Vida CristãLiturgia dominical

28º Domingo do Tempo Comum – Ano A

28dtc-830

O novo povo de Deus

1ª Leitura: Is 25, 6-10ª
Sl 22
2ª Leitura: Fl 4, 12-14, 19-20
Evangelho: Mt 22, 1-14

* 1 Jesus voltou a falar em parábolas aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. 2 Ele dizia: «O Reino do Céu é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho. 3 E mandou seus empregados chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir. 4 O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Falem aos convidados que eu já preparei o banquete, os bois e animais gordos já foram abatidos, e tudo está pronto. Que venham para a festa’. 5 Mas os convidados não deram a menor atenção; um foi para o seu campo, outro foi fazer os seus negócios, 6 e outros agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram. 7 Indignado, o rei mandou suas tropas, que mataram aqueles assassinos, e puseram fogo na cidade deles.

8 Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não a mereceram. 9 Portanto, vão até as encruzilhadas dos caminhos, e convidem para a festa todos os que vocês encontrarem’. 10 Então os empregados saíram pelos caminhos, e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados.
11 Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí alguém que não estava usando o traje de festa. 12 E lhe perguntou: ‘Amigo, como foi que você entrou aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem nada respondeu. 13 Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrem os pés e as mãos desse homem, e o joguem fora na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes’. 14 Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos.»


* 22,1-14: É em Jesus que Deus convoca os homens para uma nova aliança, simbolizada pela festa de casamento. Os que rejeitam o convite são aqueles que se apegam ao sistema religioso que defende seus interesses e, por isso, não aceitam o chamado de Jesus. Estes serão julgados e destruídos juntamente com o sistema que defendem. O convite é dirigido então aos que não estão comprometidos com tal sistema, mas, ao contrário, são até marginalizados por ele. Começa na história novo povo de Deus, formado de pobres e oprimidos. Os vv. 11-14, porém, mostram que até mesmo estes últimos serão excluídos, se não realizarem a prática da nova justiça (traje de festa).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

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O banquete e o traje

Aproxima-se o fim do ano litúrgico, abre-se a perspectiva final. Deus nos aguarda para o banquete escatológico já descrito na profecia de lsaías (1ª leitura). Para um povo provado pela fome, comida e bebida  é uma imagem do bem-estar total, embora  sempre uma imagem …

O evangelho de hoje traz duas ideias relacionadas com a imagem do banquete  escatológico. A primeira diz respeito ao convite (recusa dos convidados oficiais  e convite para todos), a segunda, às condições pessoais para participar do banquete (o traje).

1) Deus fez diversos convites oficiais para o banquete de núpcias de seu filho (as núpcias messiânicas, de que falam os profetas); os convidados oficiais eram o povo de Israel. Mas tinham outras ocupações; estavam satisfeitos com aquilo que eles mesmos conceberam e não se interessaram pelo convite. Até agarraram, maltrataram e mataram os mensageiros (= profetas e apóstolos). Ocupavam-se com questões de jejum, enquanto deveriam festejar (cf. Mt 9,14s e par.). Por isso, foram convidados todos os que quisessem, os que eram desprezados pelos primeiros convidados: os publicanos e as meretrizes (cf. Mt 21,28-32; ev. do 26º dom. T.C.), os pagãos (cf. ev. de dom. pass.) etc. E também nós, que somos os descendentes destes. Naturalmente, mesmo assim, a gente não se pode apresentar sem a veste nupcial da fé (última parte do ev.: v. 11-14). Pois, se todos são chamados, eleitos mesmo são apenas os que realmente creem.

Ora, olhando para o presente, os primeiros convidados são os paroquianos costumeiros, os bons cristãos. Eles recebem constantemente o convite para participar das núpcias messiânicas, isto é, para entrar na alegria da verdadeira fraternidade de Deus, que se alegra com sua gente. Mas chovem desculpas. Sou padre, devo rezar meu breviário. Sou médico, preciso manter meu “status”, Sou engenheiro, estou envolvido naquela obra pública … “Por favor, Deus, deixa-me em paz, já tenho o que chega”. E cada um fica no seu cantinho. Inclusive, entre os convidados oficiais alguns não se dão com a cara dos mensageiros, que lhes parecem ler a lição! Até os matam, em nome da Igreja católica apostólica romana … Então, os mensageiros passam para as praças e encruzilhadas e mandam para a festa o povinho, que é bastante humilde para sentir que lhe está faltando alguma coisa. Pergunto, então: os “primeiros convidados”, finalmente rejeitados, são os judeus do tempo de Jesus, ou nós mesmos? Uns e outros!

