Liturgia dominical: Sair de si para ir ao encontro de Deus

Frei Gustavo Medella

Na Filosofia de Nietzsche há o conceito de Übermensch, traduzido por muitos como Super-homem, mas também podendo ser designado por Além do homem. Fazendo-se uma espécie de “apropriação indébita” do conceito para aplicá-lo ao Evangelho deste 7º Domingo do Tempo Comum (Mt 5,38-48), o convite de Jesus é também para que seus seguidores “saiam de si”, extrapolem as próprias medidas na direção de se tornarem mais parecidos com Deus, conforme pede o próprio Senhor na 1ª leitura (Lv 19,2b): “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”.

A proposta é exigente e quem a assume percebe aos poucos a valentia surpreendente que se expressa na não-violência (oferecer a face esquerda a quem lhe bateu na direita), a riqueza interior necessária à prática do desapego exterior (oferecer também o manto para quem ambiciona sua túnica), a liberdade para percorrer um caminho que não se sabe bem onde vai dar (percorrer dois quilômetros com alguém que lhe obriga a caminhar dois).

Não-violência, desapego e liberdade: exercitando-se nestas três virtudes, o discípulo vence os próprios condicionamentos e passa a enxergar diante de si um horizonte mais amplo e a perceber a amplitude e a abrangência da ação e da presença de Deus, “que faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45). É só a partir da compreensão e da vivência profunda da espiritualidade cristã que o fiel consegue dar passos que, sozinho, dificilmente conseguiria dar: amar os inimigos e rezar pelos que o perseguem.

Atitudes que parecem ilógicas ao bom senso são propostas por Jesus como sinal de uma maturidade só alcançável por quem de fato se lança sem reservas ao seguimento do Mestre. É claro que não se chega neste estágio da noite para o dia. Trata-se de um percurso a se realizar, onde cada passo pode e deve ser celebrado com alegria e gratidão.