UMA RELÍQUIA VIVA DESCIA DA MONTANHA

Francisco era “estigmatizável”  antes de ser estigmatizado

Nada mais natural que no mês de setembro  detenhamo-nos, neste retiro mensal, na festa solene da Estigmatização do Pai Francisco (17 de setembro). Ressoam aos nossos ouvidos as palavras de Paulo dirigidas aos cristãos da Galácia: “Que ninguém me moleste, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6, 17). Dois anos antes de seu trânsito que se daria nu na terra nua  Francisco quer viver uma quaresma em honra de São Miguel no esplendoroso quadro do Monte Alverne. Somos discípulos daquele que desce encantado e chagado do monte ao lado de seu  fiel frei Leão.

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Frei Almir Ribeiro Guimarães

freialmir@gmail.com


Oração Inicial

Vem, silêncio onde tudo é Deus.
Vem, Amor, Verdade e Humildade.
Vem, Misericordioso, Pai de ternura.
Vem e embala-nos em teus braços invisíveis.
Vem nos dar o beijo do perdão, 
por teu Filho 
na glória da vitória da Cruz.
Leva-nos para a  eternidade da Trindade
na esperança da vida em abundância.  

Amém

 

 

a) Na linha do desejo

• Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh’alma tem sede de vós, 
minha carne também vos deseja, 
como terra sedenta e sem água!  (Sl 63, 2)

• Assim  como a corça suspira 
pelas águas correntes, 
suspira igualmente minh’alma
por vós, ó meu Deus!
Minh’alma tem sede de Deus, 
e deseja o Deus vivo. 
Quando terei a alegria de ver 
a face de Deus?  (Sl  42, 2-3)

• É seguindo os caminhos dos teus desejos, 
que nós esperamos em ti, Senhor...
Anseio por ti durante a noite,  
do fundo do coração eu te procuro  (Is 26,8.9).

• A minh’alma anseia e tem saudades  
dos átrios do Senhor  
com todo o meu ser canto de alegria ao Deus vivo! (Sl  84,3).


b)  Texto franciscano


O fiel servo e ministro de Cristo, Francisco, dois anos antes de entregar a Deus o espírito, tendo iniciado, num lugar elevado e solitário chamado Monte Alverne, um jejum de 40 dias, em honra do arcanjo São Miguel, mais do que de costume  infundiu-se nele  a suavidade de elevada contemplação, e, inflamado de desejo mais ardente das coisas celestes, começou a perceber dons vindos do alto.  Enquanto, nos ardores de seráficos  desejos, arrebatava-se em Deus, certa manhã, nas proximidades da festa da Exaltação da Santa Cruz, rezando na encosta do monte, viu uma espécie de serafim, tendo seis asas tão fúlgidas quanto ígneas, do alto dos céus.  Com voo célere pelo ar, chegando perto do homem de Deus, apareceu não só alado, mas crucificado. Ao ver isto, admirou-se e um misto de alegria e de dor  encheu-lhe o espírito, enquanto sentia enorme alegria diante de Cristo  que lhe aparecia, em aspecto afável tão familiarmente, bem como a visão cruel da crucifixão atravessava-lhe a alma como uma espada de dor compassiva. A visão desapareceu, depois de misterioso  e familiar colóquio, e inflamou-o interiormente por seráfico ardor; marcou-lhe a carne externamente com uma efígie do Crucifixo, como se à força antecedente de liquefazer do fogo se seguisse a impressão de um sigilo. Logo, nas mãos e nos pés começaram a aparecer-lhe  os sinais dos cravos, as cabeças dos quais apareceram na parte inferior das mãos e na superior dos pés e suas pontas estavam em sentido contrário. Também o lado direito, como se fosse traspassado por uma lança, apresentava rubra cicatriz  que frequentemente vertia o sangue sagrado”  (De Stigmatibus  sacris, 1-4).

