sexualidade humana: Verdade e significado – Orientações educativas em família. Col. Documentos Pontifícios n° 270. Petrópolis: Vozes, 1996, n° 9, p. 13.
  • 5.  Cf. TOMÁS DE AQUINO. Summa Theologica, I, 38.
  • 6.  THOMAZEAU, Guy. Bonne nouvelle du mariage. 5ème édition. Paris : Cerf, 2001, p. 18-19.
  • 7.  MIRANDA, Dom Antônio Afonso de. Sexualidade, matrimônio e família. São Paulo: Dom Bosco, 1983, p. 15.
  • 8.  Cf. LÓPEZ QUINTÁS, Alfonso. O amor humano: Seu sentido e alcance. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 56ss; ROF CARBALHO, Juan. El hombre como encuentro. Madrid: Alfaguara, 1973.
  • 9.  LÓPEZ QUINTÁS, Alfonso, op. cit., 57.
  • 10. Ibidem, p. 57.
  • 11. WOJTYLA, Karol. Amore e responsabilità. 6ª ristampa. Genova: Marietti, 1999, p. 60.
  • 12. Cf. JOÃO PAULO II. Op. cit., p. 102-103.
  • 13. MOTTA, Joaquim Zailton Bueno. Amor e rivalidade sexual. Petrópolis: Vozes, 1989, p.150.
  • 14. Cf. ibidem, p.150ss.
  • 15. Ibidem, p. 150.
  • 16. Ibidem, p. 151.
  • 17. Cf. MOSER, Antônio. O enigma da esfinge: A sexualidade. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 200-201.

 

Os cenários de nossa família e a atual mudança de época

Vivemos, hoje, em meio a uma “mudança de época”(1). Ela é portadora de chances e desafios. Está emergindo um novo modelo de sociedade, fundado numa cultura que se refaz constantemente. A família não passa incólume.

Para entender o cenário atual, começaremos por analisar o período pré-moderno no Brasil. Ele lançou as bases da sociedade tradicional e influenciou muito a família brasileira. Mesmo se a nossa República tenha sido proclamada em 1889, seguindo os ideais da modernidade, esta, por sua vez, só conseguiu penetrar na população brasileira muito tardiamente, ou seja, a partir de meados do século XX, quando a população se concentrou mais nas cidades. As ressonâncias na família se fizeram sentir fortemente.

O pré-moderno

O pré-moderno, no Brasil, teve por base, inicialmente, um conjunto heterogêneo de grupamentos isolados, numa vida eminentemente rural, quando o desafio era ainda a ocupação do interior do País. Organizou-se aqui uma sociedade tradicional. Praticamente durante três séculos ou mais, foram sendo amalgamadas as bases que sustentaram a vida dos povos de nossas terras, num quadro pré-moderno.

Sociedades tradicionais possuíam, em geral, características como a estabilidade institucional, a força da tradição e a forte presença da Igreja. As mudanças aconteciam muito lentamente. Tudo tinha seu lugar pré-estabelecido. Cabia a cada pessoa se encaixar no esquema de vida já estabelecido, seguindo os valores, os papéis e os ritos próprios da Cristandade. Os papéis que cada um devia desempenhar, bem como os símbolos e a religião tinham de antemão o seu lugar; ai de quem ousasse questionar! É o que chamamos de “heteronomia”. Era uma sociedade marcada fortemente pela figura paterna. Igreja e família buscavam contribuir para a coesão social. Impunha-se uma visão “teocêntrica”, pela qual tudo devia conduzir para Deus. Os padrões eram uniformes e unânimes. O quadro era estático. A família organizava-se dentro deste cenário,  tendo por base o modelo patriarcal.

A Idade Moderna

A modernidade(2) deslocou, por sua vez, a visão “teocêntrica” para uma visão “antropocêntrica”, centrada no “homem”. Esta começou a existir há uns 500 anos em terras europeias. No Brasil, o contato real da população com o “espírito moderno” deu-se com a migração do campo para a cidade(3). Esta migração provocou um “desenraizamento” que fragilizou enormemente esta população que chegou nas cidades; esta “ajusta-se” para sobreviver, dispersando-se nas metrópoles, sem ter a clareza da direção para prosseguir e reorganizar a vida. É neste contexto que entra em contato com o mundo moderno das metrópoles ou do mundo urbano em geral.

