Vida CristãLiturgia dominical

7º Domingo do Tempo Comum/ Ano A

23Violência e resistência 

1ª Leitura: Lv 19,1-2.17-18
Sl 102
2ª Leitura: 1Cor 3,16-23
Evangelho: Mt 5, 38-48

-* 38 «Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, lhes digo: não se vinguem de quem fez o mal a vocês. Pelo contrário: se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! 40 Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! 41 Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele! 42 Dê a quem lhe pedir, e não vire as costas a quem lhe pedir emprestado.»

Amar como o Pai ama -* 43 «Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’ 44 Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! 45 Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. 46 Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47 E se vocês cumprimentam somente seus irmãos, o que é que vocês fazem de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.»


* 38-42: Como se pode superar a vingança ou até mesmo a «justa» punição? O Evangelho propõe atitude nova, a fim de eliminar pela raiz o círculo infernal da violência: a resistência ao inimigo não deve ser feita com as mesmas armas usadas por ele, mas através de comportamento que o desarme.

* 43-48: O Evangelho abre a perspectiva do relacionamento humano para além das fronteiras que os homens costumam construir. Amar o inimigo é entrar em relação concreta com aquele que também é amado por Deus, mas que se apresenta como problema para mim. Os conflitos também são uma tarefa do amor. O v. 48 é a conclusão e a chave para se compreender todo o conjunto formado por 5,17-47: os discípulos são convidados a um comportamento que os torne filhos testemunhando a justiça do Pai. Sobre os cobradores de impostos, cf. nota em Mc 2,13-17.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

23

Ser bom como Deus: amar de graça

O evangelho de hoje continua com a interpretação da Lei que Jesus propõe no Sermão da Montanha (cf. dom. passado). Jesus supera a justiça do A.T., que se guiava pela lei do “talião” (do “tal qual”), “olho por olho, dente por dente” (uma maneira de refrear a vingança ilimitada). A posição de Jesus parece compreensível, pois pagando o mal com o mal nunca se sai do statu quo, da violência, da vingança. Mas o que Jesus quer é mais do que isso: dar mais do que nos é pedido e até amar os inimigos. Como é que se pode gostar de quem não se gosta?

Novamente, Jesus não pergunta se é possível. Só diz que deve ser assim, pois Deus é assim mesmo! Deus faz o sol surgir sobre bons e maus e a chuva descer sobre justos e injustos. Pois todos são os seus filhos. “Mas, dirá alguém, eu não sou Deus”. E a resposta de Jesus: “Não és Deus, mas procura ser como ele: perfeito como teu Pai celeste é perfeito; então, serás realmente seu filho!”

Jesus não veio para facilitar nossa vida, mas para nos tomar semelhantes a Deus, mesmo se ficamos sempre devendo e sabemos que, por nossa própria força, nunca chegaremos a isso. Também não é uma questão de esforço, mas de amor e de graça. Uma vez conscientes de que Deus nos ama de graça (cf. Rm 5,6-8 e 1104,10.19), já não vamos achar estranho amar de graça os que não nos amam (mesmo se devemos combatê-los quando oprimem os mais fracos … ). Se entendermos o amor gratuito, não vamos achar absurdo convidar os que não nos podem retribuir (cf. Lc 14,12-14). O amor de Deus é criador: cria uma situação nova, que não existia antes. Quando nos sabemos envolvidos nesse amor paterno criador e gratuito, seremos capazes de imitá-lo um pouco. Seremos, não por nosso esforço, mas por saber-nos amados, realmente os seus filhos. E almejaremos o dia em que a morte porá fim às nossas incoerências, para que Ele nos acolha plena e definitivamente.

