Um jeito simples de viver

Leitura espiritual: Aprender a viver com simplicidade

Nossa Leitura Espiritual aborda o tema da simplicidade no viver de todos os dias. Somos membros de uma sociedade de contradições e marcada por sofisticação. Uns vivem na total abundância de bens, outros, na mais radical carência. Há relacionamentos sofisticados e complexos, com marcas de esnobação. Há as leis duras da sociedade de consumo que querem nos obrigar a seguir. Há esse desejo incontrolável de ter, ter e mais ter. Tudo se sofistica e, aos poucos, somos presas de uma sociedade profundamente perversa que inventa o novo para alimentar o consumismo. E consumimos bens e pessoas. De repente, o tema da pobreza evangélica se tornou de urgência urgentíssima. Como vamos nos situando diante dos bens? “Alguma coisa está errada na nossa vida cristã quando somos capazes de viver desfrutando despreocupadamente de nossas coisas, sem jamais sentir-nos interpelados pela mensagem de Jesus e pelas necessidades dos pobres” (José A. Pagola, Mateus, Vozes, p. 89).

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Uma certa escala de bens

Supérfluo – Temos coisas supérfluas, fazemos gastos supérfluos. O supérfluo não é nem conveniente, nem necessário. É excesso, é luxo, é demasiado. Sobra e faz mal. Muitos dos “consumistas” (estamos entre eles?) são pessoas que vivem em função do acumular e o fazem sem medida. A sociedade de consumo dilatou a margem do supérfluo no comer, vestir, distrair-se, descansar, desfrutar. Os desejos foram se transformando em necessidade. Quando uma sociedade facilita e favorece a uma parte de seus membros a satisfazer todos os seus desejos é certo que a outra parte não poderá satisfazer suas necessidades mais básicas. A sociedade atual inventou tantas necessidades que quando não as satisfazemos sentimos excluídos da vida e parece que não contamos. Para se ter muito, adota-se a filosofia do consumismo frenético. Há um supérfluo de coisas materiais e há um supérfluo interior, uma falta de pobreza de coração.

Conveniente – Existem coisas convenientes. Podem ser bens úteis para nosso trabalho, alimentação, descanso e saúde. O campo do conveniente oscila entre o necessário e o supérfluo. Trata-se daquilo que é adequado. Se vier a faltar não saímos fatalmente prejudicados. Ter um carro ou prosseguirmos estudos, viajar de avião ou de carro? O que sou, minha função, minha formação fazem que sejam conveniente ter algumas coisas. Um critério para possuir bens é a conveniência.

Necessários – Há bens necessários. São certamente os bens mais convenientes. Morar numa casa decente, ter o que comer não é luxo, mas necessidade. Com o necessário cobrimos as necessidades primárias e mais importantes da pessoa: comida, veste, saúde, teto e educação. O necessário não é contingente. A muitas pessoas falta o necessário para uma vida humana e digna. Haveremos sempre de nos de nos perguntar a respeito do que é verdadeiramente necessário. Os sábios adotam uma postura de discernimento e chegam a uma adorável simplicidade de vida, tudo com bom senso.

Indispensáveis – São aqueles bens sem os quais não se pode viver: água, comida, ar puro, saúde, companheiros de caminhada.

E qual é a solução? Nesses tempos, os homens sábios, vão se esforçar por adotar um estilo simples de vida.

Uma página instigante

“O consumismo penetra em nós de maneira sutil. Ninguém escolhe esta maneira de viver depois de uma séria reflexão. Vamos submergindo nela, vítimas de uma sedução quase inconsciente. A habilidade da publicidade e o atrativo da moda vão captando suavemente nossa vontade. Afinal parece-nos impossível viver de outra maneira.

Não é preciso pensar muito para saber como viver. Para muitas pessoas o projeto de vida é muito simples: trabalhar para ganhar dinheiro que é necessário para poder desfrutar de uns períodos de tempo (fim de semana, férias) nos quais se gasta o dinheiro ganho e se recuperam as forças para voltar a trabalhar (…).

