Vida CristãLiturgia dominical

2º Domingo de Páscoa – Ano A

2-DTP-830

Jesus ressuscitado está vivo na comunidade

1ª Leitura: At 2,42-47
Sl: 117
2ª Leitura: 1Pd 1,3-9
Evangelho: Jo 20,19-31

-* 19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.

21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.»

A comunidade é testemunha de Jesus ressuscitado -* 24 Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos disseram para ele: «Nós vimos o Senhor.» Tomé disse: «Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.»

26 Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 27 Depois disse a Tomé: «Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé.» 28 Tomé respondeu a Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!» 29 Jesus disse: «Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto.»

Para que João escreveu este evangelho? -* 30 Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. 31 Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome.


* 19-23: O medo impede o anúncio e o testemunho. Jesus liberta do medo, mostrando que o amor doado até à morte é sinal de vitória e alegria. Depois, convoca seus seguidores para a missão no meio do mundo, infunde neles o Espírito da vida nova e mostra-lhes o objetivo da missão: continuar a atividade dele, provocando o julgamento. De fato, a aceitação ou recusa do amor de Deus, trazido por Jesus, é o critério de discernimento que leva o homem a tomar consciência da sentença que cada um atrai para si próprio: sentença de libertação ou de condenação.

* 24-29: Tomé simboliza aqueles que não acreditam no testemunho da comunidade e exigem uma experiência particular para acreditar. Jesus, porém, se revela a Tomé dentro da comunidade. Todas as gerações do futuro acreditarão em Jesus vivo e ressuscitado através do testemunho da comunidade cristã.

* 30-31: O autor conclui o relato da vida de Jesus, chamando a atenção para o conteúdo e a finalidade do seu evangelho, que contém apenas alguns dos muitos sinais realizados por Jesus. E estes aqui foram narrados para despertar o compromisso da fé que leva a experimentar a vida trazida por Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

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A fé apostólica, que é nossa

Nos domingos depois da Páscoa, a liturgia nos põe em contato com a primeira comunidade cristã (as primeiras leituras são uma seqüência de leituras de At) e com a “suma teológica”do século I, o evangelho de João. As segundas leituras são tomadas de outros escritos muito significativos quanto aos temas batismais e da fé; no ano A, a Primeira Carta de Pedro. Especialmente o 2° domingo pascal está completamente marcado pelo tema da fé batismal, proclamada no domingo anterior. Os fiéis são “como crianças recém-nascidas” (canto da entrada), e reza-se por um mais profundo entendimento do mistério da ressurreição e do batismo (oração final). Neste tempo, não existe, necessariamente, uma estrita coerência temática entre as três leituras. Porém, todas elas nos fazem participar do espírito do mistério pascal.

A 1ª leitura nos apresenta o ideal da comunidade cristã: a comunidade primitiva dos cristãos de Jerusalém. A descrição de At 2,42-47 acentua especialmente a comunhão dos bens, que corresponde ao sentido do partir o pão – comemoração do Senhor Jesus. Tanto esta comunhão perfeita como os prodígios operados pelos apóstolos serviam de testemunho para os demais habitantes de Jerusalém, testemunho que não deixava de ter sua eficácia. Esta leitura é, portanto, mais do que um documento histórico sobre os primeiros tempos depois da Páscoa: é um convite para restabelecermos a pureza cristã das origens. O salmo responsorial evoca “as tendas onde moram os justos”…

A 2ª leitura é tomada da 1ª Carta de Pedro, que é uma espécie de homilia batismal. Na perspectiva de seu autor, a volta gloriosa do Senhor estava próxima; os cristãos deviam passar por um tempo de prova, como ouro na fornalha, para depois brilhar com Cristo na sua glória. Nesta perspectiva, a fé batismal se concebe como antecipação da plena revelação escatológica: é amar e crer naquele que ainda não vimos, o coração já repleto de alegria com vistas à salvação que se aproxima (e que já é alcançada na medida em que a fé nos coloca em verdadeira união com Cristo).

O evangelho narra a aparição aos Apóstolos no dia da Páscoa e o episódio de Tomé, oito dias depois. Como a primeira parte (Jo 20,19-23) volta no dia de Pentecostes (dom do Espírito Santo pelo Ressuscitado), podemos acentuar mais, hoje, a segunda e a terceira parte (v. 24-29 e 30-31). Na segunda parte, vemos repetir-se o encontro pascal com o Ressuscitado, especialmente para Tomé, que quis ver e apalpar o Senhor. É-lhe dado experimentar a realidade do Ressuscitado, aliás, do Crucificado, pois o que ele apalpa são as marcas do seu sofrimento. Proclama a sua fé, torna-se um verdadeiro fiel. Mas há outros, a quem não será dado esse tipo de provas que Tomé requereu e recebeu; eles terão de acreditar também, e são chamados felizes por crerem sem terem visto. Esses “outros” somos todos nós, cristãos das gerações pós-apostólicas. Mas, em vez de provas palpáveis, a nós é transmitido – explica a terceira parte, v. 30-31 – testemunho escrito das testemunhas oculares, de tudo quanto Jesus fez, para que nós creiamos e, crendo, tenhamos a vida em seu nome (pois, para João, quem crê já tem a vida eterna; cf. Jo 5,24).

