O rito

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Vamos considerar a natureza do rito e o sentido do rito na Sagrada Liturgia, pois toda a Liturgia é ritual, ou seja, é expressa e vivida através de ritos.

O rito é, por natureza, uma ação previamente ordenada e fixada, a ser repetida. A fixidez e a repetição são próprias da natureza do rito. O ser humano é um ser ritual, por ser mistério, que ultrapassa sua corporeidade. Por ser mistério é, por isso mesmo, simbólico em sua manifestação. Para penetrar no seu mistério ele usa de sinais sensíveis e significativos, uma linguagem simbólica, para expressar a realidade profunda que ultrapassa sua corporeidade. Pelo fato de ser simbólico é também um ser ritual.

Por isso, se não segue o rito em suas ações ele se perde. O profissional, por exemplo, segue sempre um rito em suas ações, como o médico na ação cirúrgica, o piloto de avião e assim por diante. Se todos os profissionais seguissem à risca os ritos de sua profissão se evitariam muitas falhas, inclusive, acidentes aéreos. O rito leva o ser humano a realizar as coisas uma depois da outra.

Jesus Cristo quis que a obra da salvação se atualizasse nos seus seguidores através de ritos que denominamos celebrações dos mistérios de Cristo. Assim, na ação da Igreja, os diversos ritos comemoram e tornam presente a Obra da Salvação e da glorificação de Deus por Cristo e em Cristo.

O rito na Liturgia tem várias compreensões. O rito pode significar qualquer ação simbólica de uma celebração, como o sinal da cruz, a genuflexão, o derramar água e assim por diante. O rito pode compreender um conjunto de ações ou palavras como, por exemplo, o rito de Entrada. Pode significar uma parte mais ampla de uma celebração como o rito de Abertura ou de Encerramento de uma celebração, a Liturgia da Palavra, a Liturgia eucarística. Pode ainda significar toda uma celebração. Por exemplo, o Rito do Batismo, o Rito da Celebração eucarística, o Rito do Matrimônio. Por fim, pode expressar o conjunto de ritos de uma Igreja ou de um conjunto de Igrejas de certas partes do mundo. Temos então as Igrejas de rito ocidental e as Igrejas de rito oriental, subdivididos em várias famílias.

Importa descobrirmos o sentido dos diversos ritos nas celebrações como linguagem simbólica dos mistérios celebrados. Eles constituem a linguagem do mistério. São sinais sensíveis e significativos dos mistérios celebrados. Tornam-se verdadeira oração, comunhão com Deus.

A mera execução de ritos leva ao ritualismo estéril, condenado com veemência por Cristo ou conduzirá à magia, como se o rito tivesse eficácia por si mesmo. Importa, pois, viver o que os ritos significam. Eles recebem sua força das palavras de Cristo: “Fazei isto em memória de mim”.

Toda a Liturgia da Igreja é ritual porque simbólica memorial. Este é o modo que Cristo deixou para viver o seu mistério. Devemos, pois, esforçar-nos por entrar no ritmo do rito. Ele deve ser conhecido por todos os que participam de uma celebração. Devemos deixar-nos cativar e acolher pelo rito. O rito por sua natureza não admite cortes bruscos, surpresas, interrupções ou improvisação. Todos os sentidos participam da vivência do rito: a vista, o ouvido, o olfato, o paladar, a palavra, o silêncio, o tato, a ação, o movimento. Devemos deixar-nos envolver pelo rito para que se transforme em oração, em comunhão com Deus. A maior criatividade consiste em deixar-nos acolher e recriar sempre de novo pelo rito da celebração do mistério.