Vida CristãArtigos › 14/12/2016

A Misericórdia dos dois Franciscos: de Assis e de Roma

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Leonardo Boff

É notória a presença da misericórdia na vida de São Francisco, para com os pobres, com os pecadores, com os confrades relapsos e para com os demais seres da criação, seus irmãos e irmãs. Caso se deva impôr alguma penitência, diz na Regra 7, 2, que “se faça com misericórdia”. Na Carta aos Fiéis 8, 43, recomenda ao superior que  “manifeste e pratique tal misericórdia como gostaria que se lhe aplicasse a ele”. Por fim, na  Admoestação 27,6 afirma com verdade: “Onde há misericórdia aí não há dureza de coração”.

Até  hoje calam fundo na alma as palavras do Testamento: “O Senhor mesmo me conduziu entre os hansenianos (leprosos) e eu tive misericórdia com eles”. Quer dizer, colocou-se no lugar deles, conviveu com eles e participou de todas as discriminações que na época os hansenianos sofriam.

Para São Francisco é por misericórdia que Cristo se fez presépio, se escondeu sob as simples espécies de pão e de vinho e nos visita na roupagem dos pobres dos caminhos.

A mesma centralidade da misericórdia encontramos no outro Francisco, aquele de Roma. Instituiu em 2015/2016 o “Ano da Misericórdia” e escreveu o belo opúsculo “O nome de Deus é misericórdia”.

Disse enfaticamente: “O Deus de misericórdia, o Deus misericordioso, para mim, é de fato a carteira de identidade do nosso Deus”.

Efetivamente, o Papa Francisco está na linha da Tradição de Jesus, para quem Deus é fundamentalmente amor, mas amor misericordioso que chega a amar “os ingratos e maus” (Lc 6,35). A misericórdia é a nota distintiva do Deus de Jesus Cristo e de todo o cristianismo.

Para Jesus, não basta ser bom e observar todas as leis como o irmão do filho pródigo que ficou em casa com seu pai. Precisamos ser misericordiosos. O filho bom e fiel é o único a ser criticado porque não mostrou misericórdia para com o irmão  que se havia perdido no mundo mas que,  arrependido, voltara à casa paterna (Lc 15, 11-32).

Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, coloca a misericórdia como a forma mais alta do amor. Afirma que “a misericórdia é a virtude maior. Pois, faz parte da misericórdia derramar-se sobre os outros e o que é mais belo ainda – ajudar a fraqueza dos outros e isto é uma coisa de quem se encontra mais elevado. Por isso a misericórdia é precisamente atribuída a Deus como sua característica essencial; e diz-se que é através dela que sua onipotência se manifesta de forma melhor”.

E conclui com palavras semelhantes: “Entre todas as virtudes que têm a ver com o próximo é a misericórdia, a mais elevada e a mais importante, porque tem também um status mais elevado; pois ajudar a fraqueza do outro é, em si, algo de mais elevado e melhor”.

O Papa Francisco reafirmou numa de suas homilias: “A misericórdia é a atitude divina que abraça; é o doar-se de Deus que acolhe, que se predispõe a perdoar”.

Nietzsche que disse tantas irreverências, afirmou em seu Assim  falou Zaratustra, algo que merece ser refletido: “Também Deus tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens… Deus está morto, morreu por sua compaixão para com os homens”.

A invés de prolongar uma reflexão teológica mais acurada, prefiro estender-me um pouco sobre os fundamentos antropológicos da misericórdia e a imagem de Deus que ela pressupõe.

A religião do Deus-Mãe: a misericórdia

As imagens de Deus dominantes nas religiões atuais nasceram, em sua grande maioria, no quadro da cultura patriarcal. Nela, a imagem predominante de Deus é aquele do Senhor do céu e da Terra, que dispõe de todos os poderes, justiceiro e Pai severo. Sua característica principal é a justiça.

Anteriormente vigorava a cultura matriarcal, uma das fases da história humana, vigente por volta de vinte mil anos atrás. A imagem de Deus era feminina, da Grande Mãe, da Mãe dos mil seios, geradora de toda vida. Produziu uma cultura mais em harmonia com a natureza e profundamente espiritual. A característica do Deus-mãe era a misericórdia.

O nosso inconsciente, pessoal e coletivo, guarda na forma de arquétipos e de grandes sonhos, estas experiências feitas sob as duas formas de organizar a experiência religiosa, sob a figura do pai e sob a figura da mãe. Como Freud já observou, elas constituem as bases psíquicas a partir das quais projetamos as nossas imagens de Deus,  seja como Deus-Pai seja como Deus-Mãe.

Além disso, estas figuras estão presentes em nós sob a forma de arquétipos seminais que nos acompanham durante toda a vida. Elas sempre vêm à tona por uma ignota saudade, pelo imaginário, pelas grandes narrativas, pela arte, pela música e por símbolos de toda ordem.
Mas há outra imagem, presente na história das religiões e também na tradição judaico-cristã que nos remete ao tema da compaixão e da misericórdia.  Era por onde São Francisco vivenciava a encarnação. Ela se manifesta pelo Deus que se faz criança, que não julga, mas que choraminga e convive. Um Deus que se enche de compaixão e chora pela morte do amigo Lázaro; que “compadeceu-se de nossas fraquezas” (Hb 4,15) e que “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo em solidariedade (compaixão)  conosco” (Fl 2,7); que “soube compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque ele também está cercado de fraqueza” (Hb 5, 5,2) e que “não obstante ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer pelo sofrimento” (Hb 5,8). Eis os sinais de sua compaixão e misericórdia para conosco: a forma que o Filho tomou ao encarnar-se.

William Bowling, místico inglês do século XVII,  concretizava ainda mais a misericórdia de Cristo, dizendo: “Cristo verteu seu sangue tanto pelas vacas e pelos cavalos quanto por nós homens”. É a dimensão transpessoal e cósmica da redenção.

O Papa Francisco numa audiência de 28 de outubro de 2015 enfatizou também esta dimensão cósmica da misericórdia: “A misericórdia para a qual somos chamados abraça toda a criação que Deus nos confiou para sermos cuidadores e não exploradores, ou pior ainda, destruidores”.

Há um comovente midrash judaico (um relato) sobre o choro de Deus. Quando viu os cavaleiros egípcios com seus cavalos serem tragados pelas ondas do Mar Vermelho depois da passagem a pé enxuto de todo o povo de Israel, Deus olhou para trás e não se conteve. Chorou.

“Os egípcios não são também  meus filhos e filhas queridos e não apenas os descendentes  de Abraão e de Jacó”?

É rica a tradição bíblica que fala da misericórdia de Deus. Em hebraico misericórdia significa ter entranhas de mãe e sentir em profundidade, lá dentro do coração o sofrimento dos míseros (ter um coração (cor) para com os míseros, como o explicou o Papa Francisco certa feita).

O Salmo 103, um dos que pessoalmente mais aprecio, é nisso exemplar  ao afirmar que “Deus tem compaixão, é clemente e rico em misericórdia; não está sempre nos acusando nem guarda rancor para sempre… porque como um pai, sente compaixão pelos seus filhos e filhas porque conhece a nossa natureza e se lembra de que somos pó;  sua misericórdia é desde sempre e para sempre”. Haverá palavras mais consoladoras do que estas para os tempos maus sob os quais estamos vivendo?

Somente um Papa, vindo do fim do mundo, ousou dizer o que muitos teólogos vinham pensando mas não podiam expressá-lo.

Diante dos novos  cardeais, surpreendentemente, lhes disse: “Não atemorizeis os fiéis com o inferno como sempre foi feito na história da Igreja. Deus não conhece uma condenação eterna”.

Numa outra homilia, reafirmou: “Nenhum pecado humano, por mais grave que seja, pode prevalecer sobre a misericórdia ou limitá-la”.

A misericórdia da Santíssima Mãe de Jesus

Estas afirmações tão contundentes do Papa me remetem a um apócrifo tardio, do século IX, mas fundado numa tradição antiga, muito popular na piedade russa, chamado O apocalipse da Mãe do Senhor.

Como é sabido pela pesquisa, hoje em dia está em voga o interesse pelos apócrifos, aqueles evangelhos não oficiais que têm mais a ver com a cultura popular que  utiliza antes a fantasia do que a razão para realçar o significado da mensagem de Jesus.

Não devemos menosprezar a  fantasia porque ela traduz, à sua maneira, a verdade e, por isso,  têm  seus direitos.

O  referido  apócrifo é profundamente comovedor e mostra o triunfo da misericórdia divina sobre a justiça. Ele comprova, uma vez mais, que para o Deus da misericórdia não existe uma condenação eterna. Ei-lo:

“A santa e gloriosíssima Senhora, mãe de Deus e mãe de Cristo, levantou-se e quis saber acerca das penas que sofrem os seres humanos, especialmente os condenados ao inferno.

Perguntou ao arcanjo Miguel: “Quantas penas existem lá onde é punido o gênero humano”? Ele respondeu: “As penas não têm número”.

Ele abriu o inferno pelo lado do ocidente. E a santíssima mãe de Cristo viu as muitas penas da humana gente e prantos de muito tormento. Do lugar da pena, os condenados gritaram em voz alta: “Há séculos que não vemos a luz. Mas agora vemos a ti que destes a luz ao Senhor”.

Os anjos, por sua vez, clamaram: “Alegra-te, Virgem, luz que nunca se apaga. Alegra-te também tu, arcanjo Miguel, justo intercessor das almas de todos”.

Os anjos também viram os condenados e choraram. A honorabilíssima Mãe do Senhor viu o lamento dos anjos por causa dos condenados. E ela também começou a chorar.

Novamente os condenados gritaram: “Bendita és tu porque vieste até nós que estamos nas trevas por toda a eternidade”.

