Glória e não “Glorinha”

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Através dos anos após o Concílio Vaticano II, introduziu-se uma lamentável distorção no uso do Hino “Glória a Deus nas alturas” na Celebração Eucarística.

Qual o lugar e o sentido do Glória e não canto de louvor ou canto de glória, nem ação de graças, como muitas vezes vem sendo chamado.

O Glória é um dos elementos dos ritos iniciais da Celebração Eucarística, que ocorre nos domingos não roxos, nas solenidades e nas festas, bem como, facultativamente, em celebrações mais festivas.

Vejamos o que diz a Instrução Geral sobre o Missal Romano: “O Glória” é um hino antiquíssimo e venerável, pelo qual a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro. O texto deste hino não pode ser substituído por outro. … É cantado ou recitado aos domingos, exceto nos tempos do Advento e da Quaresma, nas solenidades e festas e ainda em celebrações especiais mais solenes” (n. 53).

Não se trata de uma mera aclamação trinitária, embora tenha caráter trinitário. Dirige-se ao Pai, proclama a obra salvadora do Filho, imolado e vitorioso, nosso Senhor e Salvador, na unidade do Espírito Santo. O conteúdo central do hino é cristológico e pascal.

Tem sua origem nas Igrejas do Oriente, de onde veio a Roma, onde era entoado primeiramente só pelo Papa no Natal, na Páscoa e em outras ocasiões solenes. Mais tarde, foi concedido também aos presbíteros entoarem o Glória em sua primeira Missa solene e no dia da Páscoa. No Ocidente nunca foi usado fora da Missa. Sua origem no Oriente está ligada ao Ofício de Laudes, sobretudo dos monges.

Na Celebração Eucarística no Ocidente, o Glória é de uso posterior ao Kyrie e tornou-se um desdobramento solene do próprio canto doxológico do Kyrie eleison. Nesta compreensão, seu uso foi novamente restringido a celebrações solenes e festivas.

Pior é o que está acontecendo, quando se relaciona o Glória com o Ato penitencial. Ouvem-se bispos, padres e comentaristas dizendo: “Agora que fomos perdoados, entoemos com alegria um canto de glória, dando graças a Deus”. E lá vem qualquer “canto de glória”, como é chamado, às vezes, só porque ocorre a palavra “glória”.  O Glória não tem nada a ver com o Ato penitencial. É antes uma grande doxologia, um hino de louvor a Deus com caráter cristológico e pascal, desdobramento do “Senhor, piedade”, um portal de entrada na Liturgia da Palavra e em toda a Liturgia da Missa. Não lugar também para grandes introduções para o canto do Glória, pois ele se segue imediatamente após o Senhor, tende piedade de nós.

Diante disso, todo o repertório de “cantos de glória” produzidos nesses últimos 40 anos deverá ser aposentado em relação à Celebração Eucarística. Poderão ser valorizados em outras celebrações ou devoções.

“Entoado pelo sacerdote ou, se for o caso, pelo cantor ou o grupo de cantores, é cantado por toda a assembleia, ou pelo povo que o alterna com o grupo de cantores ou pelo próprio grupo de cantores. Se não for cantado, deve ser recitado por todos juntos ou por dois coros dialogando entre si” (IGMR, n. 53). O ideal que seja cantado, mas também pode ser recitado. Em dias mais solenes poderá ser cantado por um coro polifônico, mesmo em latim, sendo vivido por todos na devota audição.

Para o canto existe uma tradução versificada em cinco estrofes, que começa com as palavras: Glória a Deus nos altos céus … Os hinos não costumam ter refrões.

Em comunhão eclesial, temos pois algo a corrigir, em relação ao Glória na Missa.