O CarismaNotícias › 25/07/2017

Vida reencontrada de Francisco de Assis – parte final

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Jacques Delarum, erudito pesquisador das Fontes Franciscanas,  fez com que viéssemos a tomar conhecimento, nesse campo, de uma descoberta importante: uma vida de Francisco de Assis  antiga, reencontrada, que seria também da autoria de Tomás de Celano. Desse achado, anteriormente, já havíamos traduzido e transcrito aqui cinco leituras para o ofício coral.  Agora vão as 4 outras que faltavam.

CONFIRA O PRIMEIRO ARTIGO NESTE LINK!

 Como, tendo sido  jogado na neve, depois disso serviu aos leprosos.

Como reconstruiu três igrejas e mudou de veste pela segunda vez e buscando a perfeição evangélica  teve companheiros  e reconheceu neles Espírito de Deus em ação.

 Sexta leitura

Uma vez cessada a perseguição paterna, Francisco usando de vestes como que de trapos, ele que antes usava trajes preciosos, certa vez,  quando cantava em francês os louvores do Senhor, atravessando uma floresta, caiu nas mãos de bandidos. A esses que perguntavam sem delicadeza alguma quem ele era, respondeu com confiança: “Eu sou o arauto do grande Rei!”. Dando-lhe violentos socos, os bandidos jogaram-no numa vala cheia de neve. “Deitado, dizem eles, reles camponês  que és arauto de Deus”. Dando-se conta que os bandidos tinham ido embora, sacudindo a neve, todo feliz, pulou fora da valeta. Chegando a uma casa de monges, foi tido por alguém sem valor, autorizado apenas a servir na cozinha na qualidade de criado. Como ninguém manifestasse piedade por sua nudez, impulsionado pela necessidade, saindo dali conseguiu uma simples túnica de um de seus antigos amigos da cidade de Gubbio.  O prior do mosteiro acima aludido, tendo  tomado conhecimento da reputação do homem de Deus, lembrando-se do que se havia feito com ele,  lamentou muito  e humildemente pediu perdão.

 Sétima leitura

Depois disto, o amante de toda humildade se transferiu para o meio dos leprosos; lavando humildemente as úlceras, não tinha medo de enxugar o pus de seus corpos.  Em outros tempos, quando os avistava de longe ou via suas casas, fechava o nariz com as mãos. Mas um dia,  ainda com roupa secular, mas já tendo sido visitado pela graça de Deus, cruzando com um leproso, conseguiu maravilhosa  vitória sobre si mesmo,  e ele o abraçou.  Assim, ardendo cada vez  de desprezo de si mesmo, foi  mais e mais  progredindo nesse empenho. Permanecendo ainda no século,  procurava satisfazer as necessidades de outros pobres, acreditando ser indigno recusar esmola a quem pedisse pelo amor de Deus.  No primeiro ano de sua conversão o bem-aventurado Francisco restaurou  com grande zelo, a igreja de São Damião, de construção antiga, naquele momento reduzida a ruínas.  Foi neste lugar, quando já se tinham passado quase seis anos da conversão  do bem-aventurado Francisco, que a bem-aventurada  religião das Damas Pobres ganhou seu início pelo empenho deste bem-aventurado homem. Estas mulheres de santo comportamento e vida magnífica deveriam ser realçadas neste escrito. Para que esse elogio fosse feito seria preciso uma obra à parte e  tempo para executá-la.

