Frente das Paróquias: Orofino fala da proposta pastoral do Papa a partir da ‘Amoris Laetitia’

Moacir Beggo

 Agudos (SP) – Um total de 35 frades e 74 leigos respondeu ao convite do coordenador da Frente de Evangelização das Paróquias, Santuários e Centros de Acolhimento da Província da Imaculada Conceição, Frei Germano Guesser, para se reunir no Seminário Santo Antônio de Agudos (SP), de hoje (11) a 13 de setembro, no Encontro Provincial sob a assessoria do biblista Francisco Orofino, que já deu uma mostra na noite desta segunda (11) de como vai conduzir a sua reflexão. “Nós não vamos estudar o conteúdo do documento Amoris Laetitia, nós vamos estudar a proposta pastoral do Papa Francisco a partir deste documento, porque a proposta pastoral do Papa Francisco atinge diretamente as Paróquias”, explicou Orofino, que é também  educador popular, assessora dioceses, grupos populares e comunidades de base nos municípios da Baixada Fluminense.

“Fazia muito tempo, mas muito tempo, que a gente não tinha um Papa cuja vida foi totalmente dedicada à pastoral. Ele, com a graça de Deus, tornou-se provincial muito novo, com 38 anos, e fez o que tinha que fazer. Foi trabalhar em paróquia, tornou-se bispo auxiliar, ficou arcebispo de uma grande cidade latino-americana, que é Buenos Aires. Fazia muito tempo que não tínhamos um Papa Pastor, no sentido mesmo de pároco. Se você quer entender o que Papa Francisco está fazendo, perceba ele como o pároco da Igreja universal”, disse, recordando o momento inicial de seu Pontificado, quando em apenas dez minutos conquistou o mundo.

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Frei César Külkamp

Orofino destacou que este encontro está dentro de um processo. “Esse encontro, para quem está vindo pela primeira vez, faz parte de um processo; não é isolado. E aí  quem está no processo, os párocos e os leigos, é que têm de ver depois o fio condutor deste processo dentro de um Plano de Evangelização proposto pela Província da Imaculada. Portanto, nossa meta aqui é a evangelização e o instrumento dessa evangelização se chama Paróquias, Santuários e Centros de Acolhimento. São três instrumentos de evangelização, cujo enfoque vai ser dado aqui”, adiantou o assessor,  autor de vários livros. Orofino também leciona em Institutos de Teologia voltados para a formação de leigos. Fez doutorado em Teologia Bíblica na PUC-Rio (2000) e é professor de Teologia Bíblica no Instituto Paulo VI, na diocese de Nova Iguaçu, RJ.

Segundo Orofino, todas as imagens de Jesus para nós dar ideia de evangelização são relacionadas ao serviço da pesca. “Jesus não chamou ninguém para ser pastor. Jesus chamou para ser pescador. ‘Venham a mim e farei  de vocês pescadores de pessoas’.  Dos doze que Jesus escolheu para o colégio apostólico, cinco são pescadores profissionais – André, Simão, que são irmãos, Tiago e João, irmãos, e Felipe -, e todos eles residem num lugar chamado Bethsaida, que na língua deles, beth (casa) e saida (peixe). Bethsaida significa peixaria. Era um ambiente onde funcionava as cooperativas de pescadores. E todo trabalho de evangelização de Jesus parte da profissão da pesca, de profissionais da pesca. Por isso é muito forte a imagem da rede como instrumento capaz de pegar peixe e mais forte ainda a imagem da barca. Acho que de todas as imagens, a mais forte é a da barca, porque essa barca cresceu muito e hoje é um transatlântico”.

Para Orofino, a barca sempre é a imagem da Igreja mais forte e a gente sempre deve imaginar a Igreja como uma barca. Mas por que Jesus privilegiou tanto a imagem da barca, da rede da pesca e dos pescadores? Segundo o assessor, por causa da tremenda mobilidade exigida no exercício do pastor. “A imagem do pastor é estática. Um pastor parado com o cajado na mão, que tem uma curva que é para trazer a ovelha pelo pescoço. Ele ainda tem cachorros para ajudar no caso de uma ovelha fugitiva. Jesus não chama ninguém para ser pastor, mas para ser pescador. Portanto, a mobilidade da pesca é uma coisa muito importante e nós vamos partir, amanhã (terça, 12) deste processo, o processo de mobilidade que exige de nós uma mobilidade pastoral”, enfatizou.

