A formação na Província

 

franciscoordem

Frei César Külkamp, ofm
Secretário de Formação e Estudos

A caminhada de formação de um Frade menor tem sua inspiração direta na figura de São Francisco de Assis. Com o coração profundamente enamorado, ele pôs-se num caminho de seguimento de Jesus Cristo até as últimas conseqüências. Fez do Evangelho a “forma de vida”(1) que se tornou luz para toda a Igreja e despertou no coração de incontáveis homens e mulheres o desejo de imitá-lo (2). É esta mesma paixão que move e dá sentido àquilo que os frades menores são e fazem.

Seguindo essa inspiração, a formação franciscana vai ser o instrumento capaz de levar cada indivíduo a “centrar-se naquilo que para ele deve ser tudo: o bem, todo o bem, o sumo bem (3). Por isso, ter o coração voltado para o Senhor (4) deve ser a prioridade das prioridades de cada frade menor. Afastar todo o impedimento ou colocar de lado qualquer preocupação para poder servir, amar e honrar o Senhor Deus, com o coração limpo e com a mente pura (5), eis o grande desafio de todo o Frade menor, de todo o seguidor de Jesus.” (6)

A formação franciscana, portanto, não se refere a um período determinado de aprendizado de conteúdos necessários à realização de uma tarefa. Trata-se de um processo que envolve toda a vida de um frade menor (7).

Por isso, a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, desde sua fundação e restauração, atenta aos sinais dos tempos, preocupou-se em proporcionar uma sólida formação a seus membros (espiritual, intelectual e prática), criando e mantendo centros para esse fim e desenvolvendo programas e estruturas que atendessem aos desafios de cada época.

Hoje, da mesma forma, a Província se empenha por garantir uma formação que melhor qualifique o frade para um testemunho autêntico e profético num mundo que desafia por sua constante transformação. Esse caminho formativo realiza-se no espírito de oração e devoção, na comunhão de vida em fraternidade, no testemunho de penitência e minoridade, pobreza e solidariedade, e, como Igreja, partindo em missão.

Dentro de sua estrutura, a Província dispõe de um Secretariado para a Formação e os Estudos, com a missão de assessorar o Ministro Provincial e seu Definitório na promoção e coordenação de todo esse serviço. O Secretariado atua através de quatro Departamentos: Formação Permanente, Formação Inicial, Professores e Frades Estudantes.

O Caminho Formativo

A formação na Província é organizada em diversas etapas e faixas etárias, respeitando em cada uma a gradualidade e a especificidade, com o objetivo de garantir uma melhor qualidade no aperfeiçoamento, na atualização e no revigoramento da vida e da atividade dos Frades (8).

Em todo esse serviço a Província dedica especial atenção na escolha e formação espiritual e pedagógica de frades que assumem o cuidado espiritual e fraterno de outros frades e candidatos, ajudando cada qual a crescer na maturidade humana e vocacional (9). O Ministro Provincial confia esses irmãos aos frades guardiães e formadores (10), chamados de mestres ou orientadores, que realizam seu trabalho em colaboração com toda a fraternidade e servindo-se da ajuda de outros profissionais, tanto para o discernimento vocacional como para a formação do homem novo, autenticamente livre (11). Fundamental é que o formador partilhe a própria experiência “nos caminhos que levam a Deus” (12) e aponte para os modelos referenciais de Jesus Cristo, São Francisco e outros colhidos na história e tradição da Igreja e da Ordem.

Formação Permanente

Tudo o que foi descrito até aqui pode ser chamado de Formação Permanente, pois se refere ao processo de conversão, de crescimento pessoal, espiritual, profissional e ministerial que todo frade tem como tarefa de vida.

