O caráter dialogal da Sagrada Escritura

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Igreja compreende a Liturgia como um sagrado comércio. O admirabile commercium!, exclama a Liturgia do Natal do Senhor. Traduzindo: “Admirável intercâmbio! O Criador da humanidade, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem. Feito homem, nos doou sua própria divindade!” Várias vezes, é usada a expressão “a troca de dons entre o céu e a terra”. Este sagrado comércio entre o céu e a terra, entre Deus e o homem como no mistério da Encarnação continua a acontecer na Liturgia. Trata-se uma troca de serviços entre Deus e a humanidade através do serviço de salvação e de glorificação de Deus de Cristo Jesus.

O comércio caracteriza-se por um intercâmbio de bens. Temos sempre uma troca de dons, que supõe o diálogo entre duas partes. Este diálogo se dá entre Deus e o ser humano.

Acompanhemos o desenrolar da Celebração eucarística. Abre-se a celebração com o sinal da cruz em nome da Trindade Santa. Aqui se inicia o diálogo entre o Sacerdote e a assembleia, entre Deus e o homem, que reponde Amém. A saudação, invocando a bênção da Santíssima Trindade também pede uma resposta. Um belíssimo diálogo o temos na abertura da Oração eucarística. O final da Oração eucarística, por sua vez, síntese de toda a Prece, prepara a grande resposta de assentimento, o grande Amém: assim seja, assim é, eis a minha adesão ao que foi proclamado. Belíssimo exemplo de diálogo encontramos após a narração da instituição da Eucaristia. O sacerdote exclama: Mistério da fé!, e o povo anuncia o mistério pascal: Anunciamos, Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus. Temos ainda a oração pela paz, a saudação da paz, a apresentação do Pão e do Vinho consagrados e os ritos finais. O diálogo entre o sacerdote celebrante e a assembléia é expressão do diálogo entre as pessoas da Santíssima Trindade e entre Deus e a humanidade. As orações proferidas pelo Sacerdote presidente pedem sempre uma resposta ou aclamação do povo. O sacerdote representa o Cristo em diálogo com o Pai e a Comunidade reunida.

A assembleia entra em diálogo com Deus. Ouve, acolhe, responde e se deixa tocar pela ação santificadora de Deus. Na Liturgia da Palavra também se estabelece um diálogo entre Deus e a assembleia. Deus propõe, Deus fala, o povo ouve e responde numa resposta de admiração, de adesão, de pedido de perdão, de adoração, de ação de graças ou de pedido e de intercessão. Por isso, as leituras costumam iniciar com um vocativo Irmãos, e terminar com uma aclamação Palavra do Senhor ou Palavra da salvação, respondida pelo povo. Isso aparece de modo particular na leitura do Evangelho: Temos aí uma saudação no início e uma aclamação no final.

A proclamação ou o salmo responsorial também pede um intercâmbio entre o salmista e a assembleia. Os próprios cantos de entrada, de apresentação dos dons e da Comunhão têm em, sua origem, uma forma dialogada. Todos cantam a antífona e o cantor ou cantores proclamam as estrofes do salmo respectivo. A maioria dos cantos cantados juntos, ministros e povo, também tem caráter dialogal nem sempre observado. Por exemplo, o ato penitencial, quando tem como refrão o Senhor, tende piedade de nós. O canto do Senhor, tende piedade de nós. O gênero literário é de ladainha, pede que um solista ou um grupo de cantores faça a invocação e o povo todo responda: tende piedade de nós. O Cordeiro de Deus também tem forma de ladainha. O Glória e o Creio também podem ser cantados ou recitados alternando os lados por versículos ou estrofes. Um belíssimo exemplo de dialogo, o temos na Liturgia das Horas, sobretudo, na alternância dos salmos entre os dois lados do coro. Um lado anuncia e ou outro responde e vice-versa. Temos um diálogo divino-humano no diálogo da assembleia.

Além disso, a forma dialogada torna a celebração mais leve e mais viva. Mais ainda: a forma dialogada evita o perigo de rotina, ou de uma recitação maquinal dos textos.