Não é fácil libertar-se da escravidão do consumismo. Como dizia Erich Fromm: “O homem pode ser um escravo sem grilhões”. O consumismo não faz mais do que deslocar os grilhões do exterior para o interior. Por dentro estamos presos a um sem fim de caprichos e falsas ilusões. Esses grilhões interiores são mais fortes do que os se veem por fora. Como libertar-nos desta escravidão, se vivemos acreditando que somos livres?

Nossa vida é insensata. A obesidade e a anorexia que vemos em não poucas pessoas são imagem gráfica da letargia e da perda de vitalidade de muitos espíritos. Temos tudo e carecemos de paz e de alegria interior. Queremos viver triunfando, mas somos cúmplices da miséria e da fome de muitos” (Pagola, Mateus, Vozes, p.92-93).

Para que servem as coisas?

Com relação às coisas, a simplicidade, a sabedoria da simplicidade, deve nos levar à postura do desprendimento, postura de pessoas sábias e livres. Não somos escravos das coisas, nem servos da carne, da maneira mundana de ver as coisas. Somos mais do que os bens. Os recursos são instrumentos. Quando os bens são procurados por si mesmos levam-nos pelo caminho do materialismo. A opção pela simplicidade nos conduz a respeitar a terra, a recuperar o senso ecológico e a cuidar daquilo que recebemos. Há o grito da terra que exige respeito. Há a urgência de sermos homens e lutam por uma existência humana.

As coisas são úteis e servem para… Como tudo o que útil, bens e coisas serão buscados quando necessários. As coisas podem gerar avareza e por vezes avareza insaciável. Dinheiro chama dinheiro. Sua busca insaciável, como nos casos de corrupção em exame no país, leva ao poder, torna-se elemento de dominação, pisa nos outros. Vem a pergunta: “Onde está teu irmão?” E entre os cristãos ninguém é dono de ninguém. Uns lavam os pés dos outros. Os bens existem para… e desembocam na teia da solidariedade. As pessoas que buscam exclusivamente os bens se tornam escravas. As pessoas sábias adquirem o que precisam no momento exato sem permitir que o apetite pelos bens venha a esterilizar seu interior que deveria sempre ter saudade de Deus e de uma bela vida fraterna. Crescer em simplicidade de vida supõe capacidade de colocar ordem nas coisas, hierarquia em nossas opções, prioridades nas escolhas. Somos administradores dos bens que nos foram dados e não donos. Cuidamos de reparti-los. Simplicidade e verdade haverão de se fazer presente nos momentos das escolhas importantes da vida. “Conversão à simplicidade significa retorno ao Evangelho”.

Interrogações para reflexão

Por que há pessoas que morrem de fome se Deus pôs em nossas mãos uma terra que tem recursos suficientes para todos?
Por que temos que ser competitivos, em vez de sermos humanos?
Por que a competitividade tem que marcar a relação entre as pessoas e entre os povos, e não a solidariedade?
Por que temos que aceitar como algo lógico e inevitável um sistema econômico que, para conseguir o maior bem-estar de alguns, submerge tantas vítimas na pobreza e na marginalização?
Por que temos que continuar alimentando o consumismo como “filosofia de vida”, se ele está provocando em nós uma “espiral insaciável” de necessidades artificiais que vai nos esvaziando de sensibilidade e espírito humanitários?
Por que temos que continuar desenvolvendo o culto ao dinheiro como o único Deus que oferece segurança, poder e felicidade?
Será que é esta, por acaso, a “nova religião” que fará o ser humano de hoje progredir para níveis de maior humanidade?” (Pagola, Mateus, p. 90).

Textos de apoio:

La sencillez, el mejor servicio, José Maria Aranaiz, SM . Encarte Vida Nueva 2283.
• José A. Pagola, Deus ou Dinheiro, Mateus, Vozes, p. 87-94.