A reformulação da relação entre a vida e a regra franciscana

rossato-450Noeli Dutra Rossatto é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Imaculada Conceição – FAFIMC e em Teologia pela Escola do Evangelho Diocese de Goiás. Tem especialização em História Geral pela Fundação Brasileira de Educação – FUBRAE, mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM e doutorado em História da Filosofia (Medieval) pela Universidade de Barcelona – UB, na Espanha. Atualmente é coordenador e professor do Departamento de Filosofia da UFSM, atuando nos cursos de graduação e pós-graduação. Entre suas publicações destacam-se La hermenéutica medieval: un estudio desde Joaquín de Fiore (Saarbrucken: Lap Lambert Academic Publishing-Eae, 2011), Joaquim de Fiore: Trindade e Nova Era (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e El círculo trinitario: la construcción del conocimiento y la historia en Joaquín de Fiore (Barcelona: Publicacions Universitat de Barcelona, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem foi Joaquim de Fiore?

Noeli Dutra Rossatto - Joaquim de Fiore (1135-1202) foi um monge cisterciense [1] que viveu na Calábria (San Giovanni in Fiore, Itália) da segunda metade do século XII. Desde cedo, o já abade [2] da então poderosa ordem monástica medieval vai alimentar a fama de profeta. Antes de escrever sua obra, será convidado pelo próprio Papa Lúcio III para interpretar um obscuro texto profético, que talvez seja um oráculo sibilino [3]. Pouco depois, em um episódio mais conhecido, terá um encontro com o monarca Ricardo Coração de Leão [4], desejoso de saber sobre o êxito da Quarta Cruzada [5]. E é com o intuito de escrever sua obra profética, mediante um novo método de interpretar as escrituras bíblicas, que Joaquim pede e recebe a autorização sucessiva de três papas. O mesmo Papa Lúcio III, bastante impressionado com a originalidade de seu método, concede-lhe a autorização para escrever (licentia scribendi) sua obra, a qual será renovada por outros dois papas — Urbano III em 1186 eClemente III em 1188. Os principais textos por ele escritos são: O saltério de dez cordas, em que trata a teoria trinitária; A concórdia entre o Novo e o Antigo Testamento, que traz sua hermenêutica por concórdia; A exposição ao Apocalipse, em que aplica sua hermenêutica à história. No final da Idade Média Joaquim figura na Divina comédia deDante Alighieri como o “calabrese abate Giovacchino, di spirito profetico dotato” (Paraíso, XII, 140-41). Entre 1519 e 1527, sua obra será editada em Veneza, juntamente com outros textos proféticos. A historiografia mais recente vai discutir a ortodoxia ou heterodoxia de seus escritos, bem como a sua posteridade espiritual.

joaquimIHU On-Line – Em qual contexto se dá a fundação do movimento heterodoxo cujos seguidores eram chamados joaquimitas?

Noeli Dutra Rossatto - Apesar de Joaquim de Fiore, ainda em vida, romper com a ordem cisterciense, fundando a ordem florense[6], por entender que aquela se havia desviado da verdadeira vida monástica, não será daí que provém a marca da heterodoxia. Dois episódios parecem ter determinado a associação de sua doutrina com os movimentos heterodoxos. O primeiro é a condenação da teoria trinitária no IV Concílio Lateranense de 1215 [7], logo depois de sua morte. O papa já não era mais um monge, nem um cisterciense como Lúcio III, mas um jovem conde italiano (Lotário de Segni), que adotou o nome de Inocêncio III. Além disso, o novo papa era um representante da escolástica [8] , que tivera entre seus mestresPedro Lombardo. E é justamente a doutrina trinitária, contida no Livro das sentenças de Lombardo, depois transformado numa espécie de catecismo da escolástica, o motivo da condenação de sua doutrina trinitária por triteísmo. O abade havia acusado o magister de ter incidido na heresia quaternarista. O que estava em jogo aqui não é só a condenação de uma doutrina trinitária, mas a própria rejeição do antigo modo de vida monástico, que aos poucos dará lugar ao novo modus vivendi da escolástica.

