Vida CristãReflexões › 25/10/2011

Meu recado final

Por Dom Frei Quirino Schmitz

“Percebo, sempre mais, que se aproxima o fim da segunda etapa de minha vida. A primeira foi de nove meses, no seio de minha mãe. A terceira, última e definitiva, terá início após a dolorosa despedida desta Terra. A esta, segue o viver pleno e total na luz da glória, face a face com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em companhia de todos os santos e anjos de Deus (Cf. 1Cor 13,12 e 1Jo 3,2).

Chamado à Profissão Religiosa na Ordem dos Frades Menores, em 1938, renunciei mesmo à herança paterna. Desde então, procurei colocar-me à disposição do Reino de Deus, segundo a norma do Evangelho (Cf. Mc 10,17-30). Nomeado Bispo pelo Papa João XXIII, em 1960, escolhi como lema aquilo que São Francisco de Assis queria: Viver o Evangelho. Eu o traduzi por Evangelio Inbaerere, ou seja, quero estar “comprometido com o Evangelho”.

Comprado por um preço muito alto, isto é, o sangue de Jesus (Cf. 1Pd 1,09), sei que o Pai me ama sem medida. Feito conviva diário da mesa do Corpo e do Sangue do Senhor, eu sentia que a vida de Deus recebida no Batismo se robustecia em mim. É esta a garantia da minha ressurreição gloriosa (Cf. Jô 6,54-58). Confio na bondade do Pai e não em algum mérito meu. De minha parte, só tenho a lamentar fraquezas e pecados, como nervosismos no trabalho pastoral.

O Espírito Santo, prometido por Jesus, foi enviado pelo Pai para ficar eternamente conosco (Cf. Jô 14,16). A Seu sopro restaurador procurei expor-me cada dia, e peço que todos o façam, orando comigo: Ó Espírito Santo, eu Vos adoro presente em mim. Sois vida e luz! Alumiai-me, guiai-me, consolai-me, defendei-me, renovai todo o meu ser. Ensinai-me a saborear a Palavra do Pai, que é o próprio Jesus. Nos momentos de indecisão, dai-me ordens: prometo obedecer! Para o bem das comunidades, multiplicai os servidores da Palavra e do Pão.

Alegro-me com a intercessão de Maria, a Mãe de Jesus. A ela confiei, logo no início, o meu ministério sacerdotal.

Sinto-me profundamente ligado à vida desta segunda etapa da minha existência. Aceito, porém, prontamente, o chamado do Pai. Assim agindo, penso tornar mais preciosos aos olhos de Deus os sofrimentos da despedida, e mais radiante o meu encontro com Ele.

Peço perdão aos que, por acaso, tenha magoado. De minha parte, também perdôo àqueles que tentaram ferir-me no exercício da minha missão de pastor. Rogo-lhes, porém, que deponham as armas da incompreensão, como o fez Paulo, quando ainda perseguia a Igreja de Deus (Cf. At 9,1-6 e 1Cor 15,9). Eu lhes suplico que aceitem a Igreja, que deve ser a encarnação de Jesus na vida do povo de hoje.

A todos deixo um abraço fraterno, muito especialmente aos padres e ao Bispo da diocese de Teófilo Otoni e a todas as pessoas consagradas à vida religiosa.

Aos confrades franciscanos e aos meus familiares desejo Paz e Bem.

(Dom Frei Quirino faleceu no dia 20 de julho)

Do livro “Pastor Inquieto” de Dom Quirino Schmitz, pp.229-230, 2005, Ed. Santuário