Leitura Espiritual: Na busca do rosto do Altíssimo

Nunca conseguimos divisar cabalmente o semblante do Senhor.  Ele mora numa luz inacessível e se esconde em nosso íntimo.  Emanuel Mounier dizia: “O Senhor me inventa cada dia comigo mesmo”. Eu sou instrumento  dele.  Caminhamos juntos.  Somos companheiros.

O coração puro consegue ver a Deus

“Deus está em todo lugar, imenso e próximo em toda a parte, conforme o testemunho dado por ele mesmo: Eu sou  o Deus próximo e não o Deus de longe. Não busquemos, então, longe de nós a morada de Deus, que temos dentro de nós, se o merecermos. Habita em nós como alma no corpo se formos seus membros sadios, mortos ao pecado. Então, verdadeiramente mora em nós aquele que disse:  E habitarei neles e entre eles andarei. Se, portanto, formos dignos  de tê-lo em nós, em verdade seremos vivificados por ele,  como membros vivos seus;  nele, assim diz o Apóstolo,   vivemos, nos movemos e somos.

Quem, pergunto eu, investigará o Altíssimo em sua inefável e incompreensível  essência?  Quem sondará as profundezas de Deus?  Quem se gloriará de conhecer o Deus infinito que tudo enche, tudo envolve, penetra em tudo e ultrapassa  tudo, tudo contém e esquiva-se a tudo?  Aquele que ninguém jamais viu como é. Por isto, não haja a presunção de indagar sobre a impenetrabilidade  de Deus, o que foi, como foi, com quem foi. São realidades  indizíveis, inescrutáveis, ininvestigáveis;  simplesmente,  mas com todo o ardor, crê que  Deus é como será, do modo como foi porque  Deus é imutável.

Quem, pois, é  Deus?  Pai, Filho e Espírito Santo, um só  Deus.  Não perguntes mais sobre Deus; porque os que querem conhecer  a imensa profundidade, têm antes de considerar a natureza.  Com razão compara-se  o conhecimento da Trindade à profundeza do mar, conforme diz o Sábio:  E a imensa profundidade quem a alcançará?  Do modo como a profundeza do mar é invisível ao olhar humano, assim a divindade da Trindade  é percebida como incompreensível pelo entendimento humano. Por conseguinte, se alguém quiser conhecer  aquele em quem deverá crer, não julgue compreender melhor falando do que crendo; ao ser investigada a sabedoria da divindade foge para mais longe do que estava.

Procura, portanto,  a máxima ciência  não por argumentos e discursos, mas por uma vida perfeita;  não pela língua, mas pela fé que brota da simplicidade do coração, não adquirida por doutas  conjeturas de impiedade. Se, por doutas  investigações  procurares o inefável, irá para mais  longe de ti   do que estava;  se, pela fé, a sabedoria estará à porta, onde se encontra;  e onde mora poderá ser vista ao menos em parte. Mas em verdade até certo ponto também será atingida, quando se crer no invisível, mesmo sem compreendê-lo;  deve-se crer em Deus por ser invisível, embora  em parte o coração puro o veja”.

Instruções de São Columbano, Abade, séc.  VII, Liturgia das Horas III, p. 216-218.

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Busca do rosto do Altíssimo e oração

Busca-se o semblante e o coração do Altíssimo, de modo especial, pela oração. Felizes os que percorrem esta via, este caminho com constância e perseverança, ser dar muita atenção aos seus humores e estados psicológicos.

Sentes o desejo de rezar? Então despoja-te de tudo e tudo te será dado (Evágrio Pôntico) .  “A verdadeira oração é, para   Evágrio,   um estado de paz imperturbável.  Esta conduz o homem a dimensões mais profundas da verdadeira realidade  e lhe permite tornar-se um com Deus. Mas esse Deus não existe exclusivamente  do lado de fora de nos;  ao contrário, ela está também igualmente dentro de nós.  A contemplatio  é  o caminho para a parte impassível da alma, na qual o homem não está separado de Deus  pelos pensamentos, sentimentos, imagens ou ideias.  Os místicos descreveram esta parte impassível da alma humana através de imagens diversas. Por isso  Tauler  fala do fundo da alma;  Mestre Eckhart  fala da pequena centelha da alma;  Catarina de Sena  fala da cela interior;   Teresa fala do aposento mais íntimo do castelo da alma. Deus habita ali e a nada mais é concedido o acesso:  nem a homens, nem a problemas, nem a pensamentos e sentimentos, nem a preocupações e medos.  A oração é o caminho que  conduz a este lugar de silêncio interior, a esta habitação plena somente da presença  de Deus.  Este lugar de puro silêncio  está em qualquer um de nós, mas frequentemente está encoberto e esquecido.  Através da oração conseguimos criar um novo acesso a esse lugar. Derrubamos o muro dos pensamentos e sentimentos, rompemos a casca dos  desejos sombrios em  que se encontram armazenados em nosso coração e penetramos nesse lugar de amor e de paz, nesse lugar de  Deus em nós”

Anselm Grün, A oração como encontro, Vozes,  p.68-70.