O segundo episódio já envolve os franciscanos. Estamos próximos ao ano 1260, que é um ano paradigmático para os joaquimitas, especialmente para os espirituais franciscanos. Trata-se da condenação de um livro, a Introdução ao Evangelho eterno, e de seu autor, o jovem estudante da Universidade de Paris Geraldo de Borgo, por uma Comissão eclesiástica reunida por dois anos em Anagni (de 1255-56). Após analisar o texto de Geraldo e a totalidade da obra de Joaquim, a comissão pedirá a condenação de ambos por heresia. A condenação recai sobre o jovem franciscano que terá seu texto queimado e ficará pelo resto da vida nas prisões eclesiásticas. O legado joaquimita está outra vez maculado pela marca da heterodoxia. Neste momento, ainda está em franca disputa o modo de vida monástico, reassumido especialmente pelos frades franciscanos, e o modo de vida escolástico, incorporado pelo clero secular e por algumas das novas ordens religiosas, como é o caso da dominicana.

IHU On-Line – Por que autores como Norman Cohn apontam Joaquim de Fiore como o inventor do sistema profético de maior influência na Europa até a aparição do marxismo?

Noeli Dutra Rossatto - Norman Cohn escreveu seu famoso livro Na senda do milênio. Revolucionários milenaristas e anarquistas místicos da Idade Média (Lisboa: Editorial Presença, 1981) em 1957, período da Guerra Fria em que se procura explicar o fenômeno do totalitarismo europeu. O marxismo será apontado como uma das filosofias da história que está na base do totalitarismo, sobretudo o soviético. Uma das teses de Cohn é que os movimentos milenaristas e proféticos medievais, bem como os posteriores, se derivam do pensamento joaquimita e, por sua vez, deságuam no marxismo. Não obstante, hoje se sabe que Joaquim não é propriamente um milenarista. Tampouco seu sistema profético afiança uma leitura mecanicista, como aquela realizada com base nas modernas teorias da história. De qualquer modo, Joaquim de Fiore é de fato o autor que criou o sistema hermenêutico de maior influência no medievo, e que tal sistema tem um contagiante núcleo profético e apocalíptico. É ele que consegue em grande medida reconstruir as antigas estratégias de leitura da história (lectio historiae) da tradição já em desuso. Também, em suas mãos, a exegese alexandrina, que pecava por um excesso de alegorismo, e a exegese histórico-literal da Escola de Antioquia— e inclusive a da Escola monástica —, que não avançava a interpretação da história para além do tipo-Cristo, vão ser renovadas, permitindo uma nova leitura da história da humanidade.

Além disso, Joaquim propõe o novo método que possibilita a compreensão espiritual por concórdia; e que promete decifrar o âmago da própria história, tal como Deus a escreveu. Deste modo, a hermenêutica joaquimita não só substitui a leitura agostiniana da história, já em crise por volta do primeiro milênio cristão, senão que é uma forte alternativa frente às correntes teóricas que se voltavam naqueles dias para o estudo da natureza (ratio physica daEscola de Chartres), e à própria escolástica que fragmenta a narrativa histórica em função das quaestiones disputatae. Depois do milênio, a proposta joaquimita se apresenta como a mais convincente alternativa de leitura da história.

Desta perspectiva, o déficit de racionalidade histórica suprido pelo joaquimismo na Idade Média poderá ser equiparado com aquele mais tarde trazido por Hegel e Marx. Outra explicação decorre do modo de produzir conhecimento filosófico no decorrer do século XX, sobretudo no campo da História da Filosofia Medieval. Em consequência do forte domínio da neoescolástica e de setores católicos conservadores nos estudos medievais,Joaquim de Fiore é posto de lado. As poucas vezes em que figura nos estudos medievais será como exemplo de pensamento heterodoxo. O mesmo acontece com a historiografia joaquimita do século XX. A ligação com a heterodoxia, a rebeldia, o anarquismo, o protestantismo e o marxismo será quase natural. Joaquim se torna naturalmente um reformista, um marxista, um revolucionário avant la lettre. Muitos são os exemplos disso. Ernesto Buonaiuti, autor de Gioacchino da Fiore. I tempi, la vita, il messagio, é um sacerdote católico que foi excomungado porPio X em 1925 ao abjurar o fascismo. O jesuíta francês Henri de Lubac, eleito cardeal em idade avançada — e que publicou, entre 1979 e 1981, os dois famosos estudos intitulados A posteridade espiritual de Joaquim de Fiore (Tomo I: De Joaquim de Fiore a Schelling; Tomo II: De Saint-Simon aos nossos dias) —, havia sido censurado por Pio XII pela publicação de Surnaturel (1946). Importantes estudos sobre o joaquimismo, como os do professor da Universidade Protestante de Genebra Henry Mottu, os da professora de Oxford Marjorie Reeves e os do próprio Norman Cohn, por diferentes vias, se enquadram nesta mesma corrente. Ao lado disso, outros estudos que fazem referência ao joaquimismo foram produzidos por autores declaradamente marxistas, como é o caso de Henri Lefebvre, em Hegel,Marx e Nietzsche ou o reino das sombras (Lisboa: Editora Ulisseia, 1976), de 1975.