A Província, no entanto, possui um programa de Formação Permanente com conteúdos e modalidades distribuídos em faixas etárias (13) e complementado por um projeto de vida fraterna e por encontros e atividades promovidos pela fraternidade local, regional e pelas áreas de serviço à Província, à Igreja e à sociedade (capítulos, retiros anuais e mensais, partilha da palavra de Deus, revisões periódicas de vida, recreios, datas comemorativas, encontros de revigoramento, cursos de qualificação e atualização, passeios comuns, conservação e atualização das bibliotecas, conselhos dos secretariados, reuniões dos departamentos, entre outros) (14).

O Departamento da Formação Permanente é constituído por um Moderador e seu Conselho, em assessoria direta ao Ministro Provincial, com a competência de promover o planejamento, a execução e a revisão dos programas formativos das diversas faixas etárias (15).

Serviço de Animação Vocacional

O Serviço de Animação Vocacional (SAV) tem a missão de coordenar e animar o trabalho vocacional nas diferentes frentes da Fraternidade Provincial. A Animação Vocacional, partindo do testemunho de vida dos frades, consiste em sensibilizar o povo de Deus a buscar sua própria vocação no mundo e na Igreja e em suscitar, acolher e apoiar novas vocações para a Ordem dos Frades Menores (16). Este serviço encontra seu vigor na atualidade e pertinência do ideal evangélico de Francisco de Assis.
O Serviço de Animação Vocacional, coordenado pelos Animadores Provinciais das Vocações, num trabalho colegiado com os Animadores Vocacionais Regionais e Locais, auxilia as fraternidades a anunciarem e a proporem o projeto de vida do frade menor hoje e prepara as mesmas para acolherem aqueles que se mostram interessados pelo carisma franciscano (17).

Cada fraternidade é responsável por promover momentos de oração, encontros, tríduos ou missões populares nos tempos fortes vocacionais, nas festas franciscanas, na celebração de jubileus, profissões, ordenações e outros eventos, de tal modo que a sua preparação torna-se ocasião apropriada para despertar vocações franciscanas (18).

O Animador Local das Vocações nomeado pelo Governo Provincial tem a tarefa de dinamizar este trabalho, promover, com a colaboração de leigos, o contato e o diálogo com os jovens e adolescentes, e acompanhar os que se preparam para ingressar na formação da Província.

Para aprimorar este acompanhamento, a Província mantém casas de Aspirantados onde, mediante a convivência com os Frades e a orientação de formadores, os candidatos empreendem uma caminhada de maior conhecimento de si mesmos, de Jesus Cristo e de São Francisco de Assis:

1. O Seminário São Francisco de Assis, estruturado como escola própria e exclusiva aos seminaristas, oferece as possibilidades para o discernimento vocacional ao mesmo tempo em que promove um Ensino Médio de qualidade, diferenciado e mais individualizado, favorecendo ainda o desenvolvimento de outras áreas do conhecimento como a música, o teatro, as línguas clássicas, a oratória, o esporte, entre outras.

2. As Fraternidades de Acolhimento Vocacional (FAVs). Todos os Frades e Fraternidades sejam responsáveis pela Pastoral vocacional e se constituam em Fraternidades de Acolhimento Vocacional (FAVs), ou seja, lugares onde um jovem ou adolescente possa encontrar acolhida para seus anseios vocacionais e respostas às suas indagações existenciais (OPV 16,2).

A partir do apelo que nos fez a Ordem e da ampla reflexão realizada na Província sobre esse assunto, nesses últimos anos, o Capítulo Provincial de 2009 decidiu que, a partir de 2011, a etapa do Aspirantado para os candidatos que já concluíram o Ensino Médio seja feita em Fraternidades de Acolhimento Vocacional (FAVs).

