Chamada à Paz

Papa Bento XVI

Oito séculos atrás, à cidade de Assis seria difícil poder imaginar o papel que a Providência lhe designava, um papel que faz dela uma cidade sumamente conhecida no mundo, um autêntico «lugar da alma». Quem lhe deu este caráter foi um acontecimento que sucedeu aqui e que lhe imprimiu um sinal indelével. Refiro-me à conversão do jovem Francisco, que depois de 25 anos de vida medíocre e sonhadora, caracterizada pela busca de alegrias e êxitos mundanos, abriu-se à graça, recolheu-se interiormente e pouco e pouco reconheceu em Cristo o ideal de sua vida. Minha peregrinação de hoje a Assis quer recordar aquele acontecimento para viver seu significado e sua amplitude.

Detive-me com particular emoção na pequena igreja de São Damião, na qual Francisco escutou do Crucifixo a frase programática: «Vai, Francisco, reconstrói a minha casa» (Relato de Celano (2 Cel I, 6, 10). Era uma missão que começava com a plena conversão de seu coração para converter-se depois em fermento evangélico espalhado a mãos cheias na Igreja e na sociedade.

Em Rivotorto vi o lugar no qual, segundo a tradição, eram relegados aqueles leprosos de quem o santo se aproximou com misericórdia, começando assim sua vida de penitente, e visitei ao santuário que recorda a pobre morada de Francisco e de seus primeiros irmãos.

Estive na Basílica de Santa Clara, e na tarde de hoje, depois da visita à catedral de Assis, me deterei na Porciúncula, onde Francisco guiou, à sombra de Maria, os passos de sua fraternidade em expansão, e onde exalou seu último respiro. Ali encontrarei os jovens para que o jovem Francisco, convertido a Cristo, lhes fale ao coração.

Neste momento, desde a Basílica de São Francisco, onde repousam seus restos mortais, desejo sobretudo fazer meu seu louvor: «Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são os louvores, a glória e a honra e toda benção» («Cântico do Irmão Sol» 1). Francisco de Assis é um grande educador de nossa fé e de nosso louvor. Ao enamorar-se de Jesus Cristo, encontrou o rosto de Deus-Amor, converteu-se em seu cantor apaixonado, autêntico «cantor de Deus». À luz das Bem-aventuranças evangélicas se compreende a mansidão com que soube viver as relações com os demais, apresentando-se a todos com humildade e fazendo-se testemunha e agente de paz.

Desde esta cidade da paz quero enviar uma saudação aos expoentes das demais confissões cristãs e das demais religiões que em 1986 acolheram o convite de meu venerado predecessor a viver, aqui, na pátria de São Francisco, uma Jornada Mundial de Oração pela Paz. Considero que é meu dever lançar desde aqui um importante e sincero chamado para que cessem todos os conflitos armados que sangram a terra. Que se calem as armas e que por toda parte o ódio ceda ao amor, a ofensa ao perdão e a discórdia à união!

Sentimos espiritualmente aqui presentes todos os que choram, sofrem e morrem por causa da guerra e de suas trágicas conseqüências, em qualquer parte do mundo. Nosso pensamento se dirige em particular à Terra Santa, tão querida por São Francisco, ao Iraque, ao Líbano, a todo Oriente Médio.

As populações desses países experimentam, há já muito tempo, os horrores dos combates, do terrorismo, da violência cega, a ilusão de que a força pode resolver os conflitos, a negativa em escutar as razões do outro e fazer-lhes justiça. Só um diálogo responsável e sincero, sustentado pelo generoso apoio da comunidade internacional, poderá acabar com tanta dor e voltar a dar a vida e dignidade a pessoas, instituições e povos.

Que São Francisco, homem de paz, alcance-nos do Senhor a graça da multiplicação do número de quem aceita converter-se «em instrumentos de sua paz» através de milhares de pequenos atos da vida cotidiana. Que quem tem cargos de responsabilidade esteja animado por um amor apaixonado pela paz e por uma vontade firme de alcançá-la, escolhendo os meios adequados por alcançá-la.

Que a Virgem Santa, a quem o «pobrezinho» amou com coração terno e a que cantou com tom inspirado, ajude-nos a descobrir o segredo da paz no milagre de amor que aconteceu em seu seio com a encarnação do Filho de Deus.

Homilia proferida em Assis, no dia 17.06.2007