IHU On-Line – Como podemos compreender sua concepção de história da humanidade e suas três fases?

Noeli Dutra Rossatto - De acordo com a imagem da Trindade,Joaquim entende que a história da humanidade está dividida em três estados (status). O primeiro pertence ao Pai, o segundo ao Filho e o terceiro ao Espírito Santo. Conforme as propriedades atribuídas a cada uma das pessoas da Trindade, o primeiro estado é um período de obediência servil, o segundo de obediência filial e o terceiro de plena liberdade espiritual. A letra do primeiro estado é o Antigo Testamento; a do segundo, o Novo Testamento; e a do terceiro o Evangelho eterno, que é um testamento sem letra. O primeiro estado foi dos casados (ordo coniugatorum), o segundo é dos clérigos (ordo clericorum) e o terceiro será dos monges (ordo monachorum). Cada um dos estados está dividido por três períodos de 21 gerações, a saber: germinação, frutificação e consumação. O conjunto de duas gerações de trinta anos resulta no número 1260.

O primeiro estado já havia se realizado em sua totalidade nos tempos de Joaquim; o segundo estava em seu período de consumação; e o terceiro começaria a produzir frutos 42 gerações depois da encarnação de Jesus, ou seja, por volta do ano 1260. A figura da Trindade, que é a mesma da história, está composta por três círculos entrelaçados. Assim, entrelaçando dois conjuntos dos nove subconjuntos de 21 gerações, teremos a totalidade da história da humanidade, subdividida por sete idades do mundo, conforme propunha Agostinho em seu De civitate Dei.

IHU On-Line – Em que aspectos Joaquim de Fiore vai ao encontro da observância mais estrita da regra franciscana?

Noeli Dutra Rossatto - É preciso ter presente que a consolidação do franciscanismo dos primeiros tempos se dá com base no pensamento joaquimita. Francisco de Assis não escreveu nenhum tratado filosófico. Não só os franciscanos mais radicais, como é o caso de espirituais como Hugo de Digne, João de Parma, Ângelo Clareno, Ubertino de Casale e Pedro João Olive, mas também os mais moderados, como Boaventura de Bagnoregio, interpretam a vida de Francisco e a fundação da ordem como a realização de uma profecia joaquimita. A interpretação joaquimita da história indicava o fim do segundo estado, protagonizado pelo clero e a Igreja de Cristo, na quadragésima segunda geração a contar de Jesus homem, ou seja, nas gerações que terminam em 1260. Este mesmo ano marcaria o período de frutificação da nova ordem monástica (ordo monachorum), que seria conduzida pelos homens espirituais (viri spiritualis) do terceiro estado. Muitos franciscanos vão logo associar os prognósticos joaquimitas a Francisco de Assis. Um dos que temos registro é Geraldo de Borgo. Ele talvez seja o primeiro a vincular a profecia joaquimita dos três grandes homens a Francisco de Assis.

Segundo Joaquim, no início do período de frutificação do terceiro estado apareceriam três grandes homens (tres magnus viri), assim como haviam surgido Abraão, Isaac e Jacó no início do primeiro, e Zacarias, João Batista e Jesus no segundo. Os três grandes homens do terceiro estado haviam sido indicados de forma cifrada por Joaquim com base na leitura dos textos apocalípticos: viria um homem vestido de linho, um anjo com a foice afiada e outro com o selo de Deus vivo. Geraldo não só decifra este enigma, senão que o aplica à história de seu tempo: o primeiro homem era Joaquim de Fiore; o segundo, São Domingos, fundador da ordem dominicana; e o terceiro, Francisco de Assis, fundador de sua ordem.

