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Carta do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores

Queridas Irmãs, Paz e Bem!

Se a devoção fez que a santa Madre Beatriz trouxesse sempre o rosto coberto com um véu branco, a infinita bondade de Deus fez brilhar em toda a vida da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição a beleza da castidade virginal e a glória da santidade e, no tempo de sua morte, foi a mesma infinita bondade que acendeu na fronte da bem-aventurada Madre uma estrela que irradiava grande luz e resplendor, um sacramento do beijo de Deus na fronte da amada. Com esta carta de felicitações e de participação espiritual em vossa alegria, no dia da festa de Santa Beatriz, “com brevidade de sermão” (São Francisco, Regra bulada, IX,4), quero participar-vos, queridas irmãs, palavras de estímulo, que a todos nós ajudem a melhor servir ao Senhor, conhecê-lo melhor, amá-lo mais, ouvi-lo quando nos fala, vê-lo em seu corpo que é a Igreja, recebê-lo com as alegrias da caridade na Eucaristia e nos pobres.

O amor de Deus, razão de ser de nossa vida

Queridas: A vida de cada um de nós é um mistério de amor divino, pois do amor de Deus recebemos o que somos e, pela imitação de Cristo e sob a ação do Espírito Santo, encaminhamo-nos para a plenitude do amor de Deus todos os que fomos consagrados pelo batismo e, na Igreja, fizemos profissão de castidade, pobreza e obediência.

Como fiéis em Cristo, dizemos: “Vede com que grande amor o Pai nos amou, para sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato!” (1Jo 3,1). Totalmente dedicados a Deus pela profissão, em seu amor de predileção reconhecemos a fonte da graça que aqui nos justifica e da bem-aventurança que no céu esperamos alcançar. O amor de Deus, que nos inspira e nos chama, é a razão de ser de nossa vida. Ele nos amou primeiro (cf. 1Jo 4,10), e nós procuramos amá-lo de todo o coração.

A contemplação, caminho para a união com Deus

Leio em vossas Constituições: “A Ordem da Imaculada é integralmente contemplativa” (Const. Concep. 4). Quando falamos de contemplação, falamos do mistério ao qual nos achegamos com gozo e temor, com espanto e tremor, seduzidos pelo amor eterno de Deus. Pela graça da contemplação, o próprio Deus nos aproxima daquilo que não podemos compreender, do que não podemos pronunciar, pois nos aproxima do abismo de amor da Trindade Santa, da comunhão no amor com seu Filho Jesus Cristo, do milagre de amor realizado pela graça em nossa Senhora, a Virgem

Maria, do sacramento de unidade e de amor que, pela força do Espírito, é a santa Igreja. Pela graça da contemplação nos unimos a Deus com o espírito e o coração (cf. Perfectae Caritatis 5). A contemplação não é fonte de conhecimentos para o orgulho de quem muito sabe, mas fonte de comunhão para a humildade de quem tudo recebe. E assim, a contemplação é também fonte de louvor e de alegria, pois ambas brotam do reconhecimento da obra de Deus em seus pobres, em nós: “Minha alma engrandece o Senhor; e rejubila meu espírito em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,46-48).

Vossa missão na Igreja

Os padres do Concílio Vaticano II viram os contemplativos e a vós assim: “Os membros dos Institutos totalmente ordenados à contemplação dedicam todo o seu tempo exclusivamente a Deus na solidão e no silêncio, na oração assídua e na penitência ardorosa” (Perfectae Caristatis 7).

Os padres do Concílio viram a Deus como horizonte único de vossa vida e viram a vós como um sacramento do primeiro e principal mandamento da lei que devemos observar: “O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente, com todas as forças” (Dt 6, 4-5; cf. Mt 22,37). “O coração”, “a alma”, “a mente”, “as forças”, tudo parece estar recolhido

e resumido naquilo que o documento conciliar chama “seu tempo”, vosso tempo, quer dizer, vossa formosa vida. E em vossas Constituições o expressastes assim: “Fazendo-se escrava do Senhor, como Maria, em atitude contemplativa, a Concepcionista proclama a soberania absoluta de Deus” (Const. Concep. 15).

Os padres do Concílio viram também os lugares de vossa entrega e os chamaram de solidão e silêncio, oração assídua e penitência ardorosa.

Viram-vos na solidão e no silêncio, que, mais do que notas características da vida num mosteiro, são ornamento da alma, são interioridade reservada ao único Senhor, que é amor que tudo enche e palavra que tudo diz. E porque vos viram no segredo de vossa morada interior, viram-vos em oração assídua, pois ali, no esconderijo do coração, estais sempre a sós com Deus.

Solidão, silêncio e oração, lugares para a entrega dos contemplativos, devem ser preservados pela ação vigilante e perseverante da penitência, penitência alegre porque torna possível a felicidade do encontro com o Senhor.