 Oitava leitura

Em seguida, o bem-aventurado pai restaurou, da mesma forma,  outra igreja  em ruínas nos arredores  da cidade de Assis.  Transferindo-se para um lugar conhecido como Porciúncula, pôs-se a reconstruir uma igreja da bem-aventurada Virgem Mãe, em ruínas ou quase inteiramente destruída. Não descansou antes que tal propósito  fosse  realizado.  Era o terceiro ano depois de sua conversão. Por esse tempo ele usava um hábito de eremita, com um cinto, levando um bastão à mão e com calçados nos pés. Certo dia, no entanto, quando se lia nesta igreja o evangelho  que fala do modo como o Senhor havia enviado seus discípulos a pregar, escutando e compreendendo que os discípulos de Cristo não podiam possuir  nem ouro, nem prata, nem moedas, nem deviam levar  bolsa ou alforje, nem pão, nem bastão, nem ter calçados, nem duas túnicas, mas pregar o Reino de Deus e a penitência, o bem-aventurado Francisco, cheio da graça do Espírito  Santo, disse:  “É isso que eu quero, isso que desejo realizar com todas as minhas entranhas”. Desamarrou imediatamente as sandálias dos pés, pôs de lado o bastão e contentou-se com uma única túnica bastante vil, substituindo a correia por um cordão. Tudo o mais que ele havia ouvido a respeito da perfeição evangélica, procurou, enquanto viveu  observar à letra  com a mais elevada diligência.

 Nona leitura

Em seguida, cheio de grande fervor de espírito, pôs-se a pregar a penitência, através de palavras simples certamente, mas com um coração magnífico. Cada vez que ele propunha a Palavra de Deus às pessoas que se reuniam, como o Senhor lhe havia revelado, antes de tudo anunciava a paz:  “Que o  Senhor vos dê a paz!”. Anunciava esta paz aos homens e às mulheres, e fazia a todos que encontrava. Graças a isto, muitos que haviam odiado a paz e a salvação,  com a ajuda do Senhor,  abraçaram a paz de todo o coração, fazendo-se eles também filhos da paz e discípulos da salvação eterna. Entre eles, Frei Bernardo, da cidade de Assis, correu por primeiro no seguimento do santo de Deus.  Vendendo todos os seus bens e distribuindo o produto aos pobres, realizou o conselho do santo Evangelho buscando uma vida perfeita: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; vem e segue-me”. Seis outros homens, imitando esse modelo associaram-se pela vida e pelo hábito ao bem-aventurado Francisco. O feliz pai, com toda vigilância e solicitude, ensinava-lhes cada dia a compreenderem o essencial da vida e lhes formava no sentido de seguirem com passo firme a santa pobreza  e a bem-aventurada  simplicidade.

Como ele ardesse de suprema devoção no amor de Deus e desejasse com todo o seu espírito o progresso de seus filhos, um dia  dirigiu-se a um lugar de oração, como fazia costumeiramente. Como permanecesse muito tempo possuído pelo sopro da  compunção sagrada e pensava, com amargura na alma no mal que havia feito, uma doçura indizível e uma alegria que até então  ele nunca ele tinha experimentado  irrigaram toda a secura de seu coração, aquecendo a friagem e iluminando a obscuridade.  Desprendendo-se de si mesmo foi arrebatado  acima de si e totalmente envolto numa luz.  Depois de ter recebido, sem sombra de dúvida, a remissão de seus pecados, perscrutando o seu espírito, nitidamente viu o que ia se produzir.  A respeito do que vivenciou  relatou alguns pontos indispensáveis aos seus irmãos, dizendo:  “Como agora me foi mostrado pelo Senhor, irmãos e filhos, Deus nos fará crescer em  imensa  multidão e nos dilatará em grande número até os confins da terra.  Vi uma multidão de homens vindo a nós,  vivendo conosco  sob  o manto de santo comportamento, percorrendo conosco o mesmo caminho que começamos a empreender.  Vi uma grandíssima multidão de quase todas as nações confluir nessas regiões e o som ainda está em meus ouvidos. Chegam os franceses, apressam-se  os alemães, acorrem os ingleses e  de diversas outras línguas se sucedem as nações”. Quando os irmãos ouviram isto, ficaram cheios de alegria salutar, tanto pela graça que o Senhor Deus havia concedido ao seu santo quanto pela sede ardente de ganhar os próximos, que desejavam que fossem numerosos,  todos os que pudessem participar da mesma salvação.

Tradução: Frei Almir Guimarães