Logo em seguida, Boaventura reafirma os dois últimos membros da profecia joaquimita. E mais, trará alguns indícios que provam o cumprimento da profecia em Francisco. Ele assinava e selava suas cartas com a letra tau (τ), até hoje ostentada no hábito franciscano, que é a marca do Deus vivo, segundo o profeta Ezequiel. Outro indício é que ele recebera em sua própria carne os estigmas de Cristo crucificado. Assim, a cruciforme letra tau, os estigmas e a cruz são três significantes que indicam um só significado: o sinal do Deus vivente. Deste modo, a relação do franciscanismo com o joaquimismo contribui não só para a explicação da própria figura de Francisco e do lugar histórico da ordem por ele fundada, senão que também na reformulação da relação entre a vida e a regra franciscana.

IHU On-Line – Em que medida os franciscanos e joaquimitas propunham uma nova forma-de-vida, na perspectiva das pesquisas desenvolvidas por Giorgio Agamben em Altíssima Pobreza, por exemplo?

Noeli Dutra Rossatto - Três aspectos parecem estreitar a relação entre joaquimismo e franciscanismo nos estudos deAgamben. O primeiro é que, em Altíssima pobreza (São Paulo: Boitempo, 2014), ele resgata o modelo de vida monástica, sobretudo o franciscano, como contraponto à sociedade atual. Resgata, com efeito, a possibilidade de uma forma-de-vida não subjugada à regra, à lei ou ao officium. O segundo aspecto reside no conceito de uso pobre (usus pauper) dos franciscanos; ele encontra aí uma das alternativas para o uso adequado dos corpos e do mundo no sentido de uma biopolítica positiva. O terceiro aspecto, que adquire uma abrangência maior, baliza a separação entre dois paradigmas: o vigente na sociedade atual, que separa regra e vida, com origem na prática sacerdotal; e o advindo da tradição monástica, que não separaria estas duas instâncias.

A forma-de-vida monástica serviria para articular de maneira adequada os polos: forma e vita, regula e vita, officium e vita. Na tradição medieval, os que separam regra e vida são os representantes do paradigma do ofício sacerdotal, o qual se ampara em Agostinho, Inocêncio III e Tomás de Aquino. Para eles, vale a tese de que o ofício exercido por um sacerdote será sempre válido, seja ele uma pessoa boa ou má. Assim, garante-se a supremacia do ato operado frente ao ato operativo, ou seja: mesmo que o operador seja imundo, o ato operado (ofício) será sempre limpo. Esta prática persistirá nas instituições atuais.

IHU On-Line – Em que sentido a fuga e a resistência são elementos importantes nessa construção de uma nova forma-de-vida por tais ordens?

Noeli Dutra Rossatto - A fuga do mundo e a resistência estão no centro das motivações da prática monástica. Marcam a ruptura com o mundo, seus valores e práticas vigentes. Era comum nas ordens monásticas — e muitas delas ainda conservam — a mudança do próprio nome do indivíduo que ingressava no mosteiro. O abandono do mundo, resistindo às suas tentações, implicava o abandono da própria identidade pessoal.

IHU On-Line – A partir dessas formas de vida, em que medida se delineia uma perspectiva ética em Agamben?

Noeli Dutra Rossatto - A separação entre forma e vida ou ofício e vida nas esferas política, jurídica e burocrática, por exemplo, traz graves consequências éticas. Entre outras coisas, institucionaliza-se a corrupção, a injustiça, o mal e a indiferença. Se não importa a moralidade do agente, daí resulta, por exemplo, que a lei feita por indivíduos corruptos sempre será legítima. O julgamento realizado por magistrados indignos sempre será imparcial. O encaminhamento dado por burocratas impiedosos será isento de culpabilidade. Diferente disso é resgatar o paradigma em que um monge indigno não poderá mais ser considerado monge. A ética pública e a ética privada estariam intrinsecamente implicadas. De outro modo, reafirmar-se-ia a cisão entre a ação e o agente, de acordo com a tese contemporânea da neutralidade moral.

IHU On-Line – À luz da forma-de-vida dos franciscanos, em que sentido se pode compreender a tentativa franciscana de viver para além do direito, com a recusa à propriedade que resultou no decreto pontifício de João XXII?

