A fragilidade das ovelhas sem pastor

Frei Gustavo Medella

 “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” Mt 9,36.

No Domingo em que Jesus se compadece das multidões cansadas e vê nelas ovelhas que não têm pastor, procuremos olhar a partir de uma perspectiva mais racional e justa a situação de milhões de brasileiros que vivem na chamada “situação de vulnerabilidade social”. De acordo com o dicionário, a palavra vulnerável significa alguém ou algo que esteja ferido, sujeito a ser atacado, derrotado, ofendido. Vulnerabilidade social quer dizer, portanto, uma situação de carências múltiplas (alimento, educação, saúde, saneamento básico, trabalho, cultura, estrutura familiar etc) que reduz drasticamente as boas expectativas daqueles que a vivem.

Com arte e realismo, na canção “Problema Social”, Seu Jorge ilustra o destino de um garoto que nasceu e cresceu num ambiente de vulnerabilidade social: “Se eu pudesse eu dava um toque em meu destino, não seria um peregrino nesse imenso mundo cão. E nem o bom menino que vendeu limão e trabalhou na feira pra comprar seu pão. Não aprendia as maldades que essa vida tem. Mataria a minha fome sem ter que roubar ninguém. Juro que eu não conhecia a famosa Funabem, onde foi a minha morada desde os tempos de neném. É ruim acordar de madrugada pra vender bala no trem. Se eu pudesse eu tocava em meu destino, hoje eu seria alguém”.

O mesmo drama é recordado pelo Papa Francisco, em sua mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres, divulgada no dia de Santo Antônio deste ano, 13 de junho de 2017: “Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes setores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade”.

Embora seja responsabilidade do Estado a atenção aos itens básicos que faltam a tantas ovelhas que jazem como se não tivessem pastor, cabe a Igreja ir ao encontro delas, ouvi-las, ampará-las, compreendê-las e, junto a elas, lutar por uma “nova visão da vida e da sociedade”, conforme diz o Papa Francisco. Não se pode conceber que um cristão maduro e consciente caia em falácias da meritocracia, que apregoa a força de vontade e a determinação como suficientes para garantir o sucesso de alguém, ou daquele discurso desgastado de que, “mais importante que dar o peixe é ensinar a pescar”. É claro que é fundamental que se criem condições para que um garanta o próprio sustento. No entanto, nem sempre é frutuoso e eficiente pescar com uma varinha de bambu numa lagoa onde poucos pescam com rede, tarrafa e navios pesqueiros. As ovelhas sem pastor devem ser sempre uma provocação para os discípulos de Jesus Cristo.