Vida CristãArtigos › 01/04/2016

Assembleia celebrante não é show ou espetáculo

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Frei Alberto Beckhäuser, OFM

O que significa participação da Liturgia? Participar, como sabemos, é tomar parte. Participar da Liturgia significa tomar parte, ter parte da Obra de Deus da Salvação.

O Concílio Vaticano II, no Documento sobre a Sagrada Liturgia, chamado Sacrosanctum Concilium, diz que o povo de Deus, todo ele povo sacerdotal, real e profético tem o dever e o direito de participar de maneira consciente, ativa e plena da Sagrada Liturgia (Cf. SC 14).

O objetivo dessa participação é a participação eficaz ou frutuosa. Esta participação frutuosa ou eficaz consiste na realização da comunicação com Deus, na vivência do mistério celebrado.

Então, para que possa haver participação frutuosa é necessário, em primeiro lugar, que ela seja consciente. O povo, os fiéis saibam o que celebram. Isso é função da Catequese, da formação cristã e da iniciação à vida litúrgica.

Depois, esta participação deverá ser ativa. A assembleia e cada membro da assembleia participam ativamente não só falando e cantando. Participação ativa não é apenas participação oral ou através da palavra, mas através de todas as faculdades e sentidos. Assim, a participação pode ser também através da escuta, ouvindo a palavra de Deus ou acompanhando, em silêncio, as orações. Entra-se em comunhão com o mistério celebrando através da vista, contemplando os gestos, os movimentos, os objetos e o próprio espaço de celebração. Reza-se também pelo olfato e pelo paladar. O rito litúrgico faz uso também do sentido do tato. Acolhe-se o mistério no silêncio profundo da mente e do coração.

Claro que o meio ou a linguagem mais usada na Liturgia é a palavra, seja ela a Palavra de Deus ou a palavra da Igreja. A palavra da Igreja se dá através das orações, dos diálogos, das aclamações, das fórmulas sacramentais, das bênçãos, das ladainhas, das preces. Os textos podem ser recitados, proclamados ou cantados.

Importa, porém, cantar os textos litúrgicos, pelos quais se comemoram os mistérios celebrados e não qualquer coisa em qualquer lugar. O grupo de cantores faz parte da assembleia, toda ela celebrante. Ele ajuda toda a assembléia a cantar. Canta com a assembleia e não para a assembleia.

Sendo a participação ativa tão ampla, é totalmente contra o espírito da Sagrada Liturgia transformar a assembleia celebrante em plateia de show ou de espetáculo.

Convém que na Liturgia da Missa, sobretudo, nos domingos e festas solenes, haja canto. Mas, é preciso cantar a Missa e não na Missa. Pode-se cantar maior ou menor número de textos.

Pode, pois, haver três níveis ou graus de Missa com canto.

O primeiro nível de Missa cantada é o diálogo cantado entre o Sacerdote presidente ou os ministros e a assembleia. O segundo grau ou nível de Missa cantada é o primeiro, mais as partes que são cantadas por todos, chamadas partes Comuns da Missa, como o Senhor, o Glória, o Creio, o Santo e o Cordeiro de Deus. Só depois vem o terceiro grau de Missa cantada: o primeiro, o segundo e as partes próprias de cada Missa, dos Domingos e dos Tempos litúrgicos, como o Canto da Entrada, das Oferendas e da Comunhão.

Muita coisa terá que ser feito ainda para que isso aconteça e haja uma participação consciente, ativa e plena da Sagrada Liturgia, para que haja uma participação frutuosa ou eficaz. Eis a função da Catequese, de toda a Pastoral litúrgica, incluindo a formação musical dos seminaristas, dos sacerdotes e de todo o povo fiel.


Frei Alberto Beckhäuser, OFM, é natural de Forquilhinha (SC). Doutorado em Teologia com especialização em Liturgia, desde 1967 acompanha de perto a grande caminhada pós-conciliar da reforma e  da renovação litúrgica no Brasil, da qual se tornou um dos protagonistas. Frei Alberto continua a escrever, a dar cursos e palestras e a lecionar Liturgia em várias Escolas Teológicas, particularmente no Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis (RJ).

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