Noeli Dutra Rossatto - Para os franciscanos do século XIII, especialmente os franciscanos, como quer com razãoAgamben, a recusa à propriedade está vinculada estritamente a uma possibilidade de viver para além do direito, no sentido de que a vida não pode ser subjugada à lei. Mesmo assim, a vida não produz a regra, gerando um vazio jurídico. É por isso que, desde suas origens, o franciscanismo terá problemas com relação à formulação de uma regra. E os problemas não serão apenas concernentes às exigências eclesiásticas, senão que com relação aos próprios termos das regras da tradição monástica. Francisco será o primeiro a hesitar a respeito de propor uma regra. A novidade que ele introduz, como destaca Agamben, é o princípio de que a regra franciscana é a própria vida de Cristo. Porém, isso não basta para acalmar os nervos da instituição eclesiástica. A origem dos conhecidos problemas com a regra franciscana, aprovada (bulata) e a não aprovada (non bulata) por bula papal, reside aí. Não obstante, a novidade não é só essa. Há outra que reside na releitura da fórmula vita vel regula (vida ou regra). A novidade está na introdução do et (e) em lugar do vel (ou), indicando a tensão recíproca ou a unidade disjuntiva dos sintagmas vita e regula. Significa dizer em suma: a vida dos franciscanos não difere da regra e a regra não difere da vida. É isso que, em suma, abrirá as portas para a possibilidade de viver fora das amarras jurídicas. E tal prática estaria centrada na vivência da virtude básica do franciscanismo: a pobreza. O franciscano não só abdica a todo direito de propriedade, senão que ao próprio uso. Faria um uso pobre dos bens pertencentes, por direito, à Igreja. O uso pobre foi aceito tanto pelos franciscanos mais radicais, como Hugo de Digne ou Pedro João Olive, quanto pelos mais moderados, comoBoaventura. Também terá a aprovação do Papa Nicolau III. No entanto, seu sucessor, João XXII, revogará tal dispositivo jurídico. Para ele, é impossível separar a propriedade de seu uso. Com isso, cai por terra a possibilidade de viver a virtude mais alta do franciscanismo: a pobreza.

IHU On-Line – Em que medida o uso, e não a propriedade das coisas, inspira outra concepção política em nosso tempo?

Noeli Dutra Rossatto - Na medida em que implica no abandono da posse das coisas (e das pessoas), contrariando a mentalidade e a prática vigente em nossa sociedade. Se o que importa não é mais a apropriação, é possível que muitos de nossos políticos não tenham mais interesse em ocupar cargos públicos. Também na medida em que o uso implica na abdicação do direito de propriedade, escapa-se assim ao imperialismo jurídico atual, que virou uma escolástica da justificação. Porém, o aspecto principal diz respeito a que o viver sem propriedades assinalaria uma nova forma de vida política.

IHU On-Line – No contexto do monacato cristão, quais são os limites da pesquisa de Agamben?

Noeli Dutra Rossatto - Da perspectiva de Joaquim de Fiore, permanece uma questão central. Mesmo admitindo que osfranciscanos, e o próprio Francisco, consigam guardar certa coerência com a proposta joaquimita ao viverem conforme a vida de Cristo, cabe perguntar a respeito do que seria viver em sintonia com a vida do espírito. Para Joaquim, a vida de Cristo e o seu evangelho seriam superados com o advento do terceiro estado espiritual. Além disso, a respeito do uso pobre, mesmo que ele fosse vivido rigorosamente pelos franciscanos ao longo da história, um espiritual franciscano sempre teria a questão a respeito de como a vivência da pobreza gerou tanta posse, tanta riqueza, tanta propriedade. Para um franciscano conventual talvez fosse suficiente responder que os franciscanos nunca possuíram bens, apenas fizeram um uso pobre dos mesmos.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Noeli Dutra Rossatto - Sim. Gostaria de dizer algo relacionado à nossa cultura. À primeira vista, Joaquim de Fiore é um autor desconhecido e bastante distante de nosso imaginário. No entanto, um pequeno retrocesso histórico nos mostrará o contrário. Não só a narrativa fundadora do Brasil está ligada aos franciscanos, como indica a primeira missa rezada por um frei, mas uma das matrizes formadoras da cultura luso-brasileira está ancorada nesta tradição. Os espirituais franciscanos e as ideias joaquimitas estão presentes na consolidação da nascente monarquia portuguesa, no imaginário dos descobrimentos e até hoje se conservam no simbolismo das populares Festas do Divino Espírito Santo. Além disso, o jesuíta Antônio Vieira, que viveu no século XVII entre Brasil e Portugal, dará continuidade a essas ideias. E no decorrer do século passado, teremos a retomada desta mesma tradição em autores como Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Natália Correia. Esta última, unindo joaquimismo e feminismo, propõe, entre outras coisas, a instigante utopia da idade feminina do espírito.

Entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos - www.ihu.unisinos.br

Notas:

[1] Ordem de Cister: também conhecida como ordem cisterciense, é uma ordem monástica católica reformada. A sua origem remonta à fundação da Abadia de Cister (em latim, Cistercium; em francês, Cîteaux), na comuna de Saint-Nicolas-lès-Cîteaux, Borgonha, em 1098, por Roberto de Champagne, abade de Molesme. A ordem terá um papel importante na história religiosa do século XII, vindo a impor-se em todo o Ocidente por sua organização e autoridade. Uma de suas obras mais importantes foi a colonização da região a leste do Rio Elba, quer corta as atuais República Checa e a Alemanha, onde promoveu simultaneamente o cristianismo, a civilização ocidental e a valorização das terras. (Nota da IHU On-Line)

[2] Abade: título ou cargo do superior dos monges de uma abadia autônoma ou dos membros de certas ordens ou congregações religiosas monásticas. A palavra abade significa pai e tem sido utilizada como título clerical, no Cristianismo, com diversas acepções (pároco, cura de almas, prelado de mosteiro ou congregação religiosa, monge, etc), ainda que se refira, na sua acepção original, à vida monástica e a quem governa uma abadia. Na Igreja Ortodoxa e em outras Igrejas orientais, o título que lhe é comparável é o de hegúmenos ou arquimandrita. Em língua portuguesa o feminino é abadessa. (Nota da IHU On-Line)

[3] Oráculos Sibilinos ou Sibilinas Cristãs: é o nome dado a um conjunto de oráculos, de origem pouco definida mas com um caráter claramente judaico-cristão, que tiveram larga difusão desde o período anterior à cristianização do Império Romano até finais da Idade Média. Os Oráculos Sibilinos são por vezes incluídos entre as Escrituras Apócrifas. A designação deriva dos oráculos que eram produzidos pela Sibila (ou pelas diversas Sibilas da antiguidade), profetisas divinamente inspiradas que previam o futuro. Nos tempos anteriores à cristianização, os oráculos produzidos pelas Sibilas eram cuidadosamente guardados (em Roma no Templo de Júpiter Capitolino) e consultados apenas em momentos de grave crise. Os oráculos eram de grande importância na vida religiosa da comunidade e exerciam uma grande influência na opinião pública (no contexto da época). Aproveitando esta popularidade e influência dos oráculos, grupos judeus produziram oráculos (provavelmente por alteração de outros que circulariam) contendo doutrinas e ensinamentos judaicos. Nasceram assim as Sibilinas Judaicas, que rapidamente se tornaram num poderoso veículo de propaganda religiosa. Com a expansão do cristianismo, as Sibilinas Judaicas foram adoptadas pelos cristãos e novas foram criadas, transformando-se num importante veículo de propaganda da nova fé. Nasceram assim os Oráculos Sibilinos. Todas elas foram escritas no mesmo estilo, aparentemente entre os séculos I e IV da era cristã (embora algumas sejam provavelmente anteriores a 180 a.C.), constando de longas sequências de versos hexâmetros originalmente escritos em grego homérico. (Nota da IHU On-Line)

[4] Ricardo I – Ricardo Coração de Leão (1157-1199): foi o Rei da Inglaterra de 6 de julho de 1189 até sua morte. Também foi Duque da Normandia, Aquitânia e Gasconha, Senhor do Chipre, Conde de Anjou, Maine e Nantes e Suserano da Bretanha em vários momentos durante o mesmo período. Ele era o terceiro filho do rei Henrique II de Inglaterra e da rainha Leonor da Aquitânia, também sendo conhecido como Ricardo Coração de Leão mesmo antes de sua ascensão devido sua reputação de grande guerreiro e líder militar. Aos 16 anos, Ricardo comandou seu próprio exército, acabando com rebeliões contra seu pai em Poitou. Ele foi o principal comandante cristão durante a Terceira Cruzada, liderando a campanha depois da saída de Filipe II de França, conseguindo consideráveis vitórias contra Saladino, o líder muçulmano, mesmo não tendo conseguido conquistar Jerusalém. Ricardo falava a língua de oïl, um dialeto francês, e occitana, uma língua falada no sul da França e nas regiões próximas. Ele viveu no Ducado da Aquitânia e passou pouquíssimo tempo na Inglaterra, preferindo usar seu reino como uma fonte de renda para apoiar seus exércitos. Era visto por seus súditos como um herói piedoso. Ricardo permanece até hoje como um dos poucos reis ingleses mais lembrados por seu epíteto do que por seu número régio, sendo uma grande figura icônica na Inglaterra e França. (Nota da IHU On-Line)

