Vida CristãNotícias › 08/03/2016

“Comunicação litúrgica”, novo texto de Frei Alberto

criacao

Frei Alberto Beckhäuser

Para se compreender o que é a comunicação litúrgica importa penetrar na noção de comunicação. O que é comunicação? Não é mera informação ou simples relação com alguém.

Comunicação, como a comunhão, não vem de comum união, mas de comum múnus, de múnus comum. Múnus significa função, ofício, tarefa. Comunhão não é mera união ou justaposição, mas é intercomunhão solidária, recíproca. Duas realidades, duas pessoas tornam-se um só. É dois em um ou um em dois, sem que cada um perca a sua identidade.

Na Liturgia é Deus que se comunica ao ser humano e o ser humano entra em comunhão com Deus. A maior comunicação entre Deus e o ser humano se deu em Cristo Jesus, no mistério da Encarnação.

Na ação litúrgica, por Cristo e em Cristo, Deus continua a entrar em comunhão com o ser humano, continua a encarnar-se no mundo e nos seres humanos.

Esta comunicação divina com o ser humano realiza-se na Liturgia através de sinais sensíveis e significativos da comunicação de Deus com a humanidade em Cristo Jesus, quando a Igreja celebra a comunicação de Deus realizada na História por Cristo e em Cristo. Comunicação litúrgica é entrar em comunhão com o mistério, é entrar em comunhão com Deus.

Outra coisa é a arte da comunicação na Liturgia. Ela certamente é importante, mas não deve ser confundida com a comunicação litúrgica.

A arte da comunicação torna os sinais sensíveis da comunicação de Deus mais significativos. Cada rito bem executado e vivido no seu sentido torna-se comunicação com Deus, torna-se oração, experiência de comunhão com Deus.

Participar é tomar parte. Tomar parte de quê? Da vida de Deus; é compor o mistério. A participação da Liturgia consiste em entrar em comunhão com o mistério, tomar parte da vida de Deus. Cristo em nós se torna esperança da glória, da comunhão eterna com Deus.

Esta participação não se dá só através da palavra, do canto. Dá-se através de todas as faculdades e sentidos do ser humano. Dá-se através do ouvido, da vista, do olfato, do paladar, do tato, dos gestos, das ações, das posturas do corpo, dos movimentos, da arte da cor, da arte do som e do silêncio.

A linguagem da Liturgia engloba o ser humano em sua totalidade. Ele reza, ele se comunica com Deus em sua totalidade, ou seja, de alma e corpo. Deus, por sua vez, atinge o ser humano no seu todo. A Liturgia é antes de tudo obra de Deus que santifica o ser humano, o assume em si mesmo e o leva a glorificá-lo, na glorificação do Pai, realizada por Cristo Jesus.

Comunicação litúrgica é antes de tudo deixar que Deus entre em comunhão com a gente, deixar que Deus nos envolva em sua vida e no seu amor. Comunicação litúrgica é deixar-se possuir por Deus, deixar-se divinizar. O ativo concentra-se, sobretudo, na atitude receptiva de acolhimento do Dom de Deus. Por isso, não há necessidade de violência, como se acordássemos Deus e fizéssemos Deus agir através das muitas palavras. A linguagem do silêncio é, muitas vezes, bem mais ativa do que muito som.


  Frei Alberto Beckhäuser, OFM, é natural de Forquilhinha (SC). Doutorado em Teologia com especialização em Liturgia, desde 1967 acompanha de perto a grande caminhada pós-conciliar da reforma e  da renovação litúrgica no Brasil, da qual se tornou um dos protagonistas. Frei Alberto continua a escrever, a dar cursos e palestras e a lecionar Liturgia em várias Escolas Teológicas, particularmente no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis (RJ).

 

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