Carta de João Paulo II pelo 8º centenário

4. Precisamente porque estava cheio de amor pelo Cristo e pelo Evangelho, Santo Antônio “ilustrava com espírito de amor a divina sabedoria que ele tinha tirado da leitura assídua das Sagradas Escrituras” (Pio XI, Carta Apost. “Antoniana sollemnia”, 1.3.1941).

A Sagrada Escritura era para ele a “terra parturiens” que faz nascer a fé, funda a moral e atrai a alma por sua doçura (cf. Sermones, Prólogo, 1,1). Recolhida numa meditação plena de amor pela Sagrada Escritura, a alma se abre – segundo sua expressão - “ad divinitatis arcanum”. No curso de seu itinerário para Deus, Antônio nutriu seu espírito neste segredo insondável, encontrando aí sua sabedoria e sua doutrina, sua força apostólica e sua esperança, seu zelo infatigável e sua ardente caridade.

É da sede de Deus, do anseio por Cristo que nasce a Teologia; para Santo Antônio, ela era a irradiação de seu amor por Cristo: uma sabedoria de um valor inestimável e uma ciência de conhecimento intuitivo (cognição); um cântico novo “in aure Dei dulce resonans et animam innovans” (cf. Sermones, III, 55, e I, 225).

Santo Antônio viveu uma maneira de estudar com uma paixão que o acompanhou ao longo de toda a sua vida franciscana. O próprio São Francisco o havia escolhido para ensinar “a santa Teologia aos irmãos”, recomendando-lhe, no entanto, que cuidasse nesta tarefa, de não extinguir seu espírito de oração e de devoção (cf. Fontes Franciscanas, p. 75).

Ele empregou todos os meios científicos, que então se conheciam, para aprofundar o conhecimento da verdade evangélica e tornar seu anúncio mais compreensível. O sucesso de sua pregação confirma o fato de que ele soube falar a linguagem de seus ouvintes, conseguindo transmitir de uma maneira eficaz o conteúdo da fé e fazendo com que a cultura popular de seu tempo acolhesse os valores do Evangelho.

5. Desejo de todo o coração que as celebrações do centenário de Santo Antônio permitam a toda a Igreja conhecer sempre melhor o testemunho, a mensagem, a sabedoria e o ardor missionário de um tão grande discípulo de Cristo e do Pobrezinho de Assis.

Sua pregação, seus escritos, e sobretudo a santidade de sua vida ofereçam também aos homens de nosso tempo indicações muito vivas e estimulantes no que diz respeito aos esforços necessários à nova evangelização. Hoje, como naquele tempo, nós temos necessidade de uma catequese renovada, fundada sobre a Palavra de Deus, especialmente sobre os Evangelhos, para levar o mundo cristão a compreender de novo o valor da Revelação e da fé.

A comunidade dos fiéis deve tomar consciência sempre nova da eterna atualidade do Evangelho, reconhecendo que, através da pregação, a figura do Verbo encarnado se nos apresenta de novo, como se realizou pela pregação de Santo Antônio, autêntica, atual, próxima de nossa história, rica em graça e capaz de suscitar nos corações uma intensa efusão de caridade sobrenatural.

Os escritos de Santo Antônio, tão ricos de doutrina bíblica, mas igualmente tão intensamente portadores de exortações espirituais e morais, são ainda hoje um modelo e guia para a pregação.

Entre outras coisas, eles mostram amplamente quanto, dentro da celebração litúrgica, o ensinamento homilético pode levar os fiéis a fazerem a experiência da presença atual do Cristo que ainda anuncia o Evangelho a seu povo a fim de obter sua resposta na oração e no canto (cf. Sacrosanctum Concilium, 33).

Convido, pois, todos os membros da grande Família Franciscana a esforçarem-se por difundir um são conhecimento do santo Taumaturgo, tão venerado nas comunidades cristãs do mundo inteiro. Que revivam, entre os irmãos das Ordens franciscanas, sentimentos de autêntico fervor no anúncio da verdadeira fé, bem como um ardente zelo pela pregação, pelo conhecimento e aprofundamento da Palavra de Deus, uma dedicação incessante e ardente pela nova evangelização, já às vésperas do terceiro milênio cristão.

Rogando ao Senhor, Mestre e Pastor de todas as almas, que, por intercessão de Santo Antônio, insigne pregador e Patrono dos Pobres, seja dado a todos seguir fiel e generosamente os ensinamentos do Evangelho, concedo-lhe uma especial bênção apostólica, bem como a toda a Família franciscana e a todos aqueles que nutrem devoção por este grande santo.

Vaticano, 12 de junho de 1994, no 16° ano de nosso Pontificado.