14 de setembro: Da autoexaltação à Exaltação da Santa Cruz.

Frei Gustavo Medella

Imagine duas retas, uma horizontal e outra vertical, que se tocam e formam entre si um ângulo de 90º. Parece o início de uma aula de Geometria, mas nada mais é do que a descrição de um dos símbolos mais simples e mais eloquentes da história da humanidade: a cruz. Só mesmo os desígnios divinos dariam conta de transformar um instrumento de morte e tortura em sinal de Salvação. Apontando para o alto para os lados, a cruz é sinal do amor incondicional de Jesus pelo Pai (dimensão vertical) e pela humanidade (dimensão horizontal) e valiosíssima orientação para a vida Cristã: olhos fixos em Deus e pés fincados na realidade e nos problemas concretos dos mundos e das pessoas. Quem se propõe a ser discípulo de Cristo e abandona a intimidade com Deus ou o serviço à humanidade se descaracteriza, assim como a cruz  sem uma de suas hastes deixa de ser cruz, passando a ser apenas um pedaço de madeira.

Exaltar a Santa Cruz é reconhecer em Cristo nobre fruto da “Árvore da Vida”, que venceu as contradições, inconsistências e incoerências da humanidade expressas na queda de Adão e Eva quando se deixaram seduzir pelo sonho delirante de se tornarem deuses. Na contramão deste estéril delírio de grandeza, Deus escolhe se tornar humano para mostrar que no chão da realidade, no feijão com arroz, às vezes saboroso, outras, insosso até amargo, do dia a dia é que o ser humano pode e deve se divinizar, não pela via de uma autoexaltação narcísica, mas pelo caminho árduo e exigente de uma entrega por amor, à semelhança de Cristo na Cruz. Da autoexaltação à Exaltação da Santa Cruz.

Celebrar a cruz não deixa, portanto, de ser desconcertante e provocador. Num contexto social que preza pela competição acirrada, pelo acúmulo de bens, pela luta incansável em busca do sucesso, pelo individualismo, como transmitir e cultivar a virtude da humildade? Assim como o fora para os gregos, certamente a mensagem do Cristo Crucificado, preso ao madeiro, imóvel, limitado, suspenso entre o céu e a terra, soaria como loucura diante da promessa de “um ser humano sem limites e fronteiras apresentada por certa operadora de telefone celular… “Você, sem fronteiras”. Ou seria escandaloso, como para os judeus, a imagem de um ser humano humilhado e maltratado injustamente para um jovem que investe o melhor de seus esforços e energias com objetivo de se tornar o número um da empresa onde trabalha, num cargo que seria o sacramento inquestionável de seu sucesso. Que a celebração deste final de semana nos ajude, ao modo de Francisco, a sermos cada vez apaixonados pelo Mistério da Cruz.

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1ª Leitura: Nm 21,4b-9 / Sl 77 2ª Leitura: Fl 2,6-11 Evangelho: Jo  3,13-17

A vida nova vem de Jesus

13 Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu: o Filho do Homem. 14 Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, do mesmo modo é preciso que o Filho do Homem seja levantado. 15 Assim, todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna.»

* 16 «Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. 17 De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele.


* 9-15: A grande novidade que Deus tem para os homens está em Jesus, que vai revelar na cruz a vida nova. Aí ele demonstra o maior ato de amor: a doação de sua própria vida em favor dos homens.

* 16-21: Deus não quer que os homens se percam, nem sente prazer em condená-los. Ele manifesta todo o seu amor através de Jesus, para salvar e dar a vida a todos. Mas a presença de Jesus é incômoda, pois coloca o mundo dos homens em julgamento, provocando divisão e conflito, e exigindo decisão. De um lado, os que acreditam em Jesus e vivem o amor, continuando a palavra e a ação dele em favor da vida. De outro lado, os que não acreditam nele e não vivem o amor, mas permanecem fechados em seus próprios interesses e egoísmo, que geram opressão e exploração; por isso estes sempre escondem suas verdadeiras intenções: não se aproximam da luz.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

 

Exaltação da Santa Cruz

Pe. Johan Konings

Como a festa da Transfiguração, também a da Santa Cruz é intensamente celebrada na Igreja Oriental. Ambas as festas participam da mesma atmosfera: a presença da glória divina no sofrimento e morte de Jesus na cruz, mistério percebido com profunda sensibilidade pelos cristãos orientais e muito valioso também para nós. Tenha-se diante dos olhos os ícones ou crucifixos com o Cristo glorioso comuns na Igreja Oriental. A liturgia renovada deu a estas festas, juntamente com a da Epifania, um destaque especial, com vistas exatamente à comunhão com as Igrejas Orientais, que, além de significar a unidade, é também um grande enriquecimento para o Ocidente materialista e secularista.