2) Considerando agora a questão do traje, podemos fazer uma pergunta semelhante: Os que não têm a veste festiva são os que, por alguma razão, entraram na Igreja do primeiro século sem ter a verdadeira fé, ou somos nós que estamos dentro da sala do banquete, mas sem uma fé que nos transforme em cristãos radiantes de novidade nupcial? Em ambas as maneiras de ler, a frase “muitos são os chamados, poucos os escolhidos” nada tem a ver com tristes especulações sobre a “massa condenada”, mas é uma pergunta com relação à autenticidade de nossa fé e de nossa dedicação à festa que Deus, em Cristo, preparou para todos os seus filhos. Não somos nós tais chamados (encaminhados para a Igreja desde jovens) que, porém, não poderão ser escolhidos (queridos por Deus), porque o nosso coração lhe está fechado (o que se revela no fechamento para com os nossos irmãos, especialmente, os mais pobres)?

Em função do texto do evangelho, que tem nítidas ressonâncias eucarísticas, pode-se escolher o prefácio da SS. Eucaristia II (unidade na caridade em redor da Ceia). O canto da comunhão pode ser a 1ª opção.

A 2ª leitura pouco contribui para o tema central, mas é linda: o agradecimento final de Paulo aos filipenses, porque cuidaram tão bem dele, embora tivesse também suportado a carência, se fosse preciso. Ele não exigiu nada, mas foi muito bom eles terem feito tudo isso por ele (Fl 4,1O-14: gratuidade da bondade fraterna). É um agradecimento a Deus por causa destes fiéis tão delicados e dedicados (Fl 4, 19-20; cf. 1,3-5).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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“Poucos são escolhidos”…

Há quem ensine que o número dos “eleitos” é limitado, preestabelecido. Os eleitos vivem conforme sua eleição, e os outros … se danem. Mas a Bíblia acentua a universalidade da salvação. Todos são chamados. O profeta Isaías descreve a felicidade do fim dos tempos como um banquete universal na montanha de Deus, em Jerusalém (1ª leitura). Inspirando-se nesta imagem, Jesus, no evangelho, fala de um rei que oferece um banquete para o casamento do seu filho (o Messias “esposo do povo”). Manda vir primeiro os convidados de praxe (os chefes de Israel), mas estes se esquivam. Então manda convidar todo o mundo: miseráveis, estropiados, aleijados … (a Igreja convocada entre toda espécie de gente). Depois, porém, Jesus acrescenta uma segunda parábola: um dos convidados não vestiu traje de festa … é expulso.

Todos são convidados, e os que declinam o convite perdem sua vez. Agora convidam-se até os mais pobres, mas isso não quer dizer que podem se apresentar dum jeito qualquer. No mínimo têm que vestir a melhor roupa: a fé e a prática que Cristo espera de nós. O convite é universal, feito sem acepção de pessoas, mas não sem exigências!

Os que recusam o convite não são apenas os chefes de Israel, mas todos aqueles que, bem instalados e satisfeitos consigo mesmos, são incapazes de se alegrarem com o convite universal. Ficam de cara feia, agora que a Igreja convida os pobres para serem realmente “sujeitos” na comunidade eclesial.

Por outro lado, até dos mais simples se exige que “vistam a camiseta”. Trata-se de combinar a disponibilidade para o convite do Senhor (a simplicidade, a alegria), com o empenho por corresponder à sua expectativa. O traje mais bonito que temos é a caridade. Quantas pessoas usam este traje para participar do “banquete eucarístico”?

“Muitos são chamados, nem todos são escolhidos”. Jesus quer dizer que o fato de ser chamado – que vale para todos – não é suficiente para contar com a eleição. Ora, o que decide se seremos eleitos ou não é a nossa disposição. Quem se alegra com o que Deus faz e revela em Jesus, quem na prática adere a esse modo de viver, sem dúvida poderá participar da festa. Deus convida a todos, mas os admitidos são aqueles que, por sua vida, correspondem ao convite. A “seleção” não é preestabelecida por Deus, mas é o efeito de nosso modo de responder dignamente ao apelo universal.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes