A verdadeira alegria nascida do amor

Frei Gustavo Medella

“Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo”. (PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 7).

A Alegria do Evangelho é livre, transformadora, incondicionada. Segue a Matemática do Reino, aquela em que, quando mais se dá, mais se ganha. É repleta de uma generosidade que se encarna em gestos, que transforma a vida, que produz entusiasmo, paz interior e vontade de viver. É alegria transbordante, que não se encerra no coração de quem a possui, mas necessariamente extravasa os limites, quaisquer que sejam para se encarnar em ações que testemunham, que falam por si mesmas, sem necessidade de explicações verbalizadas, tal qual expressa São Paulo na Carta aos Tessalonicenses: “Assim, nós já nem precisamos falar, pois as pessoas mesmo contam como vós nos acolhestes e como vos convertestes, abandonando os falsos deuses para servir ao Deus vivo e verdadeiro” (Ts 1,8c-9).

Amar a Deus, amar-se a si mesmo e amar ao próximo é um movimento único que conduz à plena realização. É o coroamento da Lei e dos Profetas, conforme atesta Jesus no Evangelho (Mt 22,34-40). Encarnar esta lógica amorosa na vida pessoal e no seio da Igreja é ser fiel à força transformadora do Evangelho. Ir ao encontro do outro com a disposição de amá-lo é abraçar de verdade a missão que enche a vida de graça e sentido, é encarnar a mística do encontro: “Portanto, quando vivemos a mística de nos aproximar dos outros com a intenção de procurar o seu bem, ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, tornamo-nos capazes de descobrir algo de novo sobre Deus. Cada vez que os nossos olhos se abrem para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para reconhecer a Deus. Em consequência disto, se queremos crescer na vida espiritual, não podemos renunciar a ser missionários” (EG, n. 272).

A liturgia deste 30º Domingo do Tempo Comum é um convite a alcançarmos a verdadeira alegria à qual Deus chama os filhos e filhas a quem tanto ama.

 

30º Domingo do Tempo Comum
1ª Leitura: Ex 22,20-26 / Sl 17 / 2ª Leitura: 1Ts 1,5c-10 / Evangelho: Mt 22,34-40

O centro da vida 

-* 34 Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito os saduceus se calarem. Então eles se reuniram em grupo, 35 e um deles perguntou a Jesus para o tentar: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37 Jesus respondeu: «Ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, e com todo o seu entendimento. 38 Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a esse: Ame ao seu próximo como a si mesmo. 40 Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos.»

  • * 34-40: Cf. nota em Mc 12,28-34.[ * 28-34: Jesus resume a essência e o espírito da vida humana num ato único com duas faces inseparáveis: amar a Deus com entrega total de si mesmo, porque o Deus verdadeiro e absoluto é um só e, entregando-se a Deus, o homem desabsolutiza a si mesmo, o próximo e as coisas; amar ao próximo como a si mesmo, isto é, a relação num espírito de fraternidade e não de opressão ou de submissão. O dinamismo da vida é o amor que tece as relações entre os homens, levando todos aos encontros, confrontos e conflitos que geram uma sociedade cada vez mais justa e mais próxima do Reino de Deus.]

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

 

O Mandamento Maior

Pe. Johan Konings

O povo de Israel foi muito bem educado. Em comparação com outras religiões, a de Israel dá um peso notável à ética. A 1ª leitura de hoje mostra, por um texto antiqüíssimo, como o povo era constantemente convidado a julgar com delicadeza o que convinha no cotidiano. Não oprimir os estrangeiros e migrantes (prática comum daquele tempo, como hoje), pois também eles foram uma vez estrangeiros. 

Não explorar viúvas e órfãos. Não exigir juros sobre o dinheiro emprestado a um pobre (outra coisa é o dinheiro creditado a um rico para especular ... mas os nossos bancos e financiamentos não conhecem essa distinção). Quem recebe um manto em penhor, tem que devolve-lo antes da noite, para o coitado não passar a noite fria sem coberta. Diante de tal pedagogia divina, o salmista, no salmo responsorial, pode com justiça exclamar que Deus é sua defesa e salvação. Tal Deus merece ser amado!

