Carta do Ministro Geral pelo 20º aniversário do “Espírito de Assis”

Queridos irmãos e irmãs, O Senhor te dê a Paz!

Vinte anos atrás, o servo de Deus João Paulo II tomou a iniciativa de convocar, em Assis, os representantes das várias confissões cristãs e de diversas religiões para implorar ao único Deus de todos o dom da paz, para reafirmar juntos o comum desejo de viver em harmonia, e para compreender, diante do Senhor, como sermos construtores da paz no pensamento, no coração e na ação. Aquele 27 de outubro de 1986 “significou uma vibrante mensagem em favor da paz, e se revelou como um evento destinado a deixar um sinal na história” (Bento XVI, Mensagem por ocasião do 20º aniversário do Encontro Inter-religioso de oração pela paz em Assis, 2 de setembro de 2006).

De modo particular, João Paulo II, sempre que se produziam atos terroristas, guerras, desespero, injustiças, dúvidas e incompreensões, que colocaram seriamente em risco o destino da humanidade, propôs aos que têm fé e aos homens de boa vontade, que peregrinassem a Assis, e os convidava em muitas circunstâncias, a se inspirar, para a construção de um mundo mais justo e solidário, no “espírito de Assis”.

Por que Assis? Na última peregrinação, no dia 24 de janeiro de 2004, e não somente na última, o mesmo João Paulo II respondia: “Nos encontramos em Assis onde tudo fala de um singular profeta da paz, chamado Francisco”. E o testemunho que Francisco “deu em seu tempo – confirma Bento XVI em sua mensagem citada – é um natural ponto de referência para todos os que hoje cultivam o ideal da paz, o respeito à natureza, o diálogo entre as pessoas, entre as religiões e as culturas”. Ponto de referência e de estímulo para todos aqueles que de fato se interessam pelo futuro da família humana e da “causa” do homem, e de maneira particular, para nós, franciscanos, que fomos gerados pelo “espírito de Assis”, e somos seguidores do Poverello, que encarnou “de maneira exemplar as bem-aventuranças proclamadas por Jesus no Evangelho: ‘Felizes os que trabalham pela paz, porque serão chamados de filhos de Deus’.

O que quer dizer para nós, hoje, que Francisco é o ponto de referência, e, sobretudo, como podemos nós, filhos de Francisco, sermos ainda, onde quer que vivamos, autênticos testemunhos de paz? O que tornamos “visível” de sua fascinante aventura humana e evangélica? Providencialmente, a lembrança do 20o aniversário da iniciativa audaz e profética de João Paulo II, coincide, como assinalou Bento XVI, na sua Mensagem pelo 20º aniversário da iniciativa de oração pela paz, com a celebração que se realiza em nossa Fraternidade, do 8º Centenário da conversão de Francisco, provocada pelo diálogo com o Crucifixo de São Damião: “Senhor, que queres que eu faça? e “Vai, Francisco, e repara a minha casa”. Descoberto o sentido das palavras do Crucifixo, o Poverello se transforma em promotor da paz com cartas circulares e particulares, com o anúncio do Reino de Deus, e o dom divino da paz (cf. 1Cel 10), tornando-se assim o “anjo da verdadeira paz” (LM. Prólogo 1)

Para entender o porquê e como nós, franciscanos, devemos ser “sentinelas dóceis e valentes da verdadeira paz, fundada na justiça e no perdão, na verdade e na misericórdia” (João Paulo II, Discurso de Assis, 24 de janeiro de 2002), devemos “fixar o olhar no mistério da cruz, árvore da salvação banhada no sangue redentor de Cristo” (cf. também “Deus caritas est”, 12). Sim, o fascínio de Francisco surge de seu deixar-se transformar pela lógica da cruz, ao ponto de aprender uma nova “linguagem”, aquela do amor, do perdão e do bem.

2006 é para nossa Fraternidade o ano da conversão, provocada pela contemplação do Crucifixo de São Damião. Permito-me, então, sugerir-lhes um itinerário concreto de conversão, para apostar no amor, no valor da fraternidade, “aos quais todas as pessoas são chamadas, e do quais as criaturas inanimadas – do “irmão sol” à “irmã lua” – de alguma maneira participam” (Bento XVI, Mensagem…). Trata-se de viver e promover, dentro de nossas Fraternidades, nas relações com as pessoas que o Senhor coloca em nosso caminho, os valores do Decálogo de Assis, enviado por João Paulo II aos chefes de Estado e de Governo, fruto da excepcional jornada de oração vivida em Assis no dia 24 de janeiro de 2002 (Acta Ordinis, I, 2002, 6-7), tendo sempre ante nossos olhos o testemunho exemplar de Francisco de Assis, que nos exorta a “sermos pacíficos e sóbrios, mansos e humildes”, nos recorda nossa vocação: “curar as feridas, enfaixar as fraturas, buscar os perdidos”, e nos convida a nos dirigirmos ao “Altíssimo, glorioso Deus”, para que nos conceda a capacidade de discernir e de fazer sempre a sua vontade.

Roma, 8 de setembro de 2006, Nascimento da Santa Virgem

Fr. José Rodríguez Carballo, ofmMinistro Geral