Vida CristãArtigos › 26/07/2017

O centenário de Fátima e a canonização de crianças

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Frei Luiz Iakovacz (*)

A Bíblia, seguidamente, relata diversas maneiras de Deus se revelar aos homens, mostrando-lhes qual é sua vontade. Às vezes, Ele mesmo faz, como no episódio da “sarça ardente” (Ex 3,1-22). Outras vezes, revela-se através de sinais visíveis, como a nuvem no Monte Horeb, através da qual foram proclamados os mandamentos (Ex 19,9–25), ou da Arca da Aliança que conduziu Israel à Terra Prometida (Nm 10,33).

Manifesta-se, também, em sonhos e visões como São José para que acolhesse Maria, e na fuga ao Egito (Mt 1,20; 2,13). O livro do profeta Naum (Na 1,1), bem como grande parte do Apocalipse (Apoc 1,1–3. 9 – 11) são escritos a partir de visões. Deus envia seu Anjo para acompanhar Tobias em sua viagem (Tb 5,22) e é ele quem anuncia os nascimentos de João Batista e de Jesus (Lc 1,11–12. 26).

E, acima de tudo, manifesta-se através de seu Filho, “imagem visível do Deus invisível” (Cl 1,15) que se “fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). O próprio Cristo aparece como Ressuscitado a Madalena (Mc 16,9), aos apóstolos (Lc 24,26) e a mais de quinhentos discípulos (1 Cor 15,6).

Outros textos poderiam ser acrescentados e nos ajudariam a compreender as muitas “aparições” das quais muito se fala, especialmente, as de Nossa Senhora. Desta, há inúmeros relatos, mas a Igreja reconhece apenas dezesseis (16). Dentre eles está o de Nossa Senhora Aparecida que, em outubro, comemorará 300 anos.

Em Portugal, há as aparições de Fátima, cujo início aconteceu em 13 de maio de 1917, portanto, a cem anos atrás. Ela apareceu a três pastorinhos Lúcia, Jacinta e Francisco. Os dois últimos são irmãos carnais e sobrinhos de Lúcia. Esta morreu, recentemente (2005), como Carmelita Descalça, com 97 anos. Os outros dois partiram em idade pueril, vítimas de uma epidemia broco-pneumônica: Francisco, com onze anos (1908 – 1919) e Jacinta, dez (1910 – 1920). Foram canonizados aos 13 de maio de 2017, no centenário de Fátima.

Na história da Igreja, é a primeira vez que se canonizam crianças não-mártires. O milagre que se lhes atribuíram, foi a cura de uma criança brasileira. Na ocasião, a frase “duas crianças cuidaram de uma criança” criou um impacto emocional muito grande. Quem a escreveu foi a postuladora Ir. Ângela de Fátima, licenciada na Faculdade de Medicina do Porto.As aparições são atípicas, não só por envolverem crianças, mas também porque se sucedem durante seis meses seguidos (maio a outubro), no mesmo dia e local. Neste contexto, é normal que, em cada dia 13, muitos se aglomerassem na Cova da Iria, uns, bem intencionados, outros, descrentes ou curiosos. Alguns ouviam e viam o “diálogo da Senhora com os pastorinhos”, os demais, não. Foi o motivo para que houvesse controvérsias.

O fato é que as romarias aumentaram e construiu-se um grande centro de devoção mariana que, anualmente, atrai mais de seis milhões de peregrinos, segundo estatísticas de 2015.

O santuário foi visitado seis vezes pelos Papas: Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991, 2000), Bento XVI (2010) e Papa Francisco (2017) – todos no dia 13 de maio.

Há uma tradição litúrgica, 10 de junho, em que se celebra a festa de “Santo Anjo da Guarda de Portugal”, também chamado Anjo da Paz. A partir de 2016, esta devoção cresceu entre os fiéis porque  ele apareceu aos três pastorinhos recomendando-lhes oração e penitência. Esses mesmos apelos são renovados nas aparições de Nossa Senhora, incentivando a reza diária do terço e o sacrifício/penitência pela conversão dos pecadores. (É o período final da Primeira Guerra Mundial 1914 – 1918).

Parece estranho que os apelos de mais oração e sacrifícios sejam feitos a crianças que, de boa vontade, se comprometem com o pedido. Porém, se olharmos seu ambiente familiar, percebe-se que está “dentro da normalidade”. É o que lembra a postuladora da canonização. As famílias dos pastorinhos moravam em Aljustel, pequena comunidade de Fátima (tornou-se município em 1997) “modestas e pacatas, mas modelo de participação ativa na vida local, terço diário em família, respeito por todos e caridade para com os pobres”. As três crianças “pastoreavam durante a maior parte do dia, brincavam e rezavam o terço, após o lanche”, continua a postuladora.

Descreve, também, o jeito de ser de cada um. Francisco era introspectivo e gostava do silêncio. Por isso, demorava-se nas visitas à Igreja, no contato com a natureza, ficando absorto com ela e nela. Ele mesmo dizia: “Sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como era”.

Jacinta era mais expansiva, “gostava de partilhar sua merenda escolar e oferecia seus sofrimentos pela conversão dos pecadores”.

Tanto o Anjo da Paz como Nossa Senhora lhes fazem a pergunta: “Quereis oferecer-vos a Deus”?! Mediante resposta afirmativa, lhes diz: “Ireis sofrer muito, mas a graça de Deus será vosso conforto”.  As crianças sentem “seu coração arder” (Lc 24,32) e colocam Deus como centro de suas vidas. Assim escreve a postuladora: “Francisco e Jacinta não são santos porque foram protagonistas das visões e aparições em Fátima. São santos pela relação de amizade com Deus e pelo modo como se comprometeram em oferecer-se a Ele”.

Para concluir, uma breve reflexão sobre a “sarça ardente” (Ex 3,1 – 4,17). Moisés está pastoreando o rebanho e se aproxima para ver a árvore que se queimava sem se consumir. Ouve uma voz: “Tire a sandália porque este lugar é santo! (…) Eu te envio para libertar o meu povo”.

Deus sempre está relacionado com o sagrado e com a libertação do povo, do qual escuta os clamores. O sinal visível que realizará os milagres é o cajado. Ele engolirá as “serpentes dos adivinhos” e a mão estendida com o cajado concretizará as pragas da água em sangue, das rãs/moscas/mosquitos e das demais. O cajado dividirá o Mar Vermelho para que o povo escravizado passe à liberdade e destruirá o perseguidor. É com ele que, batendo na rocha, brotará água.

O que é o cajado? É o instrumento de trabalho do pastor, é o seu dia a dia. Foi com ele que Deus operou os milagres.

O mesmo acontece com a vida. Deus realiza verdadeiros milagres no nosso dia a dia, seja ele de alegrias ou de dores. Se, esporadicamente, nos comtemplar com outras maravilhas – saibamos agradecer ambas, mas privilegiemos as primeiras porque o nosso Deus é o “Deus nosso de cada dia”.


(*) Frei Luiz Iakovacz é missionário em Angola