Os escribas de Jerusalém, impressionados com a sabedoria de Jesus (cf. domingo passado), queriam saber como ele resumiria a Lei. Pois, no meio do legalismo farisaico, que multiplicava as regras e intepretações, alguns, como o liberal rabi Hilel, achavam que era preciso simplificar a Lei e procurar-lhe um princípio central, uma chave de interpretação. Tal chave de interpretação, revelando o espírito mais profundo da Lei, Jesus a encontra no mandamento que todos os judeus sabiam ser o primeiro (citado no “Shemá Israel”, Dt 6,4ss): amar a Deus acima de tudo. Mas, acrescenta Jesus, há um segundo, de igual peso: amar ao próximo. Nestes dois mandamentos, qual uma porta nos seus gonzos, repousa toda a Lei (evangelho).

Segundo os evangelhos sinóticos (Mt 22,34-40 e par.), Jesus situou o cerne da Lei (que quer ser a expressão da vontade de Deus) no amor a Deus e ao próximo. Paulo, Tiago e João só falam no mandamento do amor fraterno (cf. Rm 13,8-10; Gl 5,14; Tg 2,8; Jô 13,34 etc.). Essa diferença não é fundamental, pois não se consegue amar bem ao irmão se não ama a Deus, isto é, se não se procura conhecer sua vontade absoluta referente ao irmão. Pois quem não admite Deus em sua vida se coloca a si mesmo como Deus para os outros... Mesmo se não se confessa a fé em Deus com as palavras de nosso Credo, é preciso admitir alguma instância absoluta para amar ao irmão como convém e não conforme veleidades subjetivas. ( Há muitos que se amam a si mesmos no próximo: mães “corujas”, revolucionários ambiciosos, benfeitores espalhafatosos, apóstolos que procuram afirmação pessoal etc.)

Convém considerar também a unidade dos dois mandamentos pelo outro lado: não se pode amar a Deus sem amar o irmão (cf. 1Jo 4,20). Já no Antigo Testamento conhecemos Deus como protetor e defensor dos mais fracos. Como nos daríamos bem com ele, oprimindo nosso irmão? Como poderíamos ser amigos do pai sem amarmos seus filhos? Quando os mensageiros anunciaram a Davi a “boa” notícia da morte de seu filho rebelde Absalão, ele o chorou, e a vitória se transformou em luto (2Sm 18-19). Se Deus é o defensor dos fracos, como poderão os cristãos apelar para o evangelho sem escolher o lado dos fracos e desprotegidos?

A 2ª leitura apresenta os tessalonicenses como exemplo de fé generosa, na perspectiva do novo encontro com o Senhor ressuscitado (v. 9-10). Este exemplo se transforma para nós em exortação, ao aproximar-se o fim do ano litúrgico, acentuando-se a perspectiva final. “Tornastes-vos imitadores nossos e do Senhor”. Quantos evangelizadores podem dizer, com a simplicidade de Paulo, que seus “evangelizadores” os imitem para serem imitadores do Senhor? 

A oração do dia oferece um pensamento digno de meditação. “Daí-nos amar o que ordenais”. Geralmente, gostaríamos de que ele ordenasse o que amamos. Mas reconhecemos que seu critério é melhor que o nosso. 

 

Amar a Deus e ao próximo 

Jesus resume a Lei, a norma ética, em “amar Deus e o próximo”. Tendo claro que “amar”, neste contexto, não significa mero sentimento, mas opção ética, podemos desdobrar este ensinamento em duas perguntas:

1) Pode-se amar Deus sem amar ao próximo? Não. Já na antiga “Lei da Aliança”, mil anos antes de Cristo, “amar a Deus” significa, concretamente, ajudar ao próximo: a viúva, o órfão, o estrangeiro, o povo em geral: o direito do pobre clama a Deus (1ª leitura). 

Na mesma linha, Jesus, interrogado sobre qual é o maior mandamento, vincula o amor a Deus ao amor ao próximo, e acrescenta que desses dois mandamentos dependem todos os outros (evangelho). Todas as normaséticas devem ser interpretadas à luz do amor a Deus e ao próximo, que são inseparáveis. É impossível optar por Deus sem ser solidário com seus filhos (1Jo 4,20). A verdadeira religiãoé dedicar-se aos necessitados (Tg 1,27). Na prática, o “amor a Deus” (a religião) passa necessariamente pelo “sacramento do pobre e do oprimido”, ou seja, pela opção por aqueles cuja miséria clama a Deus, seu “Defensor”. Entre Deus e nós está o necessitado. Só dedicando-se a este, temos acesso a Deus. Mas não basta uma esmola. Com a nossa atual compreensão da sociedade e da história, a dedicação ao empobrecido não se limita à escola, mas exige novas estruturas. Importa trabalhar as estruturas da sociedade e transforma-las de tal modo que o bem-estar do fraco e do pobre estejam garantido pela solidariedade de todos, numa estrutura política e social que seja eficaz.

2) Pode-se amar o próximo sem amar a Deus? Nosso mundo é, como se diz, “secularizado”. Não dá muito lugar a Deus. Não nos enganem as aparências, os shows religiosos que aparecem em teatro e televisão, pois esse tipo de religiosidade, muitas vezes, não passa de um produto de consumo, no meio de tantos outros. Não é compromisso com Deus. Ao mesmo tempo, pessoas com profundo senso ético dizem: já não precisamos de Deus para explicar o universo. Será que ainda precisamos dele para sermos éticos, para respeitar nosso semelhante, para “amar o próximo?” Será que não basta ser bom para com os outros, sem apelar a Deus? Para que “amar a Deus”? Para que a religião? Eis a resposta: para amar bem o irmão, devemos também “amar a Deus”, aderir a ele (embora não necessariamente por uma religião explícita). Isso, porque o que entendemos por Deus é o absoluto, o incondicional, aquele que tem a última palavra, que sempre nos transcende e está acima de nossos interesses pessoais. Se não buscamos ouvir essa palavra última, pode acontecer que nos ocupemos com o próximo para nos amar a nós mesmos (amor pegajoso, interesseiro, sufocante etc.)

Como cristão, conhecendo “Deus” como Pai de Jesus Cristo e como a fonte do amor que este nos manifestou, devemos perguntar sempre se nossa prática de solidariedade é realmente orientada pelo absoluto, por Deus, aquele que Jesus chama de Pai. Senão, vamos conceber nosso amor de acordo com a nossa medida, que é sempre pequena demais...

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

 

O amor está no centro da experiência cristã

Pe. Joaquim Garrido, Pe. Manuel Barbosa, Pe. José Ornelas Carvalho

A liturgia do 30º domingo Comum diz-nos, de forma clara e inquestionável, que o amor está no centro da experiência cristã. O que Deus pede – ou antes, o que Deus exige – a cada crente é que deixe o seu coração ser submergido pelo amor.

O Evangelho diz-nos, de forma clara e inquestionável, que toda a revelação de Deus se resume no amor – amor a Deus e amor aos irmãos. Os dois mandamentos não podem separar-se: “amar a Deus” é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. Tudo o resto é explicação, desenvolvimento, aplicação à vida prática dessas duas coordenadas fundamentais da vida cristã.

A primeira leitura garante-nos que Deus não aceita a perpetuação de situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos e pela dignidade dos mais pobres e dos mais débeis. A título de exemplo, a leitura fala da situação dos estrangeiros, dos órfãos, das viúvas e dos pobres vítimas da especulação dos usurários: qualquer injustiça ou arbitrariedade praticada contra um irmão mais pobre ou mais débil é um crime grave contra Deus, que nos afasta da comunhão com Deus e nos coloca fora da órbita da Aliança.

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã (da cidade grega de Tessalônica) que, apesar da hostilidade e da perseguição, aprendeu a percorrer, com Cristo e com Paulo, o caminho do amor e do dom da vida; e esse percurso – cumprido na alegria e na dor – tornou-se semente de fé e de amor, que deu frutos em outras comunidades cristãs do mundo grego. Dessa experiência comum, nasceu uma imensa família de irmãos, unida à volta do Evangelho e espalhada por todo o mundo grego.

 

LEITURA I – Ex 22,20-26

Leitura do Livro do Êxodo

Eis o que diz o Senhor:
«Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás,
porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito.
Não maltratarás a viúva nem o órfão.
Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim,
escutarei o seu clamor;
inflamar-se-á a minha indignação
e matar-vos-ei ao fio da espada.
As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos.
Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo,
ao pobre que vive junto de ti,
não procederás com ele como um usurário,
sobrecarregando-o com juros.
Se receberes como penhor a capa do teu próximo,
terás de lha devolver até ao pôr do sol,
pois é tudo o que ele tem para se cobrir,
é o vestuário com que cobre o seu corpo.
Com que dormiria ele?
Se ele Me invocar, escutá-lo-ei,
porque sou misericordioso».