A cidade alicerçou sua visão do mundo e do humano na modernidade. Esta, calcada na multiplicidade das ciências, privilegiando a razão e a produção, influiu e influi de maneira especial sobre o quadro da pessoa, com ressonância direta sobre a família. Fundada na revolução da pessoa consciente, esta dotada de razão, capaz de produção, a modernidade pensou ter chegado enfim à afirmação do ser humano autônomo, sujeito de si e da história. Grandes, é claro, foram as conquistas, sobretudo ao lançar as bases da ordem democrática, bem como ao proclamar os direitos da pessoa humana.

Com o advento da razão, o ser humano buscou conhecer e transformar a natureza e a sociedade, extraindo delas o máximo de benefícios para si. As ciências lhe deram o saber de que necessitava e as técnicas lhe ofereceram os instrumentos, fixando a partir daí as bases de legitimação e validade de tudo o que viria a compor a sua vida. A utilidade e a eficiência transformaram-se logo em critérios por excelência.

Tudo isso interferiu enormemente na estabilidade do núcleo familiar. Até os anos cinquenta do século XX, era claro que o filho/a deixava a casa para casar-se, seguindo-se o nascimento dos filhos, a educação dos mesmos, o envelhecimento e a viuvez. Após os anos cinquenta, a tendência se tornou progressivamente cada vez menos uniforme, com os filhos saindo de casa não necessariamente para se casar, talvez para trabalhar, ou estudar, ou coabitar... e assim sucessivamente. A família deixa de ser uma instituição forte, como no mundo pré-moderno, fazendo com que a nucleação familiar não seja mais uniforme e estável(4).

A proposta pós-moderna

Mal havíamos chegado à modernidade, eis que já sopram os ventos da pós-modernidade. Época de mudanças ou mudança de época? Muitos são os indicadores de que nos encontramos hoje numa mudança de época. Esta afeta as bases mais profundas de sustentação da vida humana; muda o modo como tecemos as relações fundamentais com nós mesmos, com os outros, com a natureza e com Deus. Disseminam-se facilmente visões fragmentadas e, por isso, parciais e/ou reducionistas, numa “miniaturização do processo de personificação”(5). Perde-se, assim, a visão integral do ser humano. 

Se a razão triunfou na sociedade industrial e moderna, hoje emerge com força a esfera emotiva e subjetiva. Está em crise a sociedade focada exclusivamente no trabalho, no mercado e na competitividade. Como alternativa, um modelo centrado em outras premissas está em gestação. Nestes tempos pós-modernos, redimensionam-se os valores vitais e os eixos básicos da vida humana. O novo irrompe por todos os lados. Já não é mais possível encobrir seus “sinais”, nem passar ao largo, num “faz de conta” que não vimos.

Nesta mudança de época, “surge com grande força uma sobrevalorização da subjetividade individual”(6). Damo-nos conta de que “o individualismo enfraquece os vínculos comunitários e propõe uma radical transformação do tempo e do espaço, dando papel primordial à imaginação [...]. Deixa-se de lado a preocupação pelo bem comum para dar lugar à realização imediata dos desejos dos indivíduos, à criação de novos e muitas vezes arbitrários direitos individuais, aos problemas da sexualidade, da família, das enfermidades e da morte(7). O impacto deste cenário na família é imediato. O documento de Aparecida afirma: 

  • “As mudanças culturais alteraram os papéis tradicionais de homens e mulheres, que procuram desenvolver novas atitudes e estilos de suas respectivas identidades, potencializando todas as suas dimensões humanas na convivência cotidiana, na família e na sociedade, às vezes por vias equivocadas” (n. 49).

Devido à fragilidade do indivíduo na pós-modernidade, nos perguntamos se estamos preparados para alguns dos grandes desafios de nossos tempos, tais como: os fundamentalismos, inclusive dentro da Igreja Católica; os nacionalismos exasperados, apesar da globalização; a ambiguidade na compreensão da liberdade religiosa; a solidão das pessoas, apesar da sofisticada tecnologia de comunicação; a superficialidade do virtual na atual cultura da imagem, num distanciamento do real e descompromisso com a história de nossos povos; a fácil aceitação do consumismo selvagem, sem atitude crítica; o desemprego e a inquietação diante das persistentes desigualdades e má distribuição dos recursos; o desrespeito da natureza, da justiça e da paz.