Resumindo: a fé da comunidade apostólica é nossa. Através da comunidade apostólica (evocada na 1ª leitura), nós somos tornados partícipes da fé, antecipação da comunhão eterna com Cristo e nossa salvação. E, voltando ainda uma vez o olhar Tomé, o dito “incrédulo”, não esqueçamos que ele é o representante da “geração privilegiada”, que passou sua fé aos que não viram. Oxalá possamos exclamar com ele: “Meu Senhor e meu Deus”.

Este domingo é o antigo domingo “in albis”, em que os batizados da noite pascal depunham as vestes brancas do batismo, encerrando a oitava da Páscoa. O tema batismal marca a oração final (inspirada em 1 Jo 5,7-8, atualmente 2ª leitura no ano B): as três testemunhas de nossa fé: água, sangue e espírito. A oração do dia pede para progredirmos na compreensão destas “testemunhas, isto é, dos mistérios básicos da nossa fé, os “sacramentos da iniciação cristã”: batismo, eucaristia e confirmação.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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Nossa fé “apostólica”

Todo mundo gosta de ter provas palpáveis para acreditar. Mas, para que ainda acreditar, quando se tem provas palpáveis? E que certeza dão as pretensas provas? Nossa fé não vem de provas imediatas, mas da fé das “testemunhas designadas por Deus”(At 10,41), principalmente os apóstolos. Acreditamos naquilo em que eles acreditaram. Os apóstolos foram as testemunhas da ressurreição de Jesus. Eles puderam ver o Ressuscitado e por isso acreditaram. Caso típico é Tomé
(evangelho). Ele foi até convidado por Jesus a tocar nas chagas das mãos e do lado. O evangelho não confirma que ele tocou mesmo, mas sim, que ele creu: “Meu Senhor e meu Deus”.

Nós não temos este privilégio. Nós seremos felizes se crermos sem ter visto, como diz o fim dessa história (Jô 20,29)! Mas, para que isso fosse possível, os apóstolos nos deixaram os evangelhos, testemunho escrito do que eles viram e da fé no Cristo e Filho de Deus que abraçaram (Jô 20,30-31).

O Cristo descrito nos evangelhos é visto com os olhos da fé dos apóstolos. Um incrédulo o veria bem diferente. Nós cremos em Jesus assim como os apóstolos o viram. A participação na fé dos apóstolos nos dá a possibilidade de “amar Cristo sem tê-lo visto” e de “acreditar nele (como Senhor e fonte de nossa glória futura), embora ainda não o vejamos “ (2ª leitura).

Acreditamos também na comunidade que, nessa fé, os apóstolos fundaram. A 1ª leitura descreve-a como comunidade de oração e de vida, recordando Jesus na “fração do pão” e praticando a comunhão de bens, repartindo tudo entre si. Pois para ser fiel a Cristo não basta orar e celebrar; é preciso fazer o que ele fez: repartir a vida com os irmãos.

Nós acreditamos na fé dos apóstolos e da Igreja que eles nos deixaram. Então, nossa fé não é coisa privada. É apostólica e eclesial. Damos crédito à Igreja dos apóstolos. Os primeiros cristãos faziam isso até materialmente: entregavam os seus bens para que ela os transformasse em instrumentos do amor do Cristo. Crer não é somente aceitar verdades. É agir segundo a verdade do ser discípulo e seguidor do Cristo.

É inútil querer verificar e provar nossa fé sem passar pelos apóstolos e pela corrente de transmissão que eles instituíram, a Igreja. É impossível verificar por evidências encontradas ou forjadas fora do ambiente dos evangelhos a ressurreição de Cristo. Ora, o importante não é “verificar” ao modo de Tomé, mas viver o sentido da fé que os apóstolos (inclusive Tomé) tiveram em Jesus e a nós transmitiram.

A fé dos apóstolos exige de nós que creiamos em seu testemunho sobre Jesus morto e ressuscitado, ou seja, que adiramos à mesma fé. E exige também que pratiquemos a vida de comunhão fraterna na comunidade eclesial, que brotou de sua pregação.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes