O CarismaNotícias › 16/02/2016

Três hábitos estranhos na celebração eucarística

 habito

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Estamos verificando alguns hábitos ou costumes na Liturgia da Missa que são difíceis de superar; alguns restaram como cacoetes do passado. É difícil tirar cacoetes.

  1. O hábito: – O primeiro destes costumes (hábitos) é o próprio hábito, aqui no sentido de veste, de costume. Explico-me. Para entender o que pretendo “expor” sem “impor” é importante adentrar na linguagem simbólica de toda a Liturgia, em que elementos, gestos, espaços, sons (música e canto) como as próprias vestes ajudam a evocar ou fazer memória dos mistérios celebrados. Têm, portanto, caráter sacramental. São ritos simbólicos linguagem dos mistérios celebrados. Não se trata, pois, de “pode ou não pode”, mas de exercer o que convém, de encontrar o sentido dos símbolos e dos ritos simbólicos, linguagem dos mistérios celebrados.

Voltemos ao hábito nas celebrações, sobretudo, da Missa. As vestes litúrgicas hoje em dia são chamadas de vestes sagradas. Assim elas são chamadas pelo Concílio Vaticano II: “Por isso a Santa Igreja sempre foi amiga das belas-artes. Procurou continuamente o seu nobre ministério e instruiu os artífices, principalmente para que os objetos pertencentes ao culto divino fossem dignos, decentes e belos, sinais e símbolos das coisas do alto” (SC 122b). Dizendo que a Igreja respeita a liberdade artística controlada pela sua finalidade, a Sacrosanctum Concilium afirma: “Cuidem os Ordinários que, promovendo e incentivando a arte verdadeiramente sacra, visem antes a sóbria beleza que a mera suntuosidade. O que se há de entender também das vestes sacras e dos ornamentos” (SC 124a).

Depois, temos orientações claras e seguras na Instrução Geral do Missal Romano. Ao tratar dos Requisitos para a Celebração da Missa a Instrução Geral do Missa Romano, Capítulo VI, Parágrafo IV, fala das Vestes Sagradas: “A alva é a veste sagrada comum a todos os ministros ordenados e instituídos de qualquer grau; ela será cingida à cintura pelo cíngulo, a não ser que o seu feitio o dispense. … A alva não poderá ser substituída pela sobrepeliz, nem sobre a veste talar, quando se deve usar casula ou dalmática, ou quando, de acordo com as normas, se usa apenas a estola sem a casula ou dalmática” (n. 336). Fala, em seguida, da veste do sacerdote celebrante: “A não ser que se disponha de outro modo, a veste própria do sacerdote celebrante, tanto na Missa como em outras ações sagradas em conexão direta com ela, é a casula ou planeta sobre a alva e a estola” (n. 337). Notemos que a CNBB, na XII Assembleia Geral – 1971 aprovou a substituição do conjunto alva e casula por túnica ampla, de cor neutra, com estola da cor do tempo ou da festa. Esta orientação recebeu a aprovação da Sé Apostólica. Existe, porém, uma recomendação. Que a veste tradicional com alva e casula não sejam abandonada, mas, pelo contrário seja normalmente usada nas Missas da Comunidade nas catedrais e igrejas paroquiais.

Como fica na Concelebração? “Os concelebrantes vestem, na secretaria ou noutro lugar adequado, os paramentos que usam normalmente ao celebrarem a Missa. Se houver motivo justo, como, por exemplo, grande número de concelebrantes e escassez de paramentos, podem os concelebrantes, exceto sempre o celebrante principal, dispensar a casula ou planeta, e usar apenas a estola sobre a alva!” (n. 209).

O documento da Congregação do Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos Redemptionis Sacramentum sobre alguns aspectos que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia é bastante incisivo ao tratar das vestes sagradas ou litúrgicas. Recordando o que diz a Instrução Geral do Missa Romano, retoma o que nela se diz:

“As diferentes cores das vestes litúrgicas visam manifestar, inclusive externamente, o caráter dos mistérios da fé que são celebrados e também a consciência de uma vida cristã que progride com o desenrolar do ano litúrgico”. Na realidade, a diversidade “das tarefas na celebração da sagrada liturgia se manifesta exteriormente pela diferença das vestes sagradas. Convém que as vestes sagradas contribuam para a beleza da ação sagrada” (n. 121).

No número 126 insiste-se sobre o uso das vestes sagradas: “É reprovável o abuso segundo o qual os ministros sagrados – inclusive quando participa um só ministro – celebram a santa Missa, contrariando as prescrições dos livros litúrgicos, sem as vestes sagradas ou somente com a estola sobre a cogula monástica ou o hábito religioso ou uma roupa comum. Os Ordinários providenciem para que tais abusos sejam corrigidos quanto antes e para que em todas as igrejas e oratórios sob sua jurisdição haja um suficiente número de vestes litúrgicas confeccionadas segundo as normas”.

Voltemos ao simbolismo das vestes. Na Bíblia elas invocam e indicam o sagrado. Pensemos nas vestes de Jesus na montanha da transfiguração (cf, Mt 17,2), a exigência das vestes para participar do banquete nupcial messiânico, (cf. Mt 22,11-13), o revestir-se de Cristo segundo São Paulo, onde a veste simboliza o próprio Cristo (Cf. Rm 13,14; Gl 3,27; Cl 3,9-11).

Ora, a veste branca é, por excelência, a veste sacerdote. Os mártires alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,9;7,14;3,5). A veste branca do Batismo, a cor branca da Primeira Comunhão, mesmo o vestido de noiva com a grinalda. Por trás desta linguagem da veste branca está a dignidade sacerdotal do cristão. Nesta linha se prevê que o altar seja revestido ao menos por uma toalha de cor branca. Por que? Porque o altar é Cristo, Cristo é o sacerdote.