Chances e oportunidades
Quantas vezes reagimos com lamúrias e desesperançados ante o novo que está emergindo. No entanto, a sintonia com o Espírito do Senhor, a ausculta de seus apelos nos sempre novos sinais dos tempos nos levam a uma vigilância constante e a uma esperança sem limites. Sentimos ser parte de nosso modo de ser “desejar o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”(8), abrindo-nos, assim, 

  • “às sugestões interiores do Espírito... Ele chama a vida consagrada a elaborar novas respostas para os problemas novos do mundo atual. São solicitações divinas, que só almas habituadas a procurar em tudo a vontade de Deus conseguem captar fielmente e, depois, traduzi-las corajosamente em opções coerentes seja com o carisma originário, seja com as exigências da situação história concreta”(9). 

Lidos os sinais dos tempos, queremos responder com novos projetos de evangelização, apropriados às novas situações atuais(10). Alimentamos a certeza, na fé, de que “o Espírito sabe dar as respostas apropriadas mesmo às questões mais difíceis”(11).

Alimentado por esta certeza, apresentei no Seminário “Cultura pós-moderna, ética cordial e caminho franciscano”, realizado em Roma, em janeiro de 2013, preparado pela Comissão que estuda a “Situação da Ordem”, da qual faço parte, a seguinte percepção do momento presente:

  • É hora de saber reconhecer o que é bom, encorajar o que constrói a vida, aliando novas tecnologias, disposição de dialogar e de escutar, com o componente experiencial, superando o estritamente teórico. Hoje, quer-se provar, saborear mais do que teorizar e acumular saberes. Em meio a isso, surge o desafio de promover uma cultura que de novo dê sentido à vida e à história, buscando a humanização, sem perder o dinamismo e a criatividade. Há algumas décadas, vem se impondo o ideal da qualidade de vida, que não é tanto “ter mais”; carregado de um novo ideal de vida, esta prima pelo qualitativo, estético, emocional e cultural. Há uma busca de estetização do mundo. A alta tecnologia vem, cada vez mais, recebendo um toque estético. Importa criar ambientes agradáveis, belos de se viver, mais conviviais e hospitaleiros, numa cultura do bem-estar e da estética.
  • Cultivar a imaginação, viver na diversidade, cuidar do meio ambiente, buscando civilizar a cultura-mundo: eis o desafio! Precisamos engenhosamente aliar tecnociência e política em vista de uma solidariedade global. “Trata-se de investir de forma maciça nas tecnologias limpas, economizar energia, taxar cada vez mais pesadamente as indústrias poluentes, modificar os hábitos de consumo, criar um ecodesenvolvimento”12. Assistimos, em nossos dias, ao crescimento da solidariedade, à busca por intercâmbios, à aspiração por uma cultura da paz. Apresenta-se o desafio de edificar uma sociedade aberta e multicultural, com justiça social(12).

 

Notas

  • 1   V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de Aparecida. 7ª edição, Brasília; São Paulo: CNBB; Paulus; Paulinas, 2008, n° 44.
  • 2   Trata-se da época chamada de Idade Moderna que sucedeu ao longo período da Idade Média. Mesmo que alguns digam que o seu começo possa ser buscado num passado muito distante, o certo é que a modernidade, ou a Idade Moderna, surgiu mesmo com as descobertas do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) e sua explicação da estrutura do universo, com a física do astrônomo e físico italiano Galileu Galilei (1564-1642), com a “filosofia prática” de franciscano inglês Francis Bacon (1561-1626), com a valorização da “razão” pelo movimento chamado Iluminismo e com a importância dada à produção pela Revolução Industrial (estes dois últimos são dos séculos XVIII e XIX).
  • 3   A migração campo-cidade acelerou-se em meados do século XX. É bom notar que até o recenseamento de 1970, registrava-se ainda uma taxa de crescimento da população rural. O recenseamento de 1980 mostrou, por sua vez, a inversão dessa tendência. Mesmo assim, em 1970, já se constatava uma população mais numerosa nas cidades, que abrigavam 52 milhões de habitantes contra 41 milhões nas zonas rurais. Se em 1970, 55,9% da população brasileira morava nas cidades, esta taxa subiu para 67,6% em 1980 e 75% em 1991. Em 2000, a população urbana era de 81,2%, ou seja, 132 milhões de pessoas. O censo de 2010 apontou uma população formada por 190.732.694 pessoas, das quais 160.925.792 moravam na cidades (84%), sendo que pouco menos de 30 milhões no campo (16%).
  • 4    Cf. AGOSTINI, Nilo. A família no Brasil hoje - Contornos e raízes de uma situação. In: Teologia Moral: Entre o pessoal e o social. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 65-77.
  • 5   LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: Ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio D’Água Editorial, 1983, p. 13.
  • 6    V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Op. cit., n° 44.
  • 7   Ibidem, n° 44.
  • 8    Cf. RegB 10,9.
  • 9    JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Vita Consecrata. L’Osservatore Romano, 30 de março de 1996, nº 73.
  • 10    Cf. ibidem.
  • 11   Cf. ibidem.
  • 12    LIPOVETSKY, G.; SERROY, J. A cultura-mundo: Reposta a uma sociedade desorientada. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 185.