Disse a santíssima Mãe ao arcanjo Miguel: “Diga aos anjos para levar-me diante do Pai invisível”.

Vieram então os querubins e os serafins e a levaram diante do Pai invisível. E ela estendeu as mãos diante do trono terrível e se inclinou profundamente (fez a proscrínese).

Depois  dirigiu os olhos na direção de seu Filho, Senhor do céu e da terra. Suplicou: “Tem piedade, ó Senhor, dos cristãos! Vi tormentos impossíveis de serem suportados. Eu quero sofrer com eles”.

Cristo respondeu: “Como poderia ter piedade deles quando eles não tiveram piedade de meus irmãos e irmãs menores, os pobres?”

Apesar disso, suplicou a honorabilíssima Senhora: “Mesmo assim, ajuda-me, ó Senhor”. E o Filho lhe respondeu:

“Não há na terra ninguém que me invoque e que não seja ouvido por mim. Mas estes não quiseram invocar meu nome”.

E a virgem Maria se voltou para os anjos e santos e para os justos do Reino do céu e para todos os que têm a ousadia de pedir pelos condenados.

E o arcanjo Miguel incitou a todos e ele mesmo se ajoelhou, seguido pelos anjos e por toda a corte dos santos e das santas, com grande caridade. E disse a esplendidíssima Mãe a seu Filho:

“Filho meu amantíssimo, desce de teu trono e veja a oração que fazemos pelos condenados”. E o Filho do Pai, o Cristo Senhor, desceu de seu trono. Aproximou-se do lugar das penas eternas. Vendo-o gritaram os atormentados em alta voz:

“Tem piedade de nós, Filho de Deus”. E o Senhor disse então:

“Escutai todos. Por causa da piedade e da misericórdia de minha mãe e da oração dos anjos e dos santos e santas, a partir de minha Ressurreição no dia de Páscoa até o domingo de todos os santos, habitareis no paraíso”.

E  todos os santos e santas glorificaram a Deus, ficando na expectativa da festa da Ressurreição do Senhor. E quando ela chegou,  todos os condenados entraram cantando no céu. E diz-se que de lá nunca mais saíram”.

Perguntei a um monge, teólogo ortodoxo russo o que significavam aquelas datas. Ficariam no céu somente por um tempo? Ao que me respondeu: quem entrou não sai mais, pois seria invalidar a misericórdia da Mãe do Senhor. Por isso não se deve tomar as festas referidas  no sentido temporal, mas no sentido espiritual: são as festas eternas no Reino da Trindade na qual todos os redimidos participam. Por isso é justo que se diga: “E de lá, do céu, nunca mais saíram”.

Com correção teológica asseverou o Papa Francisco: “Com a misericórdia e o perdão, Deus vai além da justiça, a inclui e a supera numa dimensão superior na qual se experimenta o amor, que é o fundamento de uma verdadeira justiça”.
A narrativa do apócrifo russo revela a vitória da misericórdia (religião da mãe) sobre a justiça (religião do pai).

Deus-Pai-e-Mãe não tem uma caixa de lixo

Dito numa linguagem do cotidiano: Deus, Pai e Mãe de bondade e de infinita misericórdia não têm uma caixa de lixo eterna, para onde jogam os que neste mundo  não deram certo. Seria uma derrota eterna para Eles que jamais poderão ser vencidos pelas forças do Maligno.

A misericórdia que é o amor dolorido que se compadece dos padecimentos humanos, superou a justiça. No juízo individual no qual se darão conta de sua justiça, os pecadores, envergonhados, reconhecem o mal que fizeram. Sofrem terrivelmente (existencialmente não seria o purgatório?). Mas o sofrimento é purificador. Por isso, este não tem a última palavra. A última página do livro da vida é escrita pelo amor e pela misericórdia. É da natureza divina, toda amor e compaixão, perdoar e reconduzir a todos os seus filhos e filhas ao seu seio bem-aventurado.

Foi para isso que foram pensados e queridos por Deus desde toda a eternidade. E Jesus é o salvador universal, cujo poder de resgate das vítimas do mal não conhece limites. Seu gesto redentor é verdadeiramente universal e sempre vitorioso. Nenhum mal resiste ao amor e à misericórdia. Ele jamais poderá triunfar.

Pela justiça, o mal é reconhecido, faz sofrer de modo que este sofrimento funciona como uma clínica purificadora de Deus. Purificados pelo sofrimento e muito mais pela intensidade incomensurável do amor divino, todos saem transfigurados. Por causa da misericórdia são perdoados. E assim Deus é sempre e eternamente vitorioso contra todas as forças do Negativo da história.

O sentido último da encarnação não é outro que este: Deus vem, assume a nossa condição frágil e mortal e nos toma porque somos seus, leva-nos para a morada eterna que nos foi preparada antes do princípio da criação. E aí viveremos e festejaremos, festejaremos e nos alegraremos, nos alegraremos e conviveremos como irmãs e irmãos, junto com toda a comunidade de vida também ela transfigurada no Reino bem-aventurado da Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo.