V. Um certo Francisco de Assis

Trabalhar sem perder o espírito da Santa Oração

Aqueles irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar trabalhem fiel e devotamente, de modo que afastado o ócio que é o inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e da devoção, ao qual devem servir as coisas temporais (Regra Bulada, V)

O trabalho é graça. Que belo o espetáculo dos trabalhadores em ação. O médico no santuário de seu consultório  examina resultados de ultrassonografias, verifica a pressão, mede a temperatura, ausculta os pulmões. Trabalha fielmente. Permanece no consultório ou no hospital horas a fio. Pensa, pergunta por sintomas, receita, previne… A mulher, esposa e mãe,  trabalha em casa.  Há esse trabalho de todo dia cansativo e rotineiro. Mas ele tem sentido. Ela  é, de alguma forma, a alma da casa. Gosta também de fazer bolo de amendoim e torta de maçã nos dias de festa. Aquela outra senhora pobre, bem pobre, que é gari. Varre as calçadas do centro da cidade todos os dias de madrugada.  Ajunta folhas e lixo com a vassoura numa pá e depois coloca em recipientes de lixo amarelos. Todos estes trabalham com as mãos, com o coração. Pensam na qualidade de seu labor. Cansam o corpo e a mente. Enfeitam a terra.

Os homens são os jardineiros da terra…  São formiguinhas trabalhadeiras.  Alguns, talvez, sejam displicentes cigarras que cantam o tempo todo e esquecem a dureza do labor.

O frade levanta-se. Imediatamente procura o rosto do Senhor, a presença daquele que está sempre perto. Há uma explosão de louvor  e um grito de  socorro. Tem diante dos olhos as horas  do labor. Mas tudo começa com essa sintonia com o Senhor. E vem o trabalho e quanto trabalho! Trabalho em casa. Trabalho pastoral. Trabalho de caridade.  Trabalho manual e trabalho intelectual. Trabalho sem a primeira preocupação do lucro, do guardar, do reter. Trabalho para fugir da ociosidade, da vadiagem, do ir e vir, de lá para cá e cá para lá… Simplesmente  pelo  ir e vir. Trabalho feito com disciplina e persistência. Trabalho para fugir da ociosidade que é a mãe de todos os vícios.

O frade desperta e coloca seu olhar no olhar do Senhor. Há compras a serem feitas, doentes a serem visitados, exortações a serem  dirigidas a uns e outros. Tudo feito com zelo, como se fosse a única coisa que tivesse que ser feita.  Tudo feito com a qualidade do servo inútil que faz bem e muito bem o que tem que fazer e não busca salário, nem recompensa.

Aqui e ali uma pequena pausa para um salmo ou um olhar para o Senhor. Um dia especial para o retiro, para saborear os salmos, escutar a palavra e se jogar mais explicitamente nos braços do Amado.  Nada de ativismo. Não somos funcionários de uma administração descontrolada e louca. Trabalhamos com a mente, o coração e as mãos. Há esses frades que vão pelo mundo, há esses que plantam rosas, preparam a comida, ensinam nas universidades… Sempre cuidando de não perderem o espírito da santa oração e da devoção.

“A intuição teológica de Francisco diz que o trabalho é um dom para o homem enquanto inserido na obra da criação e da redenção do mundo:  o homem com seu trabalho  imprime um selo cristão na atividade que transforma e melhora a vida  humana. O trabalho é continuação e  acabamento da criação que Deus confiou ao homem: é vocação e serviço. O trabalho é graça  na qualidade de coparticipar do “plasmar” da criação, própria de Deus (…). Todos vivemos esta graça: somos chamados para seremos mandados, para realizar uma tarefa, um trabalho, uma obra que somente nós podemos fazer e que ninguém fará senão nós. O trabalho cotidiano situa-se nesse plano e somente assim pode se tornar expressão de nossa liberdade e do nosso amor. Se não for resposta à graça que nos chama à vida, acabará sempre, inevitavelmente por cair numa busca de afirmação de nós mesmos e de nossas capacidades, acabará por ser coisa nossa, possuída como outras coisas e, no final das contas, fonte de tristeza e de  escravidão, peso insuportável de nosso eu egoísta e egocêntrico” (Francesco  de Lazzari,  Il Testamento di San Francisco. Meditazioni, Ed. Porziuncula, p. 239-240).

E quando termina o dia, o olhar do franciscano canta um pequeno hino de gratidão ao Doador de todos os dons, também do dom do trabalho.