Vida CristãNotícias › 12/10/2017

A doutrina é realidade viva que precisa progredir

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Cidade do Vaticano – “Quem ama quer conhecer melhor a pessoa amada, para descobrir a riqueza que e esconde nela e que dia a dia aparece como uma realidade sempre nova”. Foi o que disse o Papa Francisco recebendo em audiência na Sala do Sínodo, no Vaticano, no final da tarde desta quarta-feira, os participantes do encontro promovido pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, na celebração pelos 25 anos da Constituição apostólica Fidei depositum.

Francisco ressaltou, logo de início, que o vigésimo quinto aniversário da Constituição apostólica Fidei depositum, com a qual São João Paulo II promulgava o Catecismo da Igreja Católica – trinta anos depois da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II – “é uma significativa ocasião para verificar o caminho percorrido nesse espaço de tempo”.

Dito isso, destacou que o foi, sobretudo, para permitir que a Igreja chegasse finalmente a apresentar, com uma linguagem renovada, a beleza da sua fé em Jesus Cristo, que o Papa João XXIII sonhara e quisera Concílio, “não para condenar”.

Tendo se referido ao Bom Papa João em seu discurso de abertura do Vaticano II, no qual afirmava a necessidade de que “a Igreja não se aparte do patrimônio sagrado das verdades, recebidas dos seus maiores; mas, ao mesmo tempo, deve também olhar para o presente, para as novas condições e formas de vida do mundo, que abriram novos caminhos ao apostolado católico”, Francisco evidenciou que “o nosso dever – disse citando João XXIII – é não só guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente da antiguidade, mas também dedicar-nos com vontade pronta e sem temor àquele trabalho que o nosso tempo exige, prosseguindo assim o caminho que a Igreja percorre há vinte séculos”.

“Guardar” e “prosseguir” foram as palavras destacadas pelo Santo Padre como incumbência que cabe à Igreja por sua própria natureza, a fim de que a verdade contida no Evangelho feito por Jesus possa alcançar a sua plenitude até ao fim dos séculos.

“Tal é a graça que foi concedida ao Povo de Deus; mas é igualmente uma tarefa e uma missão, cuja responsabilidade carregamos: anunciar de modo novo e mais completo o Evangelho de sempre aos nossos contemporâneos. Assim, com a alegria que provem da esperança cristã e munidos do ‘remédio da misericórdia’, vamos ao encontro dos homens e mulheres do nosso tempo para lhes permitir a descoberta da inexaurível riqueza encerrada na pessoa de Jesus Cristo”, acrescentou.

Ao apresentar o Catecismo da Igreja Católica, São João Paulo II afirmava que ele ‘deve ter em conta as explicitações da doutrina que, no decurso dos tempos, o Espírito Santo sugeriu à Igreja. É também necessário que ajude a iluminar, com a luz da fé, as novas situações e os problemas que no passado ainda não tinham surgido’, lembrou o Papa Francisco.

Por isso, frisou ainda o Papa, este Catecismo constitui um instrumento importante não apenas porque apresenta aos crentes os ensinamentos de sempre para crescerem na compreensão da fé, mas também e sobretudo porque pretende aproximar os nossos contemporâneos, com suas problemáticas novas e diversas, da Igreja, comprometida na apresentação da fé como resposta significante para a existência humana neste momento histórico particular.

Assim, acrescentou, não basta encontrar uma nova linguagem para expressar a fé de sempre; “é necessário e urgente também que, perante os novos desafios e perspetivas que se abrem à humanidade, a Igreja possa exprimir as novidades do Evangelho de Cristo que, embora contidas na Palavra de Deus, ainda não vieram à luz”, destacou o Pontífice.

Ao delinear os pontos estruturais da sua composição, o Catecismo da Igreja Católica – disse Francisco – retoma um texto do Catecismo Romano; assume-o, propondo-o como chave de leitura e concretização: «A finalidade da doutrina e do ensino deve fixar-se toda no amor, que não acaba”. O Papa recordou que nesta linha de pensamento há um tema que deveria encontrar, no Catecismo da Igreja Católica, um espaço mais adequado e coerente com as finalidades expressas: a pena de morte. “Esta problemática – disse – não pode ficar reduzida a mera recordação histórica da doutrina, sem se fazer sobressair, por um lado, o progresso na doutrina operado pelos últimos Pontífices e, por outro, a renovada consciência do povo cristão, que recusa uma postura de anuência quanto a uma pena que lesa gravemente a dignidade humana.

“Deve afirmar-se energicamente que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que, independentemente do modo como for realizada, humilha a dignidade pessoal”.

MISSA EM SANTA MARIA MAIOR

Na manhã de quinta-feira (12/10), o Papa saiu do Vaticano e presidiu a missa Basílica de Santa Maria Maior pelo centenário da Congregação para as Igrejas Orientais.

A Congregação foi instituída em 1º de maio de 1917 por Bento XV, e em sua homilia, o Papa Francisco iniciou lembrando que aquele era o período da I Guerra Mundial. “Como já disse no passado, nós vivemos hoje uma outra guerra mundial, em pedaços. Vemos muitos irmãos e irmãs cristãos das Igrejas Orientais sofrendo dramáticas perseguições, numa diáspora cada vez mais inquietadora”.

Interpretando esta realidade a partir da leitura do livro de Malaquias, que a liturgia propõe neste dia, Francisco afirmou que os tantos ‘por que?’ de então se assemelham aos nossos questionamentos atuais.

“Quantas vezes vemos maldosos que sem escrúpulos fazem seus interesses, pisoteiam os outros… parece que tudo corre bem para eles: obtêm o que querem e pensam apenas em desfrutar a vida. Aí surge a pergunta: “Por que, Senhor?”.

Inspirado no livro do profeta, o Papa respondeu que “Deus não esquece de seus filhos; sua memória é para os justos, para aqueles que sofrem, que são oprimidos e mesmo assim, não deixam de confiar no Senhor”.

Assim como a Virgem Maria, que se questionava ‘por que’ e no seu coração a graça de Deus fazia resplandecer a fé e a esperança, nós podemos rezar, com a coragem da fé, tendo confiança de que o Senhor nos escuta.

No trecho de Malaquias, Jesus, como um pai, nos dá um dom ‘a mais’: o Espírito Santo.

“O homem bate na porta de Deus para pedir a graça com a oração. E ele, que é Pai, nos dá a graça e mais ainda: o dom, o Espírito Santo”.

Terminando, o Papa exortou os membros da Congregação para as Igrejas Orientais a ‘bater’ no coração de Deus, rezando com coragem: “Que esta oração inspire e nutra também o seu serviço na Igreja. Assim, o seu esforço dará dá fruto no devido tempo e vocês serão como árvores, cujas folhas nunca murcham”.