A origem da festa remonta à dedicação das basílicas do Gólgota e do Santo Sepulcro construídas pelo imperador Constantino, em 13 de setembro de 335, sendo que no dia seguinte se mostrava os restos da Santa Cruz.

O fio central da liturgia de hoje é o simbolismo da elevação na cruz como elevação na glória, desenvolvido por João no evangelho (Jo 3,13-17; cf. tb. 12,32-33 e 19,37, lembrando Zc 19,37: "Contemplarão aquele que traspassaram"). A 1ª leitura vê este simbolismo prefigurado no episódio da serpente de bronze que Moisés levantou diante dos olhos dos hebreus para esconjurar a praga das serpentes (possivelmente lembrança de um antigo culto, cf. 2Rs 18,4).

O tema da elevação/exaltação, inspirado por Is 52,13 (o Servo Padecente, 4º cântico do Servo) preside também a 2ª leitura, sendo que aqui a exaltação é contrabalançada pelo rebaixamento (esvaziamento, quenose) no sofrimento infligido àquele que nem deveria considerar apropriação injusta à forma divina (Fl 2,6-11). Observe-se que neste maravilhoso texto o rebaixamento não é a encarnação na existência humana, mas a forma de servo/escravo em que essa encarnação é vivida por Jesus.

Olhando o conjunto dos textos somos levados a penetrar mais profundamente neste mistério, que constitui a intuição principal do evangelho de João: o dom da vida de Jesus, morrendo por amor fiel até a morte, na cruz, é a manifestação da glória, isto é, do ser de Deus que aparece: pois "Deus é amor" (1Jo 4,8-9), a tal ponto que Jesus, na hora de assumir a morte na cruz, pode dizer: "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14,9).

Mas essa manifestação da glória de Deus no amor de Cristo que dá sua vida por nós na cruz tem consequências práticas para nós: "Jesus deu a vida por nós; por isso nós também devemos dar a vida pelos irmãos" (1 Jo 3,16). Também o hino citado por Paulo na 2ª leitura está num contexto semelhante: Jesus esvaziado como escravo e exaltado como Senhor é o exemplo dos que se reúnem em seu nome, para que considerem os outros mais importantes que a si mesmos e tenham em si o mesmo pensar e sentir dele (2,1-5).

O canto da entrada lembra Gl 6,14: "Que eu me glorie somente na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo". As palavras seguintes, "o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (v. 15), alimentaram entre os cristãos de antigamente um desprezo pelo mundo. Não é, contudo, com desprezo da realidade terrestre que devemos olhar a cruz, mas como sinal de salvação. Para Paulo, para João, para nós, a cruz é sinal de salvação. Por isso, o mundo não tem mais o mesmo significado. Só conseguimos dar-lhe pleno valor na medida em que ele é marcado pela cruz de Cristo, o sinal da vida doada em amor até o fim.


A GLÓRIA NA CRUZ

No Brasil, "Terra da Santa Cruz", convém contemplar a cruz de Cristo. Não para recair no dolorismo de tempos idos, quando se pensava que quanto mais sofrimento, mais regalia no céu. E que Jesus teve de sofrer na cruz para "pagar" a Deus. A liturgia de hoje nos ensina a olhar para a cruz num outro sentido: como manifestação do próprio ser de Deus, que é amor. A cruz não é um instrumento de suplício que Deus aplica a seu filho (por nossa culpa), mas o sinal de quanto o Pai e o Filho nos amam - o Filho instruído pelo Pai ("obediente até a morte", 2ª leitura). Nada de sádica exigência de sangue, só amor até o fim (cf. Jo 13,1;19,28-30).