O sacerdote celebrante exerce a função de Cristo sacerdote. Daí, sua veste própria é a alva, túnica de cor branca. Quanto à túnica ampla também se prevê que seja de cor neutra, onde o branco domine. O sacerdote celebrante apresenta-se revestido de Cristo.

Considero que aquilo que o santuário, a igreja-edifício significa para a assembleia reunida, como que a veste que a envolve, a assembleia envolta em Deus, os paramentos, sobretudo, a alva significam para o sacerdote celebrante. Ele se reveste de Cristo, age “in persona Christi”.

De tudo isso decorre que “o hábito não é veste litúrgica”. Ele é “habito”, veste ordinária, é “costume”, veste a ser usada costumeiramente. A mensagem do hábito é diferente da mensagem da alva do sacerdote celebrante. O hábito expressa o carisma, a espiritualidade do Fundador da Ordem ao passo que a alva faz memória do Cristo sacerdote. Colocar uma casula verde, por exemplo, sobre o hábito parece algo um tanto grotesco, para não dizer carnavalesco! As coisas não combinam. 

  1. Concelebração

Com a reforma do rito da Missa após o Concílio Vaticano II já não existe mais a categoria de Missa solene, Missa cantada e Missa rezada. Existe sim uma Missa mais ou menos festiva. E, entre as várias formas de Missa conforme a Instrução Geral do Missal Roma encontra-se a “Missa concelebrada”.

A Missa concelebrada exige um espaço adequado para a celebração. Quanto à cadeira da presidência devemos observar um pormenor: A presidência é uma só, mesmo nas Missas concelebradas. Por isso, haverá uma só cadeira da presidência no presbitério. A prática de se colocarem três cadeiras na presidência parece um resquício da Missa solene antiga: o sacerdote celebrante, o diácono e o subdiácono. Não existem mais os assistentes do celebrante principal. Se há assistentes são os diáconos, sobretudo, na celebração presidida pelo bispo. Um ou dois diáconos. Suas cadeiras podem ser colocadas em nível inferior junto à cadeira da presidência. Mas, os sacerdotes ou bispos concelebrantes não são assistentes do presidente da assembleia. Eles terão cadeiras devidamente colocadas, possivelmente, no presbitério conforme o espaço disponível. Aqueles que concelebram deverão estar revestidos das devidas vestes sagradas. É estranho o costume de se designarem três sacerdotes na presidência, em geral, revestidos de casula, enquanto os demais sacerdotes não se distinguem como celebrantes através das vestes respectivas, do lugar que ocupam e dos gestos e palavras que são convidados a realizarem.

Se o único presidente – não existe presidência colegiada – estiver ladeado de diácono é este quem eleva o cálice na doxologia final da Oração eucarística. Se não houver diácono, é o próprio celebrante principal que o faz e não algum concelebrante. Deve ficar claro quem realmente está concelebrando. São os que estão devidamente revestidos das vestes sagradas e não simplesmente de hábito ou cogula e estola.

  1. Segurar o microfone

O braço do sacerdote celebrante não é suporte de microfone. Sói acontecer que ele segura o microfone com uma das mãos e eleva a outra em posição de oração presidencial. Pior ainda na apresentação das sagradas espécies na hora da consagração, na doxologia final da Oração eucarística e na apresentação da hóstia e do cálice na hora da Comunhão. Coisa horrorosa! Quebra toda a estética, toda a arte, toda a beleza do rito como também a devoção. Os gestos e os ritos como tais constituem formas de comunicação com Deus, são expressões orantes.

Falando do altar, diz a Instrução Geral:

“Além disso, se disponham de modo discreto os aparelhos que possam ajudar a amplificar a voz do sacerdote” (n. 306).

Ainda não se encontraram boas soluções para o uso do microfone, sobretudo, para o sacerdote celebrante. A melhor solução até agora parece ser a do microfone de lapela, melhor, sem fio. Aquele com braço ou pedestal à cadeira do sacerdote presidente parece também boa solução. Assim também o do ambão, para as leituras. Mas o microfone sobre o altar continua o grande desafio. Na Itália, na Alemanha e na Suécia encontrei um microfone chatinho, tipo mouse de computador, que, colocado discretamente sobre o altar, funciona muito bem. Isso sem fio! Por ora, entre nós, parece que devamos lançar mão de um ministério do microfone. Um acólito que segure, oportunamente, o microfone. O que não pode, por constituir ruído demais na autenticidade e beleza do rito, é o próprio celebrante segurar com uma mão o microfone; isso acontece até na Oração Eucarística, distorcendo os diversos gestos e ações, às palavras da narração da Instituição da Eucaristia ou da Consagração. Estraga tudo! É ruído demais! Destrói-se o clima orante.

Na Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis o papa Bento XVI fala da arte da celebração (n. 28), bem como da beleza e Liturgia (n. 35). Importa cultivar a arte de bem celebrar. “A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. A beleza da liturgia pertence a esse mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma constitui o céu que desce à terra. O memorial do sacrifício redentor traz em si mesmo os traços daquela beleza de Jesus testemunhada por Pedro, Tiago e João, quando o Mestre, a caminho de Jerusalém, quis transfigurar-se diante deles (cf. Mc 9,2). Concluindo, a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isso nos há de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à ação litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza” (n. 35).


Frei Alberto Beckhäuser, OFM, é natural de Forquilhinha (SC). Doutorado em Teologia com especialização em Liturgia, desde 1967 acompanha de perto a grande caminhada pós-conciliar da reforma e  da renovação litúrgica no Brasil, da qual se tornou um dos protagonistas. Frei Alberto continua a escrever, a dar cursos e palestras e a lecionar Liturgia em várias Escolas Teológicas, particularmente no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis (RJ).