Vida CristãArtigos › 11/01/2017

Frei Almir Guimarães: Para onde sopram os ventos (II)

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Frei Almir Guimarães

1. Para que o amanhã da Ordem Franciscana Secular tenha força e vigor será fundamental que as pessoas que nela ingressem tenham clareza a respeito de um chamamento, de uma vocação. Não se trata de inscrever-se numa pia associação de fiéis de boa vontade, apenas desejosos de rezar juntos. Trata-se de pessoas que, depois de um certo discernimento, chegaram à conclusão de que podem chegar a uma santidade de vida e dar uma colaboração efetiva à Igreja e ao mundo ingressando nas fileiras de uma fraternidade franciscana. De alguma forma, trata-se de uma consagração da vida a Deus e aos irmãos. São pessoas que experimentam o Evangelho como algo que tem que ser vivido em profundidade. Com sua opção e escolha “fazem diferença”.

2. Os que começam sua caminhada na OFS e nela progridem são pessoas que desejam iluminar a sua vida com a claridade do Evangelho. Leitura, meditação, jogo de movimento entre leitura das páginas, encontro com Cristo e a vida. Tais pessoas desejam ser discípulas e missionárias. O documento de Aparecida fala dos discípulos missionários: sentam-se à mesa ou aos pés do Mestre e estão sempre com a bagagem leve pronta para ir, para tornar a o amor amado. São pessoas que se deixaram fisgar pelo Evangelho. O amanhã da OFS tem que ser feito por contemplativos em ação. Os que nos vêm têm o direito de os perguntar: “O que vocês fazem?”

3. O amanhã da OFS é feito de pessoas muito conscientes de que morreram com Cristo em sua morte e com ele ressuscitaram na manhã de Páscoa. Renovam seu batismo, vivem intensamente as festividades pascais. Adentram-se no mistério pascal. Depois de um certo tempo de estudo e de discernimento fazem uma profissão que nada mais é do que uma retomada do batismo que receberam mas talvez sem dele terem consciência. Profissão livremente feita, compromisso, fidelidade à palavra dada, para sua santidade, serviço da Igreja.

4. A OFS terá futuro na medida em que se preocupar com o cultura do encontro: no seio da fraternidade, no ambiente paroquial (proximidade), com os diferentes, os vizinhos, pessoas de outros credos, encontro com os que mais sofrem. A vida dos franciscanos seculares é sala de encontros.

5. O amanhã da OFS será vigoroso precisamente na medida em que encontrarmos novo tônus para nossos encontros:

• Reuniões mensais de alta qualidade, não longas, mas densas e que sejam, de fato, tonificantes.
• Reuniões e encontros em que se haverá de discutir e estudar assuntos da atualidade, questões quentes e polêmicas, aprofundamento da fé. Precisamos ser cristãos adultos e não daqueles que se fanatizam por modismos.
• Alguns de nossos encontros serão realizados com a presença de familiares. Pensamos em reuniões especiais, abertas, algumas vezes por ano.
• Nossos encontros terão constantemente presença da fraternidade de JUFRA, sem o que, seremos rios paralelos que não se encontram.

6. Nossos eventos e encontros serão marcados por alegria que não quer dizer arruaça. A presença da música bela, de jovens que cantam é de suma importância. Um apostolado sempre válido é das pessoas que não ruminam ressentimentos e tristezas, mas se mostram contentes e alegres.

7. Não podemos imaginar o amanhã de nossos regionais sem sólidas lideranças. O líder é aquele que se impõe por seu exemplo, seu caráter, seu temperamento marcado pelo ânimo, pela confiança no amanhã, nos outros, na fraternidade. Nossos irmãos precisam frequentar cursos, assumir responsabilidades em diferentes níveis para poderem, na força do Espírito, levar a Ordem para paisagens novas.

8. O amanhã da OFS será risonho se for constituído de pessoas que alimentam e cultivam intimidade com o Senhor, isto é, pessoas que têm uma vida de oração pessoal, que adotam a prática da meditação frequente, da leitura dos santos místicos da Ordem como Boaventura e outros.

9. A OFS não se constitui como um grupo de casais ou de famílias. É aberta a todos: solteiros, casados, viúvos. Temos o direito de imaginar que as fraternidades de amanhã tenham um número razoável de casais. Estaremos assim dando nossa colaboração para formar Igrejas domésticas com as cores evangélico-franciscanas. Poucas espiritualidades são tão propícias para a formação de novas famílias em nossos tempos.

10. Na medida em que nossas fraternidades franciscanas seculares estiverem antenadas no ar do tempo, desejosas de maneira bem prática de dialogar com esse mundo terão chances de seres espaços buscados e apreciados. Em reuniões, encontros, os franciscanos seculares haverão de buscar refletir sobre certas sombras: indiferença, superficialidade, consumismo, relativismo, falta de cuidado com nossa casa comum, política, atenção especial a ser dada aos mais frágeis. Seremos um laicato profético, questionador, atuante. O lugar dos franciscanos seculares não é a sacristia, mas o mundo.

11. Fazemos agora um elenco de posturas evangélico-franciscanas que precisam estar estampadas na vida dos franciscanos seculares e que, automaticamente constituem propaganda vocacional e renovação das fraternidades:

• postura de simplicidade;
• sensibilidade para com o irmão (amar como uma mãe que ama seu filho);
• não querer sobrepor-se aos outros;
• não extinguir o Espírito;
• trabalhar e a agir sem perder o espírito da santa oração;
• ir pelo mundo e, ao mesmo tempo, ter saudade do eremo;
• exercitar-se na práxis da desapropriação;
• saber extasiar-se das coisas simples: a beleza de uma criança, o encanto da natureza e a delicadeza de um ninho de beija-flor;
• saber levar as coisas ao fundo do coração como Maria;
• aderir ao projeto pastoral do Papa Francisco, colocando-nos numa Igreja em saída.

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Para onde sopram os ventos?