Vida CristãArtigos › 19/06/2017

Ser feliz com o pouco

francisco_190617

Frei Luiz Iakovacz (*)

Já antes da Encíclica Laudato Sí ser publicada pelo Papa Francisco em maio de 2015, os dois últimos Capítulos Gerais da OFM (2009 e 2015) enfatizaram a real necessidade de se estabelecerem “relações fraternas concretas no cuidado da criação”.

O de 2015 deliberou dois mandatos: “Que o Definitório Geral publique um subsídio com sólida base bíblica, eclesial, franciscana e científica, e dê orientações para que as entidades possam responder aos desafios ecológicos de hoje”. O outro “Cada Entidade […] prepare um programa para que o Cuidado com a Criação faça parte do nosso estilo de vida e da atividade pastoral e social” (Decisões Capitulares, 10-11).

Em julho/2016, o Definitório Geral publicou o subsídio “O Grito da Terra e o Grito dos Pobres”, enviou-o a todas as Províncias, juntamente, com o apelo de que, nos Capítulos Locais e/ou Regionais, cada fraternidade determine ações concretas a serem assumidas.

Nesta Província, os Regionais dos frades estão estudando o subsídio e pretendem continuar a reflexão, não só pela importância do próprio tema, mas também, porque ajuda a avaliar nosso estilo de vida.

A revista Vida Franciscana de dezembro de 2016 traz, na íntegra, o texto prefaciado pelo Ministro Geral Frei Michael Perry.

O subsídio “O Grito da Terre e o Grito dos Pobres” tem consciência que a preservação do meio ambiente é complexa e que a maior responsabilidade cabe à ciência e às políticas governamentais. Infelizmente, ambas são reféns do capitalismo.

Mesmo assim, afirma que não podemos nos eximir, pois “se olharmos ao nosso redor, temos que reconhecer que existe uma deterioração da nossa casa comum. O espírito que anima este documento é olhar ao nosso redor e ajudar-nos abraçar um novo estilo de vida” e faz um apelo “à conversão ecológica do coração, levando-nos a viver uma vida sóbria, moderada e de frade menor. Nisto consiste a alegria de ser feliz com o pouco” (VF p.3). Citando o apóstolo Paulo, São Francisco escreve, na Regra: “Nada mais precisamos do que o necessário para nos alimentar e vestir; e queremos estar contentes com isso” (Rnb 9,2).

Após a fundamentação bíblica, eclesial, franciscana e científica – como pede o Capítulo Geral – o subsídio, através de perguntas, orienta a práxis do nosso dia a dia, na fraternidade.

Sobre a água, por exemplo, nos fala do desperdício, das instalações mal feitas, da hora de regar a horta/jardim e similares.

Da energia, mostra a importância do ligar e desligar a luz, do uso de eletrodomésticos e aparelhos de baixo consumo, de utilizar melhor a luz natural e similares. Sobre o lixo e resíduos, questiona o uso do descartável, plásticos, da reciclagem e similares. Ao falar do papel, pede moderação no seu consumo e impressão, e de otimizá-lo melhor (frente/verso) etc; isto porque a “planta que o produz cresce rápido, com o perigo da desertificação e de alterações ecológicas”.  No transporte, cita os gases efeito estufa e a poluição que provoca doenças respiratórias; há necessidade de rever o uso dos carros, utilizando mais os transportes públicos, bicicletas e o próprio andar a pé. Da alimentação, o subsídio alerta sobre o desperdício, o excesso de carnes/gorduras/doces e sugere o consumo de alimentos naturais (VF, p. 49-54).

Tudo isso, parece não coadunar com um documento oficial, dirigido a pessoas de curso superior. O subsídio, porém, tem sua razão de ser porque o objetivo não é relatar o óbvio, mas “discutir, nas fraternidades, sobre o estilo de vida em relação ao meio ambiente. Em geral, pensamos que todos os apelos são em relação ao mundo exterior; porém, o primeiro apelo é para nós mesmos e a própria fraternidade” (VF, p. 46).

O Papa Francisco chama isso de ‘espiritualidade ecológica’ e nos “convida a reconhecer que devemos ser menores e sujeitos a todos, incluindo, a criação” (LS 118).

Para mim, pessoalmente, a natureza sempre me fascina. Nela, Francisco de Assis encontrou um lugar ideal para refletir e viver “um novo estilo de vida”. Ele a amava por ser obra de Deus e não por motivos interesseiros, isto é, cuidava dela, caso contrário, nós seríamos os primeiros prejudicados.

Os três pastorzinhos de Fátima – Lúcia, Jacinta e Francisco – estão, intimamente, ligados à natureza, especialmente o pequeno Francisco que gostava de estar sozinho, no silêncio da mata. Recordo-me da minha infância e dos trabalhos na roça onde, seguidamente, via-me surpreendido por uma bonança inexplicável no contato com a natureza. Foi ali que nasceu minha vocação religiosa. Ela veio, não por convite de frades, das orações de minha mãe ou de um desejo pessoal. Nasceu, espontaneamente, sem me dar conta e, com apenas 11 anos, entrei no Seminário e nunca pensei em desistir. E se persisto nessa caminhada, é pela a graça de Deus e, não tanto, por méritos próprios. Em louvor de Cristo, amém!

Frei Luiz Iakovacz é frade missionário na Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola.