Sacerdote

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Pela unção na cabeça logo após o batismo, o cristão é ungido rei, sacerdote e profeta, dignidade que ele adquiriu no próprio batismo. Gostaria de refletir com os leitores sobre a natureza e a dignidade do sacerdócio. O que é mesmo ser sacerdote.

Sacerdócio e sacerdote têm praticamente o mesmo sentido. Sacerdote, do latim, vem de sacer e dos. Sacer significa sagrado, divino. Dos significa dom, ou dote.

Termo comum de dois, sacerdote, no fundo, significa: dom sagrado, dom divino, dom de Deus. Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem é sacerdote, chamado a reconhecer a sua vida como dom de Deus e transformar sua vida num dom ou oferta a Deus.

O sacerdote é chamado a “sacrificar”, termo que também deve ser bem entendido. Sacrificar é tornar sagrado, santo, tornar divino ou fazer coisa divina. Assim, o ser humano pela própria criação é chamado a sacrificar, orientando e oferecendo a Deus a própria vida.

Por causa da ruptura com Deus pelo pecado da desobediência, o ser humano não mais quis reconhecer a vida como dom de Deus e orientá-la totalmente a Ele. Quis, sim, apropriar-se dela como propriedade sua. Símbolo disso é o comer da fruta proibida para ser como Deus.

Mas, Deus é misericordioso. Já no Antigo Testamento escolheu um povo como “um reino de sacerdotes” (cf. Ex 19,6). Pelo fato de o povo ser infiel a esta sua vocação de reis e sacerdotes, Deus escolhe homens para ajudar o povo a viver como sacerdotes. Estes oferecem a Deus os “sacrifícios” em nome do povo, tornando-se mediadores entre Deus e o seu povo. Daí vão surgindo, como entre quase todos os povos primitivos, os “sacrifícios”, as ofertas a Deus, significando a oferta da própria vida. Ora, é aceitando ser mortal que o ser humano melhor pode reconhecer que a vida vem de Deus, é dom de Deus e não propriedade sua. Por isso, mata animais e os oferece a Deus. A morte é a maior experiência da condição de criatura do ser humano. Vem daí a prática da imolação da vítima, a morte ligada ao sacrifício. Os profetas e os salmos ensinam, porém, que o mais perfeito sacrifício a Deus é o sacrifício de louvor, o sacrifício da ação de graças. É oferecer a Deus um coração contrito e humilhado.

Ora, Jesus foi o grande mediador entre Deus e a humanidade. Foi exemplo de sacerdote para a humanidade em sua vida mortal, aprendendo a obediência entre preces, súplicas e sofrimentos (cf. Hb 5,7-10). Pela obediência ele reconheceu que sua humanidade era dom de Deus. Expressou esta obediência amorosa ao Pai por sua morte, a grande oferta, a grande oblação de sua vida ao Pai: “Em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Cristo assumiu em si toda a humanidade. Por Ele, a humanidade pode tornar-se de novo, uma oblação, um sacrifício agradável a Deus. Jesus Cristo é, assim, o Sumo Sacerdote, o único verdadeiro sacerdote. Mas, ele partilha o seu sacerdócio, concedendo que, pelo seu Espírito, todos os que nele creem e esperam possam viver sua vocação sacerdotal: acolher a vida como dom de Deus e orientá-la, oferecê-la totalmente a Ele. Pedro afirma: “Vós sois a geração escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo que ele conquistou para proclamar os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1Pd 2,9).

O sacerdócio dos cristãos, sobretudo, o sacerdócio universal do batismo, é participação no sacerdócio de Cristo. Jesus, por sua vez, escolheu pessoas que, na força do Espírito Santo, exercem o sacerdócio ministerial. Ministerial porque a serviço de todo um povo sacerdotal. Nos primeiros séculos, os cristãos evitavam o uso do termo sacerdote para expressar o novo sacerdotal em Cristo Jesus. Os ministros ordenados, vistos na tríplice função messiânica de Cristo, profeta, sacerdote e rei, eram chamados bispos e presbíteros. No Rito da Ordenação, ainda hoje, o padre não é chamado de sacerdote, mas de presbítero. Os ministros ordenados são, em Cristo, os grandes mediadores entre Deus os homens. Por isso, demos graças a Deus!