 

Um coração cheio de desejo

  1. Dispomo-nos a refletir sobre o conhecido episódio da estigmatização de Francisco  no alto do  Monte Alverne.  Começamos rezando salmos que falam do desejo e tomamos conhecimento dos fatos pela descrição de Boaventura. Francisco é homem do desejo.  Conhecemos seu encontro com o Evangelho da missão na igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos, cheio de entusiasmo e ardor. Quando se dá conta que sua vida será andar pelo mundo anunciando a Boa Nova, exclama: “É isso que quero, que busco, que desejo de todo o coração”. O desejo enche sua alma, desejo de colocar em prática o Evangelho, desejo de estar com Cristo, desejo que o Espírito continue visitando-o. Os biógrafos insistem em dizer que tudo o que  Francisco ouve tem necessidade, desejo de colocar em prática  imediatamente.  Desejo se casa bem com ardor, fogo. Não foi sem razão que o santo é conhecido como o seráfico. Saraph em hebraico quer dizer queimar.  A impetuosidade do desejo é a marca de sua vida. Desde a juventude  sua cabeça está cheia  de sonhos que busca concretizar. Aos poucos seus desejos vão sendo purificados. Passa a buscar não o servo, mas o Senhor, nas as glórias da guerra, do sucesso e do êxito, mas o Senhor marcadamente pobre. Quando se sentiu impelido a abraçar os leprosos vai experimentar uma reorientação radical  de seus desejos.   O amargo fica doce e o doce, amargo. Intensifica-se o ardor amoroso pelo Cristo que o seduz. Começa um processo de identificação do amigo com o Amigo. 

     
  2. A Escritura nos fala de não poucos personagens marcados pelo desejo: Elias, João Batista, zelosos e ardorosos, e o próprio Cristo, possuído de zelo pela causa do Pai. Os místicos afirmam que o desejo está na base da santidade. Ninguém se torna santo pela repetição da mesmice. Num incêndio de amor é que Francisco se consuma no momento da estigmatização. No final de sua vida todas as suas faculdades estão orientadas  para  Deus,  o Santo, o único que opera maravilhas, o Bom e o Bem, o Forte o todo poderoso. Francisco foi o homem do desejo de Deus, do desejo de se ligar visceralmente ao Cristo pobre e sofredor até o momento em que deita nu na terra dura e nua.
     
  3. O ardor e viço do desejo se opõem a uma vida marcada pela tibieza.   Frei José  Rodriguez Carballo, ex-Ministro Geral da OFM, pedia que os frades voltassem ao vigor da paixão: “Se hoje como ontem é urgente conhecer melhor o homem Jesus, reconhecido como Cristo e confessado como Senhor, não temos outro caminho para chegar a esse objetivo senão tomar nas mãos o livro das Escrituras, abrir-lhe as portas do coração e oferecer escuta e acolhida  à Palavra. Se nosso coração arde de desejo de sair da insignificância e prostração  de nossos cotidianos fracassos não temos outro caminho senão deixar-nos possuir pela Palavra e lhe dar amplo espaço em nossa vida. Ser possuído pela Palavra ou por Cristo é a mesma coisa. Se quisermos recriar e refundar nossa vida e missão, não nos resta   outra saída  senão abrir espaço à Palavra, relê-la, estuda-la meditá-la acolhê-la num coração vazio e pobre, sussurrá-la dia e noite, para então vivê-la e celebrá-la” (Guiados pela Palavra. Mendicantes de sentido, n.20).

 

Sentido dos estigmas de Francisco

  • Bernard  Forthomme, frade menor francês, escreveu um pequeno e precioso livro sobre os estigmas. Não tenta dar explicações. A partir da fé vê que um ser interiormente possuído por Deus poderia ter os sinais da paixão do Senhor. Fala da redescoberta do corpo nos primeiros  anos do século XIII e do empenho de Francisco em ver, escutar, tocar, os mistérios de Cristo. Antes de Francisco não se tem notícia de pessoas que tivessem os estigmas no corpo. O corpo não  gozava de muito prestígio. Nem mesmo se demonstrava muita consideração para o corpo sacramental de Cristo na Eucaristia. A festa de Corpus Christi não existia antes de 1264. As hóstias consagradas após a celebração da eucaristia não eram tratadas com especial atenção. Na quinta-feira santa se falava mais da traição de Judas do que do Corpo de Cristo. Os fiéis se precipitavam  em massa para venerar as relíquias sem fazer reverência diante do tabernáculo, palavra que foi introduzida no tempo do nascimento de Francisco.  Ele manifesta esses desejo de “ver, ouvir e tocar” o Verbo de Deus. Pede que se faça um presépio vivo. Não bastava a palavra de Deus no decorrer da celebração. A palavra se encarnou em Francisco.  Seu corpo fala, fala do amor de Deus. 
     