 

A Igreja se prepara para o Sínodo Extraordinário

O Papa Francisco convocou, no dia 8 de outubro de 2013, a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”. Esta realizar-se-á no Vaticano, de 5 a 19 de outubro de 2014. Num Sínodo, a Igreja é chamada a se envolver comunitariamente, numa participação das Igrejas particulares das diversas partes do mundo. 

O episcopado é especialmente chamado a se fazer presente nas discussões, buscando aprofundar questões e buscar orientações pastorais comuns sobre questões por vezes difíceis. Desde 1985, não se realizava uma Assembleia Geral “Extraordinária”; naquele ano, o tema foi “A aplicação do Concílio Vaticano II”, por ocasião do vigésimo aniversário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II. A I Assembleia Extraordinária realizou-se, por sua vez, em 1969, e teve como tema “As Conferências episcopais e a colegialidade dos Bispos”.

O documento preparatório do próximo Sínodo já publicado revela uma preocupação da Igreja diante da “evidente crise social e espiritual que se torna um desafio pastoral, que interpela a missão evangelizadora da Igreja para a família”. 

Diz ainda o documento que “propor o Evangelho sobre a família neste contexto é mais urgente e necessário do que nunca” para, em seguida, afirmar que “hoje perfilam-se problemáticas até há poucos anos inéditas”. Vivemos um tempo de grandes mudanças no coração de uma sociedade que está passando da modernidade para a pós-modernidade, momento este já identificado como “mudança de época”. 

Neste breve texto preparatório, ainda na primeira parte, são identificadas “novas situações” que urgem serem abordadas. Veja:

  • “Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimônios mistos ou inter-religiosos; a família monoparental; a poligamia; os matrimônios combinados, com a consequente problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o sistema das castas; a cultura do não-comprometimento e da presumível instabilidade do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenômenos migratórios e a reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de matrimônio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na compreensão do matrimônio e da vida familiar; as tendências de pensamento subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do pacto matrimonial; o difundir-se do fenômeno das mães de substituição (‘barriga de aluguel’); e as novas interpretações dos direitos humanos”.

A segunda parte do documento preparatório versa sobre “a Igreja e o Evangelho sobre a família”, com destaque para o projeto de Deus criador e redentor e o ensinamento da Igreja sobre a família. A terceira parte deste texto ficou notabilizada porque traz um “questionário” que tem como intuito “permitir às Igrejas particulares participar ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário”.

Os olhos da mídia fixaram-se, como sabemos, no questionário. São 39 perguntas que buscam identificar os principais desafios pastorais a respeito da família para, em meio a eles, anunciar o Evangelho. O questionário abarca questões em torno dos seguintes eixos: 1) Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família; 2) Sobre o matrimônio segundo a lei natural; 3) A pastoral da família no contexto da evangelização; 4) Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis; 5) Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo; 6) Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimônios irregulares; 7) Sobre a abertura dos esposos à vida; 8) Sobre a relação entre a família e a pessoa; 9) Outros desafios e propostas.

Talvez um número não negligenciável busque, neste Sínodo, multiplicar definições e outro queira até estabelecer condenações. Não seria a hora de ajudar as pessoas a viverem mais humanamente e com esperança, buscando uma prática pastoral evangélica? Podemos assumir a postura das trincheiras e buscar nos garantir longe deste mundo das intempéries de todo tipo.

Que sabe, melhor mesmo é ir junto ao povo e buscar “recuperar o humano, revisar o histórico e redescobrir o Evangelho”, segundo a expressão do padre jesuíta Juan Mesiá. Sairemos um pouco enlameados... Mas pode ser a lama com a qual Jesus curou o cego de nascença (cf. Jo 9, 1-12). “Quem pecou, ele ou seus pais para nascer assim”, perguntaram. Jesus disse: “Nem ele, nem seus pais pecaram”. E nele também se manifestou a obra de Deus.

Convido-os a perfazerem uma caminhada de reflexão durante este ano. Dedicar-nos-emos ao tema da família. Mais do que um tema, é uma realidade viva que necessita da “lama” do Evangelho.