 

AMBIENTE

O “Decálogo” ou “dez mandamentos” (cf. Ex 20,2-17) era, sem dúvida, o coração da Aliança e apresentava os valores fundamentais que deviam marcar o comportamento do Povo de Deus, quer em relação a Javé, quer em relação à vida comunitária. 

No entanto, as leis do “Decálogo” eram relativamente gerais e não consideravam todos os casos e situações…

A complexidade da vida diária obrigou, portanto, a um esclarecimento e a uma concretização das leis apresentadas no “Decálogo”. Em consequência, surgiram novas normas, bem concretas, que regulavam o dia a dia do Povo de Deus. Uma ampla recompilação dessas leis aparece no Livro do Êxodo.

Logo a seguir ao “Decálogo”, em lugar de honra, os catequistas de Israel colocaram um bloco heterodoxo de leis, que se convencionou chamar “Código da Aliança” (cf. Ex 20,22-23,19). São leis que os autores do Livro do Êxodo apresentam como ditadas por Deus a Moisés, no Sinai; na realidade, trata-se de leis de proveniência diversa, cuja antiguidade continua a ser discutida, mas que a maioria dos comentadores faz remontar ao tempo dos “juízes” (séc. XII a.C.).

O “Código da Aliança” é um bloco legislativo que regula vários aspectos da vida do Povo de Deus, desde o culto até às relações sociais. Trata-se de um conjunto de prescrições, soluções, disposições justas, sãs e sólidas, que solucionam as dificuldades, explicam os princípios e ordenam a conduta dos homens nas situações comuns e variáveis da condição humana. Nele sobressai, não só uma consciência muito viva de que Israel é chamado à comunhão com Deus, mas também um forte sentido social. Revela um Povo preocupado em concretizar os compromissos da Aliança na vida do dia a dia. Sugere que a fé de Israel não é uma realidade abstrata ou fantasmagórica, mas uma realidade bem viva, que se deve viver em cada setor da vida prática.

O texto que hoje nos é proposto é um extrato do “Código da Aliança”.

 

MENSAGEM

A nossa leitura refere-se exatamente a algumas exigências sociais que resultam da Aliança. Apresenta indicações concretas acerca da forma como lidar com três realidades de carência, de necessidade, de debilidade: a do estrangeiro, a do órfão e da viúva, e a do pobre que foi obrigado a pedir dinheiro emprestado. Trata-se, em qualquer caso, de pessoas em situação difícil, quer em termos jurídicos, quer em termos sociais, quer em termos econômicos.

O “estrangeiro” é frequentemente um desenraizado, obrigado a deixar a sua terra de referência e o seu quadro de relações familiares, atirado para um ambiente cultural e social adverso, e onde as leis locais nem sempre protegem convenientemente os seus direitos e a sua dignidade. A sua situação de debilidade é aproveitada, com frequência, por pessoas sem escrúpulos que os exploram, que os escravizam e que contra eles cometem impunemente as maiores injustiças.

O “órfão” e a “viúva” integram a categoria das vítimas tradicionais dos abusos dos poderosos. Desprotegidos, ignorados pelos juízes e pelos dirigentes, sem defesa diante das arbitrariedades dos mais fortes, vítimas de toda a espécie de injustiças, têm em Javé o seu único defensor.

O “pobre que pede dinheiro” é, quase sempre, esse camponês carregado de impostos, arruinado por anos de más colheitas, que tem de pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas e para sustentar a família. A sua extrema necessidade é explorada pelos usurários e pelos especuladores sem escrúpulos, que o obrigam a deixar como penhor os seus bens mais básicos. Sufocado por juros altíssimos, acaba por tudo perder e por ficar na miséria mais absoluta, condenado a morrer de frio ou de fome.

A sensibilidade de Israel diz-lhe que Deus não aceita a perpetuação destas situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos dos mais pobres e débeis. Se Israel pretende viver em comunhão com Deus e aproximar-se do Deus santo, tem de banir do meio da comunidade as injustiças e as arbitrariedades cometidas sobre os mais débeis – nomeadamente sobre os estrangeiros, os órfãos, as viúvas e os pobres. Essa é uma das condições para a manutenção da Aliança.

 

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• O apelo a não prejudicar nem oprimir o estrangeiro convida-nos a considerar como acolhemos esses imigrantes que cruzam as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida e que, além da solidão, das dificuldades linguísticas, do desenraizamento cultural, ainda são vítimas do racismo, da xenofobia, da má vontade, da exploração, das arbitrariedades cometidas por empresários sem escrúpulos, das violências praticadas pelas máfias que transacionam carne humana. 

Não podemos ficar indiferentes e insensíveis aos seus dramas e sofrimentos, ou sentir-nos alheios e indiferentes face às injustiças que contra eles se cometem. Precisamos  ver em cada homem ou mulher – russo, moldavo, ucraniano, romeno, cabo-verdiano, angolano, guineense – um irmão que Deus colocou ao nosso lado e que temos de cuidar, proteger e amar.

• O apelo a não maltratar nem a fazer qualquer mal à viúva e ao órfão convida-nos a considerar a forma como acolhemos e tratamos os nossos irmãos mais frágeis, sem defesa, ou que pertencem a grupos de risco… São as crianças, exploradas, usadas, maltratadas, condenadas precocemente a uma vida de trabalho e impedidas de viver a infância; são os idosos, atirados para lares, condenados em vida a uma existência de sombras, subtraídos ao seu ambiente familiar e às suas relações sociais; são os doentes incuráveis, abandonados, condenados à solidão, que escondemos e que evitamos para não perturbar a nossa boa disposição e o mito de uma vida isenta de sofrimento e de morte… Precisamos aprender que todos os homens e mulheres – particularmente os mais débeis, os mais carentes, os mais abandonados – devem ser respeitados, protegidos e amados.

• O apelo a não explorar os pobres convida-nos a considerar a situação daqueles que não têm instrução e estão condenados a uma vida de trabalho escravo, ou que têm de viver com salários de miséria, ou que são vítimas da especulação com bens essenciais, ou que são enganados e vilipendiados… O nosso texto diz claramente que Deus não aceita um mundo construído deste jeito e sugere que nós, crentes, não podemos tolerar as situações que roubam a vida e a dignidade dos pobres.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 17 (18)

Refrão: Eu vos amo, Senhor: sois a minha força.

Eu Vos amo, Senhor, minha força,
minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador.
Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança,
meu protetor, minha defesa e meu salvador.

Na minha aflição invoquei o Senhor
e clamei pelo meu Deus.
Do seu templo Ele ouviu a minha voz,
e o meu clamor chegou aos seus ouvidos.

Viva o Senhor, bendito seja o meu protetor;
exaltado seja Deus, meu salvador.
O Senhor dá ao Rei grandes vitórias
e usa de bondade para com o seu ungido.


LEITURA II - 1 Ts 1,5c-10

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses

Irmãos:
Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem.
Tornaste-vos imitadores nossos e do Senhor,
recebendo a palavra no meio de muitas tribulações,
com a alegria do Espírito Santo;
e assim vos tornastes exemplo
para todos os crentes da Macedônia e da Acaia.
Porque, partindo de vós, a palavra de Deus ressoou
não só na Macedónia e na Acaia,
mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus,
de modo que não precisamos de falar sobre ela.
De fato, são eles próprios que relatam
o acolhimento que tivemos junto de vós
e como dos ídolos vos convertestes a Deus,
para servir ao Deus vivo e verdadeiro
e esperar dos Céus o seu Filho,
a quem ressuscitou dos mortos:
Jesus, que nos livrará da ira que há-de vir.

 

AMBIENTE

Já vimos, no domingo passado, o contexto em que apareceu a Primeira Carta aos Tessalonicenses…

Depois de ter anunciado o Evangelho em Tessalônica e de ter juntado à sua volta uma comunidade viva e entusiasta, constituída maioritariamente por cristãos vindos do mundo pagão, Paulo teve de deixar a cidade às pressas, para fugir às maquinações dos judeus (ano 49/50). Entretanto, preocupado com a fidelidade dos tessalonicenses ao Evangelho, Paulo enviou Timóteo de volta a Tessalônica, a fim de saber notícias e de encorajar os tessalonicenses na fé. Paulo estava em Corinto quando Timóteo regressou de Tessalônica e apresentou o seu relatório. As notícias eram verdadeiramente animadoras: os tessalonicenses formavam uma comunidade exemplar e viviam animada e empenhadamente o seu compromisso cristão, apesar das dificuldades e da hostilidade do meio.

Paulo, feliz e confortado, escreveu aos tessalonicenses animando-os a prosseguir no caminho da fidelidade a Jesus e ao Evangelho. Aproveitou também para completar a formação doutrinal dos tessalonicenses e para corrigir alguns aspectos da vida da comunidade. Estamos na Primavera/Verão do ano 50 ou 51.