Os padres do Concílio viram assim vossa missão no Corpo místico de Cristo: “(Os institutos contemplativos) oferecem a Deus um exímio sacrifício de louvor, honram o Povo de Deus com a abundância dos frutos de santidade, movem-no pelo exemplo, fazendo-o crescer por uma arcana fecundidade apostólica” (Perfectae Caritatis 7).

Na realidade, o olhar da Igreja, que antes se fixou na entrega de cada um dos contemplativos, agora se fixa no conjunto destes filhos e filhas para ela tão queridos, e vê subir ao céu, a partir de cada Instituto, um magnífico sacrifício de louvor, no qual ressoam harmoniosamente hinos, salmos e cânticos, leituras e responsórios, bênçãos e súplicas, clamores e silêncios.

A contemplação é o apostolado da concepcionista! (cf. Const. Concep. 15). Com os frutos de santidade que amadurecem abundantes na árvore da vida contemplativa, honrais o Povo de Deus, o moveis com o exemplo de vossa vida e o fazeis crescer por uma arcana fecundidade do grão de trigo que morre e dá muito fruto.

Vosso carisma particular

O carisma é como o Espírito, como “o vento, que sopra para onde bem entende; tu ouves o ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai” (Jo 3,8). Não podemos descrever um carisma, mas podemos aproximar-nos dele, porque sentimos seu atrito na alma e ouvimos sua voz no coração. Vossa consagração a Deus, que é total pela vocação recebida e busca ser total pela resposta dada, tem uma expressão misteriosa, mas real e verdadeira, que é o desponsório místico com Cristo – “as concepcionistas consagram-se totalmente a Deus, desposando a Jesus Cristo, nosso Redentor” –, e tem uma expressão igualmente real e verdadeira, porém, mais à vista de todos, que se concretiza na profissão dos conselhos evangélicos, vividos em comunhão fraterna e em perpétua clausura (cf. Const. Concep. 2). Tudo isso, isto é, toda a vossa vida, vós a entregais “em honra da Conceição Imaculada da Mãe de nosso Redentor”. Às vezes, alguém pensa em roubar tempo ao tempo para trazer para a própria vida o mistério da eternidade, para amar a Deus na terra com um coração dilatado pela felicidade do céu, para bendizer a Deus na terra com palavras próprias do céu, para oferecer-se a Deus na terra com uma entrega que só será possível no céu. E assim, vós fizestes de vossa vida, de vosso tempo, de vossa peregrinação na terra, uma oblação pessoal, que vos consagra ao serviço do Altíssimo e da Bem-Aventurada Virgem Maria no mistério de sua Conceição Imaculada (cf. Const. Concep. 5).

O caminho de vossa entrega, inspirado pelo Espírito Santo a Santa Beatriz, é o da humildade e pobreza de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe bendita (cf. Const. Concep. 3). Pobreza de Cristo, pobreza de sua santíssima Mãe! Este atrito do vento na alma, que dá um ar característico à vossa vida, também nós, Frades menores, o sentimos desde que Francisco desposou a santa pobreza: “Ele lia em todos os pobres o Filho da Senhora pobre, trazendo nu no coração quem ela trouxe nu nas mãos” (2Cel 83); “quando vês um pobre, ó irmão, é-te proposto o espelho do Senhor e de sua Mãe pobre” (2Cel 85); “um dia, ao sentar-se para o almoço, um irmão lembra-lhe a pobreza da bem-aventurada Virgem e traz à memória a indigência de Cristo, o filho dela. Imediatamente, ele (Francisco) se levanta da mesa, solta soluços dolorosos e, banhado em lágrimas, come o resto do pão sobre a terra nua. Por isso, dizia que esta era uma virtude régia que refulgira de modo tão eminente no Rei e na Rainha” (2Cel 200).

Maria, a Rainha pobre, está posta diante de vossos olhos como modelo que deveis imitar em vosso seguimento de Cristo pobre (cf. Const. Concep. 9 § 2). Dela aprendeis a humildade, a fé (cf. Const. Concep. 10 e 12), o silêncio que facilita a escuta da Palavra, a obediência à vontade do Senhor, a simplicidade no trabalho de cada dia, a entrega pela profissão dos conselhos evangélicos (cf. Const. Concep. 13).

Na verdade, sois “ornamento da Igreja e fontes de graças celestes” (Perfectae Caritatis 7).

Conclusão

Unidos a vós, Irmãs Concepcionistas, em admirável comunhão carismática, os Frades menores participamos de vossa alegria neste dia de festa e nos associamos

ao vosso louvor ao Deus Altíssimo, a seu Santíssimo Filho e ao Espírito Consolador pelos superabundantes dons de santidade e de graça com que a Trindade Santa embelezou sua serva Beatriz. De minha parte, invoco sobre todas vós a plenitude das bênçãos divinas, o amor do Pai, a comunhão com o Filho e o consolo do Espírito Santo.

Vosso irmão menor,

Fr. José Rodríguez Carballo
Ministro geral da OFM

Roma, Cúria geral O.F.M.
17 de agosto de 2006 – Festa de Santa Beatriz de Silva