A Fraternidade de Acompanhamento Vocacional (FAV) é o lugar no qual se propõe ao jovem o acompanhamento e o discernimento vocacional. Além disso, é o lugar no qual o jovem faz a experiência concreta do nosso carisma de vida fraterna na perspectiva do “vem e vê” (cfr. Jo 1,39). Parte-se do princípio de que a melhor animação vocacional consiste no testemunho alegre da radicalidade de nossa vida franciscana, através da oração, da devoção e da vida em fraternidade e em minoridade; tendo-se consciência de que acolher os jovens na fraternidade estimula o crescimento dos próprios jovens e dos frades; acontece uma reciprocidade de crescimento e formação. A experiência numa FAV acontece em duas etapas: a primeira etapa, de aproximadamente cinco meses, num pequeno grupo, numa das fraternidades da Província para isso determinadas pelo Governo Provincial;  a segunda etapa, de aproximadamente quatro meses, com todo o grupo, numa mesma casa, provenientes das diversas experiências de fraternidade, para um tempo de entrosamento, visando valorizar a vida comunitária do próprio grupo como lugar de crescimento humano/espiritual. Terminada a etapa do Aspirantado, o Aspirante fará o seu pedido para ingressar no Postulantado.

A Formação Inicial

A formação inicial é um tempo privilegiado em que os candidatos, com especial acompanhamento dos mestres e da fraternidade formadora, são iniciados no seguimento de Cristo, segundo a forma de São Francisco e a tradição da Ordem, assumindo e integrando progressivamente seus particulares dons pessoais com os valores autênticos e característicos da vocação evangélica do frade menor (19).

A formação inicial estrutura‑se em três etapas consecutivas: o Postulantado, o Noviciado e o tempo da Profissão Temporária, nas quais o candidato cresce e amadurece até emitir a Profissão Solene, onde assume definitivamente a vida e a Regra dos Frades Menores (20).

Essas três etapas da formação inicial acontecem em casas, designadas para esse fim, com um conteúdo programático organizado em harmonia com a vida fraterna, a vida de oração, a vida comunitária, o acompanhamento pessoal, os estudos filosóficos e teológicos, a participação na comunidade eclesial, o trabalho manual, o lazer e as demais atividades religiosas, acadêmicas e culturais.

O Departamento da Formação Inicial é composto pelos mestres e orientadores das casas de formação e pelos membros das equipes de formação, nomeados pelo Governo Provincial. Ao Departamento compete garantir a harmonia entre as diversas etapas e entre os formadores e a gradualidade dos conteúdos e métodos formativos, a fim de levar os candidatos ao desenvolvimento integral das dimensões humana, cristã e franciscana (21).

1. O Postulantado é realizado em Guaratinguetá, SP, durante um ano. Além da formação interna e de algumas atividades apostólicas como o acolhimento de romeiros do Beato Frei Galvão e a participação semanal nos Círculos bíblicos, os postulantes participam de uma experiência de trabalho e convivência junto aos sofredores de rua assistidos pelo Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade), em São Paulo.

2. O Noviciado tem também a duração de um ano completo e acontece em Rodeio, SC, pequena cidade de descendentes de italianos, onde o grupo é levado a um confronto maior consigo mesmo, com trabalhos manuais dos mais diversos e com experiências contemplativas no Eremitério Beato Frei Egídio.

3. A Profissão Temporária é vivida simultaneamente com os cursos de Filosofia (3 anos) e de Teologia (4 anos) na Fraternidade São Boaventura, em Campo Largo (PR), próximo a Curitiba (organizada em casas próximas que funcionam como fraternidades com membros de turmas diferentes) e nas Pequenas Fraternidades de Petrópolis (RJ), e Baixada Fluminense. Além da formação acadêmica, os frades estudantes continuam o estudo e meditação das Fontes Franciscanas, engajam-se em atividades apostólicas planejadas e realizam estágios de convivência, trabalho e apostolado nas fraternidades da Província. Atualmente, a Província pede que o frade tenha quatro anos completos de profissão temporária para pedir a Profissão Solene.