 

MENSAGEM

Paulo continua a longa ação de graças que começou no vers. 2. Ação de graças, por quê?

Porque à ação evangelizadora dos apóstolos (Paulo, Silvano, Timóteo) e do Espírito Santo, os tessalonicenses responderam com o acolhimento entusiasta do Evangelho. O nascimento para Cristo da jovem comunidade cristã de Tessalônica aconteceu num ambiente de alegria e de júbilo, apesar da hostilidade provocada pela oposição dos judeus e pela tensão entre os cristãos e as autoridades da cidade.

De resto, a alegria e o sofrimento fazem parte do dinamismo do Evangelho, desde o início… Cristo ofereceu a sua vida até à cruz para que a Boa Nova do Reino chegasse a toda a humanidade; Paulo imitou Cristo e anunciou o Evangelho no meio de dificuldades e perseguições; os tessalonicenses imitaram Paulo e receberam jubilosamente o Evangelho, apesar da hostilidade dos seus concidadãos; os crentes de toda a Grécia (“da Macedónia e da Acaia”, as duas províncias romanas da Grécia) imitaram os tessalonicenses e sofreram alegremente pelo Evangelho… Dessa forma, fica manifesto que o Senhor, os apóstolos e toda a Igreja partilham o mesmo destino: todos percorrem o mesmo caminho, iluminados pelo Evangelho, no meio da alegria e do sofrimento.

A história desta longa cadeia que vai de Jesus à Igreja mostra que o Evangelho se torna um dinamismo de vida e de salvação para todos os povos quando é acolhido na alegria, apesar do sofrimento e da perseguição.

 

ATUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão e partilha, os seguintes dados:

• Muitas vezes entendemos a fé como um acontecimento pessoal, que diz respeito apenas a nós próprios e a Deus (“eu tenho a minha fé”) e que não nos compromete com os outros. Na realidade, a fé liga-nos a uma longa cadeia que vem de Jesus até nós e que inclui uma imensa família de irmãos espalhados pelo mundo inteiro. Tenho consciência de pertencer a uma família de fé e sinto-me unido e solidário com todos os meus irmãos em Cristo? Tenho consciência de que o meu testemunho e a minha vivência ajudam e enriquecem os meus irmãos, assim como a vivência e o testemunho dos meus irmãos me enriquecem e me ajudam a mim?

• Nenhuma comunidade cristã é uma ilha. É preciso que as comunidades cristãs partilhem, estabeleçam laços, se interpelem uma às outras, se ajudem, se animem mutuamente… É nesse diálogo e nessa partilha que o projeto de Deus se vai tornando mais claro para todos e que podemos discernir, com mais nitidez, os caminhos de Deus. As nossas comunidades cristãs e religiosas estão abertas à partilha, ou são células isoladas, que vivem numa total alienação dos problemas, das vicissitudes e das dificuldades das outras comunidades?

• Paulo considera que o dinamismo do Evangelho se cumpre na experiência paradoxal da alegria e da dor… Receber o Evangelho com alegria significa abrir-lhe o coração, acolhê-lo, deixar que ele encontre uma terra boa onde possa frutificar e dar fruto… A dor, por sua vez, não é uma realidade boa e que devamos procurar; mas pode ajudar-nos a confiar mais em Deus, a entregarmo-nos nas suas mãos, a amadurecermos o nosso empenho e o nosso compromisso, a percebermos o sentido dos valores evangélicos do dom e da entrega da vida.

 

ALELUIA – Jo 14,23

Aleluia. Aleluia.

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra, diz o Senhor;
meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

 

EVANGELHO – Mt 22,34-40

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
Jesus respondeu:
«‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’.
Este é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo, porém, é semelhante a este:
‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.
Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

 

AMBIENTE

O Evangelho deste domingo leva-nos, outra vez, a Jerusalém, ao encontro dos últimos dias de Jesus. Os líderes judaicos já fizeram a sua escolha e têm ideias definidas acerca da proposta de Jesus: é uma proposta que não vem de Deus e que deve ser rejeitada… Jesus, por sua vez, deve ser denunciado, julgado e condenado de forma exemplar. Para conseguir concretizar esse objetivo, os responsáveis judaicos procuram argumentos de acusação contra Jesus.