[5] Cruzadas (séculos XI a XIII): foram movimentos militares de inspiração cristã que partiram da Europa Ocidental em direção à Terra Santa (nome pelo qual os cristãos denominavam a Palestina) e à cidade de Jerusalém com o intuito de conquistá-las, ocupá-las e mantê-las sob o domínio cristão. Estes movimentos estenderam-se entre os séculos XI e XIII, época em que a Palestina estava sob controle dos turcos muçulmanos. No médio oriente, as cruzadas foram chamadas de “invasões francas”, já que os povos locais viam estes movimentos armados como invasões e porque a maioria dos cruzados vinha dos territórios do antigo Império Carolíngio e se autodenominavam francos. A Quarta Cruzada (1202-1204) foi começada com a intenção de tomar a Terra Santa, então em mãos muçulmanas, através da conquista do Egito. Entretanto, a cruzada foi desviada de seu intuito original e os cruzados, junto aos venezianos, tomaram e saquearam Constantinopla, cidade cristã capital do Império Bizantino. Esse evento levou à fundação do Império Latino e à consolidação do Grande Cisma do Oriente entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. (Nota da IHU On-Line)

[6] Ordem dos Florenses ou Florianos: do latim Floriacenses, é a designação dada a um ramo beneditino, tornado independente da Ordem de Cister, que seguia uma versão mais mística e mais contemplativa da vida monástica. A Ordem dos Florenses (Ordo Floriacensis) foi fundada em 1189 pelo abade Joaquim de Fiore, ou Joaquim de Flora, na abadia de San Giovanni in Fiore. Os florenses derivam o nome do apelido do seu instituidor, que por sua vez era simplesmente conhecido por Gioacchino da Fiore, sendo Fiore o nome da localidade calabresa onde se localiza a abadia onde se recolheu. As constituições da Ordem, redigidas pelo instituidor e aprovadas em 1196 pelo papa Celestino III, preservavam os principais valores beneditinos na sua versão cisterciense, mas, para além de um breviário dispondo uma distribuição diferente dos ofícios divinos, as regras de vida eram mais rigorosas do que as observadas em Cîteaux: os florenses andavam descalços usando um hábito branco de tecido em extremo grosseiro. Dada a fama do seu fundador e o impacto do joaquimismo, a Ordem expandiu-se rapidamente, atingindo os 35 conventos (aparentemente todos em Itália) e 4 mosteiros destinados a mulheres, seguindo a mesma regra. (Nota da IHU On-Line

[7] IV Concilio de Latrão – ou Lateranense: foi um dos maiores concílios ecumênicos medievais. O IV Concílio de Latrão foi convocado pelo papa Inocêncio III através da Bula Vineam Domini Sabaoth de 10 de abril de 1213, tendo o concílio se reunido em 15 de novembro de 1215. No encontro, ficou decidido que os cristãos deveriam confessar seus pecados e comungar pelo menos uma vez por ano, na época da Páscoa. (Nota da IHU On-Line)

[8] Escolástica: linha dentro da filosofia medieval, de acentos notadamente cristãos, surgida da necessidade de responder às exigências da fé, ensinada pela Igreja, considerada então como a guardiã dos valores espirituais e morais de toda a Cristandade, por assim dizer, responsável pela unidade de toda a Europa, que comungava da mesma fé. Esta linha vai do começo do século IX até ao fim do século XVI, ou seja, até ao fim da Idade Média. Este pensamento cristão deve o seu nome às artes ensinadas na altura pelos escolásticos nas escolas medievais. Estas artes podiam ser divididas em Trivium (gramática, retórica e dialéctica) e Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). A escolástica resulta essencialmente do aprofundar da dialética. Confira a edição 342 da revista IHU On-Line, de 06-09-2010, intitulada Escolastica. Uma filosofia em dialogo com a modernidade, disponível em http://bit.ly/11mcjbi. (Nota da IHU On-Line)