Testemunha de um Deus vivo e atuante

Francisco deu ao mundo uma vida de simplicidade radical, desvinculada de quaisquer posses e, portanto, livre para seguir os acenos da graça e o caminho que leva a Deus, a qualquer momento e em qualquer lugar em que Deus o chamasse. Seu espírito possuía excepcional espontaneidade: corria ao encontro das necessidades alheias, assim como se apressava em chegar até Deus, que continuamente o convidava a novas aventuras.

Francisco não era um teórico da vida espiritual. Jamais falava de Deus a não ser em termos de experiência, porque era testemunha de um Deus vivo e atuante. Falava somente daquilo que conhecia, ouvia e sentia. Nesse particular, nós o vemos, ao longo dos séculos, como exemplo do que Deus é capaz de fazer, isto é, principalmente maravilhar-nos, alterar radicalmente a maneira pela qual vivemos e agimos.

Nos trechos dramáticos de sua própria vida, e na forma pela qual um playboy simpático, mas um tanto vazio se transformou em modelo de servidor do mundo, ele revelou a presença de Deus no tempo e na história. Em outras palavras, sua credibilidade é grande por haver ele demonstrado que nosso melhor momento acontece quando ousamos permitir que Deus penetre em nossas vidas.

Os extremos da vida de Francisco, durante os quais ele passou de playboy a penitente, e de pobre a santo, revelam um indivíduo que se colocou à margem do mundo. Em sua identificação com aqueles que a sociedade polida rejeita, Francisco questionou a insensatez de confiar no dinheiro, nos bens e coisas materiais em busca da felicidade.

Sua figura atrai praticamente a todos, provavelmente porque (ao contrário da maioria dos santos) ele não é propriedade da Igreja Católica Romana. Sua primeira grande biografia moderna foi escrita por um protestante francês; um dos mais importantes historiadores do franciscanismo foi um bispo anglicano; um ortodoxo grego é autor de um vigoroso romance sobre sua vida; e para ser fotografado em uma conferência de paz em Assis, o Dalai Lama quis sentar-se no lugar que Francisco mais amava, e no qual morreu.

De Donald Spoto, extraído do livro “Francisco de Assis, um Santo Relutante”, Editora Objetiva.