O estudo, como resposta à própria vocação, é uma dimensão indispensável à formação integral e ao serviço do Reino. A Província pede de seus membros, conforme o pendor de cada um, o aperfeiçoamento constante, em nível teórico e técnico-profissional, tanto em relação ao exercício de ministérios eclesiais ordenados quanto em outras frentes de evangelização que lhes são próprias.(22) Os frades confirmam, assim, sua vocação intelectual(23) buscando Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (24) e servindo-o nas criaturas e nas pessoas, especialmente nos “leprosos” de hoje.

Todos os frades encarregados do ensino nas diversas casas e etapas de formação constituem o Departamento dos Professores, com a atribuição de fomentar os conhecimentos filosófico, teológico e científico, inspirando-se na tradição da Igreja, particularmente da Escola Franciscana, com atenção aos desafios do mundo atual. Para os cursos de Filosofia e Teologia a Província dispõe de dois centros de estudos, ambos reconhecidos pelo MEC e, portanto, abertos também para estudantes leigos:

Faculdade São Boaventura, em Curitiba, PR, inserida no Centro Universitário da Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus.

Instituto Teológico Franciscano, em Petrópolis, RJ, também afiliado à Pontifícia Universidade Antoniana, de Roma.
Os frades estudantes destes dois cursos formam o Departamento dos Frades Estudantes com o objetivo de promover maior integração e diálogo entre si e colaborar no tratamento de assuntos relativos à formação e aos estudos. Com este fim, o Departamento realiza, a cada dois anos, uma Assembléia Geral dos Frades Estudantes, onde são abordadas temáticas de formação humana, cristã e franciscana, além de análises de conjuntura e é promovido o intercâmbio das etapas, a revisão do processo formativo e a avaliação das opções evangelizadoras da Província.

Já há alguns anos, a Província está empenhada na elaboração das Diretrizes para a Formação e para os Estudos. Este documento certamente trará uma grande contribuição ao apresentar, de forma ainda mais clara, a unidade, a gradualidade e a especificidade de cada etapa do itinerário formativo, suas exigências próprias e os meios pedagógicos mais adequados aos valores que se quer cultivar. Tudo isso com o fim último de levar cada frade a compreender que sua formação, planejada de forma orgânica e coerente, realiza-se no contexto da vida cotidiana, o lugar da sua salvação e, consequentemente, o húmus da animação vocacional e da formação inicial (25).

Que todo esse empenho de frades e candidatos possa auxiliá-los na disposição de entregar a própria vida no seguimento do único Mestre, fazendo com que toda a Fraternidade Provincial, fiel à sua história, responda, com ousadia e criatividade, aos desafios do mundo de hoje.

(1) cf. 1Cel 30,84
(2) cf. CA 7,1
(3) LD 3
(4) cf. RnB 22,19
(5) cf. RnB 22,26
(6) A Graça das Origens: VIII Centenário da Fundação da Ordem dos Frades Menores, pg. 4. Documentos da Ordem, Roma, 2004
(7) Vita Consecrata 65; CCGG 135
(8) cf. FP 38
(9) RFF 97
(10) RFF 92
(11) VC 66
(12) En Camino Hacia el Futuro: propuestas para la formación y los estúdios, 3; Santiago de Compostela, 2000
(13) VC 70; FP 45; TVSI V, 1-2; EEPP 51 §2
(14) CCGG 137 §2; RFF119-121; EEP 88
(15) EEGG 81 §2; EEP 51
(16) CCGG 144 e 145 §1; CPO 81 24;; OrPV 19,1;21,1
(17) CCGG 144; 145 §2; RFF 158
(18) EEP 55
(19) RFF 117
(20) RFF 118
(21) RFF 177 e 178
(22) RS, 80-98; RFF, 220-240; CCGG 160-167. Cf. também: Formação dos presbíteros da Igreja no Brasil – Diretrizes básicas (Documentos da CNBB – 55), 1995, 183-190
(23) Sobre o termo “vocação intelectual”, cf. Carballo J.R., O sabor da palavra…, p. 23
(24) Jo 14,6
(25) RFF 108