  • A experiência do corpo Francisco viveu no contato e no cuidado dos leprosos, nesses marginalizados da sociedade. O Poverello não conseguia esconder sua repugnância por esses seres fétidos. Vai ter com eles, lava-os com suas mãos esses seres que carregam o  “estigma” da lepra. Unindo-se aos leprosos cegos, e paralíticos, pessoas incapazes de ganhar a vida Francisco se estigmatiza socialmente. Forthomme tem uma expressão muito feliz: “Francisco é estigmatizável antes de ser estigmatizado. O aparecimento das chagas no corpo do Poverello teve um cortejo de preparações de um homem que uniu o Cristo ao corpo, ao palpável, aos corpos destroçados dos leprosos.

 

A oração de Francisco

Nesta altura de nossas reflexões deste retiro convém meditar numa súplica de Francisco conservada no livro das Considerações sobre o  Estigmas. Um dia teria formulado uma oração neste teor: “Senhor, gostaria de ser digno de receber duas graças de vossa parte: experimentar em meu coração o amor que tiveste para com os homens e sentir a dor de tua acerbíssima paixão”. O amado procura o Amante. O santo vinha do Oriente, cansado, doente, constatando que seus irmãos pareciam esquecer a beleza do seguimento radical do Cristo. Perdiam o ardor dos começos. Sem amargura, Francisco sente vontade de tomar certa distância dos fatos e dos acontecimentos. O santo já tinha dores em todo o corpo. Estava tomado de febres loucas e quase não enxergava. Não podia mais suportar a luminosidade do Irmão Sol. E este homem que sobe até o Alverne.  Francisco suplica amor e dor. Quer experimentar o amor do Senhor e se associar a seus sofrimentos. Durante anos, após sua conversão, ele foi tentando viver a intimidade nas grutas, nos caminhos, nos leprosos, nas igrejinhas abandonadas. Foi tendo “os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Foi se abrasando no amor de Cristo. Foi refazendo em si os mistérios de Cristo.

 

Francisco não é mais dono de si

Bernard Forthomme, de maneira poética e forte, afirma que os estigmas são expressão do despojamento, da “não posse”. “Aquele que tem as mãos estigmatizadas não pode mais apropriar-se, agarrar pessoas ou coisas. Aquele cujos pés estão estigmatizados não têm mais condições de caminhar pela vida como conquistador e dominador. Aquele cujo lado foi tocado não consegue reter seus dons na caixa toráxica, nem mesmo seus ressentimentos e amargos remorsos. O pássaro da liberdade acha uma porta para voar na direção de montanhas e vales. O homem que mesmo em sua carne se considera  diferente do proprietário passa a distribuir seus bens e até mesmo a natureza encontra seu esplendor inédito, sua fraternidade originária  como o ardor divino que a provoca”. Deve-se ler e meditar os Louvores a Deus que Francisco compôs no Alverne e confiou a  Frei  Leão.

 

