Vida CristãNotícias › 06/10/2017

Frei Gabriel: “Percebi que o maior preso ali era eu”

prisao_061017

Depoimento de Frei Gabriel Dellandrea por ocasião da visita ao Complexo Penitenciário na cidade do Rio de Janeiro, em Bangu, durante a Semana Missionária para a ordenação presbiteral de Frei Alan Maia .

Jesus nos deixa claro que o servimos quando estamos amparando alguém que sofre. Dar de beber a quem tem sede, dar de comer a quem tem fome, vestir os nus, acolher os estrangeiros, visitar os doentes (Mt 25, 31-40), não é só fazer o bem a alguém, mas, nos diz o Mestre: “Todas a vezes que vocês fizerem isso a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25, 40). Ambas as ações são arriscadas e exigem uma ruptura de si mesmo, a fim de estar diretamente em contato com o outro.

Uma das ações descritas por Jesus no Evangelho acima citado  não coloquei propositalmente: visitar os presos (Mt 25, 36). Para mim, esta realidade era amedrontadora. Na minha cabeça, achava que bandido bom era de fato aquele que estivesse bem longe de mim, talvez até morto. Eu não queria nem pensar em estar numa cadeia, pois na minha liberdade de jovem não caberia a possibilidade de me pensar dentro de um lugar tão obscuro.

prisao_061017_2

Frase de um preso que foi escrita na Bíblia de Frei Gabriel

Mas, aos poucos, essa realidade me bateu na porta e me fez um convite. Jesus parecia me pedir: “Venha me visitar”. “Não sei se sou capaz”, pensava. Mas fui. Tive a oportunidade de ir visitá-lo no Complexo Penitenciário na cidade do Rio de Janeiro, em Bangu, numa sexta-feira à tarde, durante a missão vocacional em preparação para a ordenação presbiteral de Frei Alan Maia de França Victor.

Aos poucos, via nas ruas daquele lugar Jesus por vários ângulos. O ângulo do Padre Roberto, organizador da Pastoral Carcerária, que os chamava de irmãos e lhes dava conselhos bons para que eles tivessem boa conduta. Outro olhar era o de alguns inspetores carcerários, que chamavam os presos de vagabundos. Outro olhar  latente era o da mídia que os identificava como “bandido bom é bandido morto”. Eu ainda não sabia qual era a minha perspectiva.

Confesso que o barulho das grades e dos cadeados batendo confirmavam a angústia em mim. Mas era chegada a hora. Estava eu e mais dois confrades no meio de um grande campo com mais ou menos 500 homens em estado de prisão semiaberta para conversar. Coincidência ou não, o lixão da cidade maravilhosa é do lado do presídio. O padre Roberto chegou a mencionar, apontando para o aterro sanitário: “lá fica o lixo material que a sociedade descarta, aqui fica o lixo humano que a sociedade isola”.

Mas não foi tão assustador assim. Eu esperava ser ridicularizado, ou até nem ter o que conversar. Entretanto, Jesus sorriu para mim. Ele tinha tatuagem na pele, ele tinha brilho nos olhos, ele tinha dentes quebrados, ele tinha cabelo curto ou comprido, cortado ou não. Na sua maioria, Jesus estava ali com pele escura, negra. Ele estava jogando bola, assistindo a missa ou conversando. E quando menos percebi,  estava conversando com Jesus.

Um Cristo estava desenhando pessoas com um talento sem igual. Ali eu vi o Jesus que desenhava um rosto numa folha enquanto em minha mente se desenhava um novo rosto de Cristo: o rosto dele no cárcere. Em mim se desenhou aquela imagem bonita e sofrida de homens que deveriam me causar medo, mas na verdade só me geravam desejo de conversar e ouvir suas alegrias e tristezas. Aos poucos, o meu preconceito foi sendo apagado com uma borracha que se chama contato físico e pessoal. Não sei explicar, só sei que me sentia muito feliz.

O confrade Frei Leandro Costa levou o seu violino. Começou a tocar e começamos a cantar a Oração Atribuída a São Francisco de Assis. O som daquele instrumento delicado mostrava a sensibilidade de homens que logo se aglomeraram ao nosso redor pedindo mais músicas ou desejando tocar no instrumento. Um deles até tirou uma música de ouvido com um talento sem igual. E conversa vai, conversa vem, eu me esqueci de onde estava e pensei estar no céu. Uma alegria indizível tomou conta de mim, principalmente por ver que muitos deles não eram nada parecidos com aqueles que sempre imaginei que fossem os encarcerados.

Aos poucos, o tempo foi acabando e eles foram se despedindo. É claro que nem todos vieram conversar, mas muitos trocaram uma ideia comigo e com os outros freis. Era muito legal responder às perguntas dele sobre São Francisco e sobre o nosso estilo de vida. Rezamos e ouvimos a história de alguns deles. Outro, com um chapéu de palha até partilhou seus sonhos comigo. Mas ele sabia que mesmo desejando ter um emprego, ele teria o “carimbo” de ser um ex-presidiário. Na despedida, um deles me abraçou e disse: “Você é muito especial para mim!”. E eu fiquei até sem resposta. O rosto de Cristo estava desenhado dentro de mim.

Por fim, pedi a um deles que escrevesse na minha Bíblia uma frase que ele tinha numa folha de anotações: “Só quem passou pelo frio das grades valoriza o calor da liberdade”. Eu não fazia ideia do que aqueles caras tinham feito para estarem ali. Se eram isso ou aquilo. Mas eu só conseguia ver humanos, eu só conseguia ver Cristo. Sei dos limites do nosso país na questão prisional, mas sei também dos meus limites enquanto Gabriel para o meu preconceito. Sei que lá dentro das grades, quando eu saí, não estavam santos, mas pelo menos eu, pecador que sou, me encontrei com outros irmãos pecadores, e juntos ouvimos um bom som de violino e pudemos conversar como irmãos.

Assim, eu percebi que o maior preso ali era eu. Eu estava encarcerado nos meus preconceitos, nas minhas ideias de “homem de bem” que me sentia acima daqueles irmãos privados de sua liberdade. Percebi que o bandido ali era eu, que nas minhas ideias roubava deles a possibilidade de serem vistos como humanos, pois só os via como homens a serem descartados. Com certeza, não os tratei e não tratarei de uma hora para outra como deveriam ser tratados, pois sou humano e falho, mas um pequeno passo para uma conversão creio que podemos fazer juntos.

prisao_061017_3

Da esq. para a dir: Frei Gabriel, Padre Roberto, Frei Camilo e Frei Leandro.