Ninguém jamais viu Deus (Jo 1,18). Portanto, não temos nenhuma razão para pensar que ele seja um Deus cobrador, castigador. O único retrato de Deus que temos é Jesus (Jo 1,18). Mas esse retrato só ficou pronto na hora em que Jesus ia dar sua vida pelos que o seguiam, os que acolhiam sua palavra, e pelos que através destes a iam acolher: na véspera da morte: "Quem me viu, tem visto (= tem diante dos olhos) o Pai" (Jo 14,9). Nestas poucas palavras resume-se toda a existência humana de Jesus, sua pregação ao povo e aos discípulos, seus gestos de amor e de libertação, coisas que ele não quis negar, como também não renegou seus amigos, na hora do perigo da morte. Amou até o fim (Jo 13,1) e por isso, rompendo com os poderes deste mundo e  vencendo-os pelo amor, morreu a morte dos escravos e rebeldes, na cruz.

 

Essa cruz é, portanto, o estandarte sobre o qual se eleva e se exibe ao mundo o próprio ser de Deus, seu amor que é sua glória. Ela atrai a si o olhar de todos que procuram a salvação (Jo 12,32-33). E assim como há uma relação entre o mal e o sinal de salvação para o qual levantam os olhos (cf. 1ª leitura, a serpente levantada), assim também enxergamos no Cristo elevado na cruz o mal do qual ele nos cura: o sofrimento que nosso desamor causa a ele e a todos nós. Aniquilado pelo pecado do mundo, ele mostra no seu corpo e sangue o infinito amor do Pai que nos quer salvar.

Contemplar a cruz não é afundar no dolorismo, mas reconhecer o amor de Deus que salva o mundo do desamor.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

 

 

Os que contemplam a cruz são tocados interiormente

Neste 14 de setembro comemoramos a bela festa da Exaltação da Santa Cruz do Senhor.  A liturgia do domingo acolhe as leituras da festa que quer colocar uma vez mais diante de nós a cruz do Senhor.

Bênçãos que jorram da cruz

Graças à cruz, não erramos mais na solidão, pois conhecemos o verdadeiro Caminho; graças à cruz, não estamos mais fora da morada, pois encontramos a Porta; graças à cruz, não tememos mais as brasas inflamadas do inimigo porque encontramos a Fonte; graças à cruz, a Igreja não vive mais na tristeza da viuvez, pois recebeu o Esposo; graças à cruz não temos mais medo do lobo predador, pois o Bom Pastor está conosco.  Eu sou, diz o Senhor, o Bom Pastor.

São João Crisóstomo
 

O perfume da cruz

         Quero sentir o perfume da tua cruz, como o ladrão que disse: Senhor, lembra-te de mim quando entrares em teu reino (Lc 23,42).  Será que este ladrão te viu restituir a vista aos cegos e ressuscitar os mortos?  Será que ele não te adorou? Mas, quando te vê suspenso no madeiro, ele te adora: Senhor lembra-te de mim quando entrares no teu reino. O que teus milagres não puderam fazer, a tua cruz fez. Ele te reconheceu com maior certeza e mais perfeitamente sobre a cruz do que na pregação e nos milagres. Ó poder da cruz, ó triunfo de crucificado! Desde que viu o madeiro, o homem reconheceu teu reino. Vendo-te crucificado, compreendeu que eras rei. Ó perfume da cruz, que dissipas as dúvidas! Senhor!  - exclama o ladrão, vendo com seus olhos o preço com que Deus o resgatou.

Das orações de Santo Anselmo

 

A vivificante cruz de Cristo

         Ó preciosíssimo dom da cruz! Vede o esplendor de sua forma.  Não mostra apenas uma imagem mesclada de bem e de mal, como aquela árvore do Paraíso, mas totalmente bela e magnífica para a vista e o paladar! É uma árvore que não gera a morte, mas a vida; que não difunde trevas, mas luz; que não expulsa do Paraíso, mas nele introduz. A esta árvore subiu Cristo com um rei que sobe no carro triunfal, e venceu o demônio detentor do poder da morte, para libertar o gênero humano da escravidão do tirano. Sobre esta árvore o Senhor, como um valente guerreiro, ferido durante o combate em suas mãos, nos pés e em seu lado divino, curou as chagas de nossos pecados, isto é, curou a nossa natureza ferida pela serpente venenosa.