É neste ambiente que Mateus situa três controvérsias entre Jesus e os fariseus. Essas controvérsias apresentam-se como armadilhas bem organizadas e montadas, destinadas a surpreender afirmações polêmicas de Jesus, capazes de ser usadas em tribunal para conseguir a sua condenação. Depois da controvérsia sobre o tributo a César (cf. Mt 22,15-22) e da controvérsia sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt 22,23-33), chega a controvérsia sobre o maior mandamento da Lei (cf. 

Mt 22,34-40). É esta última que o Evangelho de hoje nos apresenta… Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito.

A questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica e era, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em atualizar a Lei, de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr em prática. Esta “multiplicação” dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros?

É esta a questão que é posta a Jesus.

 

MENSAGEM

A resposta de Jesus, no entanto, supera o horizonte estreito da pergunta e vai muito mais além, situando-se ao nível das opções profundas que o homem deve fazer… O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de duas coordenadas: o amor a Deus e o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois mandamentos.

Os cristãos de Mateus usavam a expressão “a Lei e os Profetas” para se referirem aos livros inspirados do Antigo Testamento, que apresentavam a revelação de Deus (cf. Mt 5,17; 7,12). Dizer, portanto, que “nestes dois mandamentos se resumem a Lei e os Profetas” (vers. 40), significa que eles encerram toda a revelação de Deus, que eles contêm a totalidade da proposta de Deus para os homens.

A originalidade deste sumário evangélico da Lei não está nas ideias de amor a Deus ao próximo, que são bem conhecidas do Antigo Testamento: Jesus limita-Se a citar Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo)… A originalidade deste ensinamento está, por um lado, no fato de Jesus os aproximar um do outro, pondo-os em perfeito paralelo e, por outro, no fato de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos.

Portanto, o compromisso religioso (que é proposto aos crentes, quer do Antigo, quer do Novo Testamento) resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo. Na perspectiva de Jesus, que é que isto quer dizer?

De acordo com os relatos evangélicos, Jesus nunca se preocupou excessivamente com o cumprimento dos rituais litúrgicos que a religião judaica propunha, nem viveu obcecado com o oferecimento de dons materiais a Deus. A grande preocupação de Jesus foi, em contrapartida, discernir a vontade do Pai e a cumpri-la com fidelidade e amor. “Amar a Deus” é pois, na perspectiva de Jesus, estar atento aos projetos do Pai e procurar concretizar, na vida do dia a dia, os seus planos. 

Ora, na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa por fazer da vida uma entrega de amor aos irmãos, se necessário até ao dom total de si mesmo.

Assim, na perspectiva de Jesus, “amor a Deus” e “amor aos irmãos” estão intimamente associados. Não são dois mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda. “Amar a Deus” é cumprir o seu projeto de amor, que se concretiza na solidariedade, na partilha, no serviço, no dom da vida aos irmãos.

Como é que deve ser esse “amor aos irmãos”? Este texto só explica que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”. As palavras “como a si mesmo” não significam qualquer espécie de condicionalismo, mas que é preciso amar totalmente, de todo o coração.

Em outros textos de Mateus, Jesus explica aos seus discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores (cf. Mt 5,43-48). Trata-se, portanto, de um amor sem limites, sem medida e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. Aliás, Lucas, ao contar este mesmo episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta, acrescenta-lhe a história do “bom samaritano”, explicando que esse “amor aos irmãos” pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo o irmão que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que ele seja um estrangeiro ou inimigo (cf. Lc 10,25-37).

 

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão e partilha, considerar os seguintes pontos:

• Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Em algum momento durante o caminho, deixamos que o inevitável pó dos séculos cobrisse o essencial e o acessório; depois, misturamos tudo, arrumamos tudo sem grande rigor de organização e de catalogação e perdemos a noção do que é verdadeiramente importante. Hoje, gastamos tempo e energias discutindo certas questões que são importantes (o casamento dos padres, o sacerdócio das mulheres, o uso dos meios anticonceptivos, as questões acerca do que é ou não litúrgico, aos problemas do poder e da autoridade, os pormenores legais da organização eclesial…) mas continuamos a ter dificuldade em discernir o essencial da proposta de Jesus. O Evangelho deste domingo põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. Precisamos rever tudo, de forma a que o lixo acumulado não nos impeça de compreender, de viver, de anunciar e de testemunhar o cerne da proposta de Jesus.

• O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais nada, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projetos – para mim, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando refletir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha autossuficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cômodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?

• O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições?


ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 30º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
As palavras finais de envio poderão retomar o mandamento do amor fraterno, propondo um ou outro gesto concreto para o aplicar nesta semana: no bairro, ou através de uma ou outra iniciativa, ainda neste mês missionário. O amor ao qual Cristo nos convida é, efectivamente, um amor para viver!

3. PALAVRA DE VIDA.
Eram numerosas as prescrições na Lei, o que levava talvez a esquecer o essencial. Jesus, posto à prova por um doutor da Lei, resume os preceitos num só mandamento, o do Amor, tendo como sujeitos a amar: Deus e o próximo. Nenhuma concorrência entre si. Se amar a Deus é o primeiro mandamento e amar o próximo o segundo, Jesus precisa que os dois são “semelhantes”. São João, o discípulo que Jesus amava, chega a afirmar: “Aquele que diz «amo a Deus» e não ama o seu irmão é um mentiroso”.

4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
Pôr em realce o Evangelho… Ele lembra-nos a importância do mandamento do amor. A leitura do Evangelho deve ser pausada e, porventura, enquadrada com algum refrão ou gesto que refira o Amor de Deus.

5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Comprometer-se com uma pessoa particular… Quem é este “próximo” que tenho dificuldade em amar? O Evangelho deste domingo compromete-nos com uma pessoa particular: através de uma palavra, de um gesto, de um caminho, de uma visita que traduzirá o amor que temos para com ele.


P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
scj.lu@netcabo.pt – www.ecclesia.pt/dehonianos

 

Estas coisas faz o amor

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Dia após dia, domingo após domingo, a Palavra de Deus vai nos modelando interiormente. Toda a comunidade dos discípulos do Senhor se deixa “moldar” e “modelar” pelas visitas do Senhor em sua Palavra. O Evangelho nos fala uma vez mais do único mandamento: amar o Senhor de todo o coração e devotar bem querer sem limitem ao outro, ao semelhante, ao irmão.

Destaquemos, em primeiro lugar, as determinações da página do livro do Êxodo:

• O povo nunca poderá esquecer que vivera como estrangeiro na terra do Egito. Destarte, o mandamento do amor se volta para os migrantes, estrangeiros, essa gente que faz a trouxa e tenta vida e trabalho em terra estranha. Precisam todos de atenção e de carinho.

• Duas categorias de pessoas serão objeto de particulares atenções: as viúvas e os órfãos. Mulheres viúvas e crianças particularmente frágeis necessitarão de apoio em todos os sentidos: não podem morrer de fome, precisarão levar vida digna e nunca poderão ser exploradas.

• Sim, toda a atenção e delicadeza para com os pobres: “Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive do teu lado, não sejas um usuário, dele cobrando juros”. Toda ação que explora os mais fracos clama e brada aos céus.

• Por vezes, talvez emprestando ao pobre, alguém pede como garantia o manto. Ora, esse manto precisará ser devolvido à noite porque é a única coberta que o pobre tem para se aquecer do frio.

• Amar a Deus significa ouvir sua voz, tentar compreender seu projeto a nosso respeito e a respeito do mundo. Significa louvá-lo com os lábios, mas antes com a parte mais fina e sensível da consciência. Quer dizer não fazer dele um “resolvedor” de nossos problemas, mas um oceano de amor no qual mergulhamos, de modo especial nos momentos de oração de oração e de meditação. Significa ficar repetindo uma ladainha  de interrogações e de entrega:  O que queres de mim, Senhor? Eis-me aqui! Faça-se em mim segundo a tua palavra.

• Amar ao próximo quer dizer:

  • Não se considerar superior a ninguém, oferecer sempre o lugar para o outro.
  • Acreditar que o outro é mais do que aparenta ser.
  • Nunca  usar,  muito menos abusar do outro.
  • Adivinhar as suas necessidades.
  • Educá-lo para que não venha a se tornar um ser banal e medíocre.
  • Matar a fome de seu estômago e a fome de Deus. Se não tiver essa fome suscitá-la enquanto for tempo.
  • Ter a coragem de lavar os pés dos outros sem reclamos de retribuições e sem a ladainha de cobranças.
  • Dar hospitalidade a todos e cada um mesmo com certa esquecimento de si.
  • Atender no próximo  os pedidos do próprio Jesus.
  • Vestir os corpos nus e cobrir de perdão aquele que precisa recomeçar uma vida nova depois de loucuras.