Os estigmas são uma forma de pregação

Os estigmas constituem uma pregação que se faz quando os lábios emudecem. Os estigmas são um foco para a palavra do silêncio, aquela que se submete a toda criatura para ser melhor ouvida. Os estigmas são os lábios e as pálpebras da carne que revelam e contemplam as profundezas quando tudo se cala, quando o meio ambiente ordena que se calar e fechar os olhos, onde reina o cegamento e não somente a cegueira. “Quando o contencioso com os frades torna-se mais forte, quando o destino da Fraternidade franciscana  parece incerta, quando o Evangelho corre o risco de ser uma utopia senão um sonho generoso, então, Francisco, o homem novo, decide subir o monte Alverne e ai viver uma reforçada solidão. No silêncio da troca misteriosa  há, face a face,  troca de sofrimentos do  amigo  com o Amigo. Nada mais podemos dizer, mas levar estas coisas para o fundo do coração e meditar a respeito delas”. Francisco não é mais dono de si. Aos poucos, ao longo dos anos de sua vida,  ele foi se despedindo de si mesmo, esvaziando-se e no espaço do vazio veio o êxtase. O amado ganha a força do Amor do Amante. Como ninguém e como nunca, Francisco podia dizer como Paulo: “Já não sou eu que  vivo é Cristo que vive em mim”.  Paul Claudel, num de seus poemas consagrados ao Poverello, evocou com rara felicidade essa não posse de si mesmo de Francisco: “Francisco tinha dado sua alma de tal forma  que nem mesmo seu corpo conserva mais.  Em vão pedir-se-lhe-ia uma explicação: nada mais tem a nos dizer. Ele é propriedade de alguém que não explica, mas plenifica. É todo inteiro doação, como um esposo ou um recém-nascido. Caminha na visão de todos os homens como alguém que está inebriado, como um esposo que geme e que sorri, cambaleante e ferido de uma glória da qual ele é o inexplicável consorte.  Quem desce trôpego do Alverne e mostra chaga e cicatriz secretamente a Clara é  Jesus com Francisco, fazendo uma única realidade, viva, sofredora e redentora” (cf.  Éloi  Leclerc,  Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, Vozes, p.  109).

         Nada mais é necessário dizer. O homem de Assis percorreu os caminhos do mundo fascinado pelo  Cristo pobre  ajustando as batidas do seu coração com aquelas de seu Coração.  Francisco místico e transfigurado desce trôpego os caminhos do Alverne rumo a Assis.  Mas carrega imagem do Amado.  Isso é tudo. Isso basta. Quer recomeçar porque até aquele momento nada havia feito ou muito pouco.

 

 

Pobreza franciscana

         A pobreza franciscana não é uma maneira de contestar o sistema da sociedade, nem uma estratégia apostólica, nem mesmo um ato de ascetismo. É antes de tudo um modo de andar na sequela de Cristo. É o caminho do Filho que nos revela a grandeza da altíssima pobreza. A primeira motivação do amor de Francisco pela Senhora pobreza é seu desejo de seguir o Cristo. A alma da pobreza franciscana é o amor, a imperiosa necessidade de se identificar com aquele que ele ama. Sua pobreza brota do amor que leva ao amor. Ele repete constantes vezes a seus irmãos envergonhados de pedir esmolas: “Bem amados irmãos,  o Filho de Deus era mais nobre do que nós, por nós se fez pobre neste mundo. Por amor por ele escolhemos o caminho da pobreza” (2Celano  74).  (Michel Hubaut,  Chemins d’intériorité avec saint François, p. 188).

 

Oração final

Senhor,
impõe silêncio à  minha oração
Envolve-me, Senhor, na riqueza divina 
de teu silêncio, 
plenitude capaz 
de tudo  preencher em minha alma.
Faze com que se cale em mim tudo o que não seja Tu, 
o que não for tua presença 
toda pura, toda solitária, toda pacificadora.
Impõe silêncio aos meus desejos, 
a meus caprichos, a meus sonhos de evasão, 
à violência de minhas paixões.
Cobre com teu silêncio a voz 
de minhas reivindicações, de minhas queixas. 
Impregna com teu silêncio 
minha natureza  tão impaciente 
querendo sempre falar, inclinada  à ação exterior e ruidosa.
Impõe mesmo teu silêncio 
à minha oração, para que ela  seja puro elã  para Ti.
Faze descer teu silêncio 
até o fundo de meu ser e faze com que esse silêncio
suba até a Ti, como homenagem de amor.

 


Textos:

1.Bernard Forthomme,OFM - Par excès  d’amour - Les stigmates de François d’Assise - Éditions Franciscaines, Paris  2004,  30 páginas

2. François Fine, OFM -“Les stigmes” In Évangile  Aujourd’hui,  n. 116  (2007), p. 29-40