Vida CristãFrei AlmirSagrado Coração de Jesus › 03/03/2017

Pouca fala e muito silêncio. Instantes finais no alto da cruz.

sexta_030317

Os instantes finais do Profeta de Nazaré

Ele vive, ele é o ressuscitado. No universo da fé convivemos com Jesus ao longo de todos os nossos dias. Não o colocamos nos espaços etéreos, nas estrelas ou não sei onde. Ele é o ressuscitado. Está em nosso meio. Sempre, na primeira sexta-feira de cada mês, temos gosto em contemplar o amor de Jesus que foi até o ponto de dar a vida, de morrer. No alto da cruz, no final de tudo, muito silêncio, pouca fala e muita entrega.

O silêncio de Jesus durante suas últimas horas impressiona. Segundo os especialistas, no final, no entanto, ele quebra o silêncio “lançando um forte grito”. “Pelas três da tarde Jesus gritou com voz forte: Eloí, Eloí, lemá sabachthani! O que quer dizer: Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?” (Mc 15,34). Esse grito inarticulado é a recordação mais segura da tradição. Os cristãos nunca o esqueceram. Lucas o ignora. Diz que Jesus grita: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. De acordo com João, pouco antes de morrer, Jesus diz: “Tenho sede”. Depois de beber o vinagre que lhe ofereceram, exclamou: “Tudo está cumprido”.

Tudo foi trágico. A violência da prisão, a flagelação, os pregos, os insultos, o cansaço. Abandono total. E, lá no fundo, ele sente a ausência do Abba. Penso nesses soldados no campo da guerra e nos espaços de concentração. Seres que chegam ao limite das forças, cheios de sede, cheios de saudade da vida, saudades da mulher e dos filhos, da singeleza das festas de natal, das noites de inverno em casa, da capelinha de Nossa Senhora das Vitórias. O sofrimento de Jesus e o sofrimento dos homens.

“Meu Deus…meu Deus…”. Pagola assim escreve: “Jesus morre numa solidão total. Foi condenado pelas autoridades do templo. O povo não o defendeu. Os seus fugiram. Ao seu redor só ouve zombarias e desprezo. Apesar de gritos ao Pai no horto de Getsêmani, Deus não veio em sua ajuda. Seu Pai querido o abandonou a uma morte ignominiosa. Por quê? Jesus não chama Deus de Abbá, Pai, sua expressão habitual e familiar. Chama-o de Eloi (meu Deus), como todos os seres humanos. Sua invocação não deixa de ser uma expressão de confiança: Meu Deus! Deus continua sendo seu Deus, apesar de tudo. Jesus não duvida de sua existência, nem de seu poder para salvá-lo. Queixa-se de seu silêncio: onde está? Por que se cala? Por que o abandona no momento em que mais precisa dele? Jesus morre na noite mais escura. Não entra na morte iluminado por sua revelação sublime. Morre com um “por quê” nos lábios. Tudo fica agora nas mãos do Pai” (J.A Pagola, Jesus. Aproximação História, Vozes, p. 483-484).

Frei Almir Guimarães