São Teodoro  Estudita

 

 

"Contemplar o mistério da cruz e desejar o céu!" 

Exaltar é elevar, tornar sublime, glorificar! Em relação à cruz não é mais referência à dor, ao sofrimento, mas ao mistério nela escondido! A cruz tornou-se sinal de vitória com Jesus. Nela refulge o triunfo da libertação pascal. Ela é a prova máxima e insuperável do amor salvador de Deus que nos deu seu Filho para não nos condenar (João, 3,17). Ele nos fez passar da condição de pecado para a da graça. Porque nos amou em extremo Jesus foi nela suspenso e a tornou o horizonte luminoso da esperança humana. No altar da Eucaristia nosso olhar está posto na cruz de Cristo! Por isso, nos rituais católicos qualquer celebração religiosa: bênçãos, recepção dos sacramentos (batismo, crisma, confissão, comunhão, casamento, unção dos enfermos, matrimônio) tudo deve ser presidido pelo mistério da cruz. Na oração e nos atos bons nossos interpõe-se o merecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. O nosso coração fica plenificado ao dizer com São Paulo: “Nós devemos gloriar-nos na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual pendeu a salvação, a vida, a ressurreição” (Gl. 6,14).

Olhar para Ele! No dia litúrgico da Exaltação da Santa Cruz, que neste ano coincide com o 24º domingo do calendário Ano A, as três leituras bíblicas se entrelaçam e se explicam. O livro dos Números 21,4-9 relata o fato da serpente de bronze que erguida no alto do poste, foi o sinal do perdão de Deus ao povo ingrato e a cura para os mordidos por serpentes venenosas no deserto. Em João, 3, 13-17 Jesus relembra a passagem e a aplica a si mesmo. Paulo envia uma reflexão cristológica à comunidade de Filipos ensinando que a supremacia do nome de Jesus acima de tudo, vem de sua obediência a Deus até a morte e morte de cruz. O evangelho de João recria um diálogo entre Jesus e Nicodemos, membro da elite religiosa judaica. Os dois conversavam sobre a vida do Espírito de Deus em nós. Ela “vem do alto” e não dos ritos e práticas da lei mosaica, como pensava Nicodemos, perito nessa lei. Só Jesus, que veio de Deus, pode nos elevar até a vida divina. O episódio da serpente de bronze “exaltada” num poste prefigura na Antiga Aliança a salvação definitiva, fruto do amor misericordioso e infinito com o qual o crucificado selou no seu sangue a Nova Aliança.

Então, é necessário fixar nossos olhos no Cristo da cruz. Oferecer-lhe nosso coração arrependido para sermos curados de nossos pecados. Esta chance continua sendo oferecida a nós que cremos e perseveramos com o olhar fixo em Jesus Cristo (Hebreus, 12,2), conscientes das propostas e normas do seu Evangelho mesmo se peregrinos num mundo que zomba das leis de Deus. Sirva-nos de aviso: de um lado o castigo sofrido pelo povo bíblico que subestimou o dom da liberdade; e de outro lado, o amor de Jesus que se doou até o extremo de si mesmo. Às vezes, as mil seduções terrenas, o envolvimento com negócios, dinheiro, trabalho, profissão e diversões nos provocam com aceno de felicidades e prazeres. Ora, mesmo se legítimas é certo que as felicidades passageiras não nos asseguram uma vida espiritual elevada. Não nos elevam ao gozo do espírito, à liberdade interior, a excelência do amor. É necessário sempre “olhar para o alto”: contemplar o mistério da cruz e desejar o céu! A cruz é escada para chegar lá, com Ele, o crucificado!

No Calvário, sem dúvida, Maria não despregava seu olhar materno do Filho que agonizava. Tudo via, tudo acompanhava e com Ele sofria! O corpo machucado que pendia do madeiro fora gerado e formado no seu seio bendito desde o momento do FIAT: o “faça-se em mim segundo a sua Palavra”. Lá, era a Virgem das dores; hoje é para nós a Mãe da esperança.

Pe. Antonio Clayton Sant’Anna – CSsR

Diretor da Academia Marial

Fonte www.a12.com