IV. E a família, como vai?

Quando se cria uma família? (II)

Em nossa edição anterior começamos a refletir sobre o tema da criação de uma família.  Apoiados no livro das Equipes de Nossa Senhora,  Ser família hoje na Igreja e no mundo continuamos a aprofundar o assunto.

Famílias… Casa… Lar… Encontros… Memórias e lembranças… A sala de comer, o quarto dos pais, a varanda, as cortinas, o balanço, os pés de goiaba e de laranja lima, as refeições, as visitas, os filhos que nascem e os avós que partem,  as roupas para dias de festa e  as coisas de todos os dias…

Família e doação

Família é lugar de entendimento, de bem-querer, de dom. Nossa cultura é egoísta e individualista. As pessoas, aos poucos, foram entrando numa cultura narcisista, obsessivamente individualista. As crianças pensam em suas coisas, seus passeios, seus interesses, seu lucro. Querem sempre receber a troca de um gesto feito pelo outros. As pessoas perderam o senso da gratuidade. Nada se faz de graça. A pergunta é esta: Quanto eu levo nisto? Passamos o nosso tempo esperando tudo dos outros e acabamos decepcionados. Estamos sempre  presos a nós mesmos. Precisamos aprender a fazer o êxodo de nós mesmos. “É assim que em família aprendemos a ter relações de amor.  Não são relações contabilizadas. Chego até aqui, para que você chegue até lá. São relações de gratuidade e de oferta”. Ninguém é empregado de ninguém. Dentro de suas possibilidades todos cooperam para que as coisas funcionem harmonicamente em casa:  limpeza, cuidado com as plantas, atenções para com membros da família doentes e envelhecidos.

A vida tem necessidade de espaço e de tempo

A casa não existe apenas para proteger da chuva, do vento, do frio, do sol. A casa é lar, lugar de calor, lugar quente e acolhedor. Não é hotel, nem pensão. É lugar de se estar… Nem sempre estamos em casa. Há o trabalho profissional dos pais e dos filhos mais velhos, há o tempo do estudo. Por vezes, as pessoas precisam de dois empregos para sobreviverem. Pode acontecer e acontece muitas vezes que os filhos sejam obrigados a permanecer em casa boa parte do tempo sem a presença da mãe. Se queremos uma família será preciso o tempo de estar em torno à mesa, tempo para uma oração em comum, tempo para comemorar os aniversários, tempo para  ficar perto de alguém que está doente ou passando por um momento psicológico delicado.

Necessário se faz procurar um equilíbrio entre trabalho profissional e vida de família. O trabalho pode ser fonte de realização, mas também pode ser fuga, evasão. Não podemos dizer que nos amamos como marido e mulher, como pais e filhos quando ninguém tem tempo para ninguém.

A vida existe se criarmos felicidade

“Criar a felicidade é dar a cada membro da família o sentimento profundo, a convicção de ser amado por si mesmo. Um tal desenvolvimento resulta do conhecimento e da acolhida do que somos, do que  pensamos, do que dizemos e é consequência também da certeza de reconciliação. O que faz com que um filho se sinta  feliz de voltar para casa em vez de retardar o mais possível a sua volta? E a mesma coisa com o casal? É saber que lá é esperado, lá tem um lugar e alguém contente em reencontrá-lo, de falar com ele”.

O ambiente familiar que ajuda o crescimento é aquele em que as pessoas não se sentem julgadas o tempo todo.  Quando em família há sempre um  clima de julgamento,  de cobrança, de condenação as pessoas não se sentirão acolhidas. A “correção da rota” precisa ser feita. Não pode ser postergada, mas será feita sempre  no pano de fundo da confiança e da paciência vigilante.

Todos nós  temos sonhos, vivemos conflitos, trazemos traumas que herdamos de nossa infância e da família de origem.  Há pessoas que tiveram uma juventude e um começo de vida madura  marcados pelo negativo e ruminam sentimento de culpa.  Ora, a família  é um espaço de terapia de nossas doenças, de cura das feridas, de fortalecimento de nosso interior.  “A felicidade consiste em assumir o que é preciso assumir, em libertar-nos do que pode nos causar mal, em curar mutuamente nossas feridas, em nutrir-nos do calor de nossa comunidade familiar, de nossa comunhão, para depois nos dispersarmos e construirmos o mundo”.

Criamos uma família que busca a felicidade na medida em que nos dispomos a acolher o diferente, em perdoar os momentos de explosão intempestiva, em ajudar o outro a reencontrar o norte da vida depois de loucuras e desvarios.

Questões:

●  Quais as melhores lembranças de nossa infância?

●  O que haveremos de nos lembra agora, no atual momento da vida da família?

●  Nem sempre pais e filhos  podem reunir-se. O que significa uma presença de qualidade dos pais na vida dos filhos e  vice-versa?