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Frei Germano Guesser

“Por maior que seja a barca, no caso um transatlântico, onde todos nós estamos dentro, o que dá a direção é o leme. E quem dá a direção é um camarada que está no controle: o timoneiro. Ele segura na mão um instrumento que é chamado de timão – que não é o Corinthians – e através de pequenos gestos ele dá rumo ao transatlântico. Por isso, é muito importante para nós, cristãos, católicos e romanos, o timoneiro, neste momento, que se chama Francisco. Cada timoneiro tem a sua peculiaridade”, disse lembrando todos os papas que vieram depois do Concílio Vaticano II, uma grande graça para quem pôde viver essa história. “Portanto, o timoneiro tem clareza, uma clareza que nós, que estamos dentro da barca, e que fazemos parte da tripulação, não temos”, disse.

Orofino lembrou, contudo, que nenhum timoneiro dá a direção conforme a sua própria cabeça. Nenhum. Todos têm um mapa. “Independentemente do timoneiro, esse mapa é, vamos dizer assim, a viga-mestra de tudo. Na nossa Igreja, o mapa se chama Concílio Vaticano II. Independente do timoneiro, o mapa se chama Concílio Vaticano II”, explicou Orofino, ressaltando que é um momento histórico e de grande transformação, onde se busca abandonar um mapa que se chama Concílio de Trento e substituir um segundo mapa que se chama Vaticano II. “Portanto, nós vivemos uma profunda transformação de mapas, onde algumas coisas ainda não se encaixaram. Hoje, ninguém de sã consciência construiria uma casa como essa onde estamos, chamada Seminário Santo Antônio de Agudos. Essa casa traduz um mapa chamado Concílio de Trento. O sistema formativo na Igreja Católica ainda não é o Vaticano II, ainda é Trento. Ainda se pega um rapaz e coloca num seminário em regime de internato, onde ele vai fazer todos os estudos dirigidos para que não se perca no mundo. Onde vai ter que fazer Filosofia, exigência de Trento, para depois fazer Teologia. Então, nós estamos num período de enorme transformação”, acredita.

Nesse estudo da proposta pastoral do Papa Francisco, Orofino explicou que vai se debruçar principalmente sobre o capítulo 8, o mais polêmico do documento Amoris Laetitia. Também terá como base  a bula Misericordia Vultus, lançada por ocasião do Jubileu da Misericórdia.

Par isso, ele sugeriu o texto para estudo de Victor M. Fernández, bispo argentino: “O Capítulo VIII da Amoris Laetitia – O que ficou depois do temporal. “A proposta de Francisco é muito exigente. Seria mais fácil ou cômodo aplicar normas de maneira rígida e universal, querer que tudo seja ‘preto no branco’, ou partir de algumas convicções gerais e derivar conclusões inamovíveis sem levar em conta a complexidade da realidade e a vida concreta das pessoas. Mas essa rigidez cômoda pode ser uma traição ao coração do Evangelho”, analisa Victor M. Fernández.

Nesta noite de segunda-feira, Frei Germano pediu que os frades apresentassem as equipes que vieram com eles. O Vigário Provincial, Frei César Külkamp falou em nome da Província e do Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, que era com alegria que acolhia frades e leigos para este encontro. “Como franciscanos, temos como princípio ter a nossa ação, a nossa evangelização, compartilhada com os leigos e, mais do que isso, os leigos devem ser protagonistas da nossa ação. Isso está escrito em nossos documentos e foi uma decisão assumida não só aqui no Brasil mas em toda a Ordem Franciscana através do Capítulo Geral. Na Província, isso está presente no nosso Plano de Evangelização. Então, é muito importante esse encontro, essa presença de todos os que puderam vir aqui e que também possamos nos sentir muito próximos daqueles com quem nós trabalhamos e não puderam estar aqui por várias razões. Que esse encontro seja muito fecundo para ação que queremos levar lá na Paróquia onde estamos”, pediu Frei César.