Na 1ª leitura, encontramos juntos, já no Antigo Testamento, os mandamentos de não guardar rancor e do amor ao próximo (Lv 19,17-18; cf. Lv 19,35, o amor ao estrangeiro). Todos esses mandamentos se baseiam na mesma verdade: todas as pessoas são filhos do mesmo Pai. Poderíamos acrescentar o amor ao insignificante, ao pobre, ao marginal, amor este que serve de critério para ver se a nossa vida é compatível com a eterna companhia de Deus, nosso Pai (Mt 25,31-46).

A liturgia de hoje supõe, portanto, que estejamos imbuídos da consciência filial com relação a Deus. “Bendize, ó minha alma, o Senhor, e jamais te esquece de todos os seus benefícios” (salmo responsorial).

Na 2ª leitura continua a polêmica de Paulo com a sabedoria do mundo, por ocasião da divisão que a vanglória, o partidarismo e outras atitudes demasiadamente humanas causaram na comunidade de Corinto. Tal divisão é o contrário daquilo que o evangelho ensina. Reconhecendo o evangelho como única sabedoria válida, devemos dizer, com Paulo, que os critérios humanos são loucura diante de Deus. Paulo ironiza os coríntios, dos quais uns diziam: “Eu sou de Paulo”, ou “de Apolo”, “de Cefas” ou até “de Cristo” … “Ainda bem que quase não batizei ninguém”, observa Paulo, brincando (lCor 1,14). E mais adiante conclui: “Todos nós, apóstolos, somos vossos; e não só nós, toda a realidade da criação é vossa … mas vós sois de Cristo, e Cristo de Deus” (3,21-23). Hoje ouvimos: “Eu sou de tal movimento, de tal ‘teologia’, de tal tradição”. Mas não faz diferença: somos de Cristo, e Cristo, de Deus. Por isso devemos ser como Cristo e como Deus. Isto, porém, não o conseguiremos por um vaidoso esforço de nossa vontade, mas somente se nos deixarmos envolver no amor gratuito que Deus nos testemunhou em Jesus, dado por nós até o fim.

O prefácio dos domingos do tempo comum VII focaliza o amor gratuito de Deus para conosco. Os cantos (entrada, meditação, comunhão opção I) expressam louvor e gratidão por este amor de Deus. A oração do dia nos suscita o desejo de nos conformarmos com ele.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

23

Ser perfeito como Deus!

Quem hoje pretendesse querer ser perfeito como Deus granjearia alguns sorrisos irônicos … E, contudo, é o que Jesus ensina no Sermão da Montanha (evangelho). A vocação à perfeição “como Deus” é um tema fundamental para a vida de todo cristão – não só para os santos e beatos.

Na primeira página da Bíblia está que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,26). Ele quer ver sua imagem em seu povo eleito, Israel: “Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou santo” (1ª leitura). Pela aliança, os israelitas “são de Deus”. Ora, Deus não quer envergonhar-se de sua gente. Por isso, quer que sejam irrepreensíveis, e uma das suas exigências é que eles não briguem entre si, não se matem em eternas vinganças etc. Numa palavra: que amem seus “próximos” (= compatriotas) como a si mesmos (Lv 19,18). Ora, ninguém entende como Jesus, o que exige essa pertença a Deus. Deus é o Pai de todos, de bons e maus, e ama a todos como a seus filhos. Então nós, seu povo, devemos também amar a todos, inclusive os inimigos! Assim nos mostraremos semelhantes a Deus e realizaremos a vocação de nossa criação.

O homem moderno (como o de todos os tempos) gosta de ser seu próprio deus. Em vez de querer ser semelhante a Deus, só olha no espelho … Será por isso que existem inimizades tão cruéis em nosso mundo, a violência descarada das bombas atômicas, a violência “limpa” das “guerras cirúrgicas”, a cínica exploração das massas populares? No mundo reina divisão, entre nações, religiões, classes sociais; até na Igreja ricos e pobres vivem separados. Onde existe esse amor ao inimigo que Jesus ensina? Pois bem, exatamente por causa dessas divisões, o amor ao inimigo é indispensável. Se todos estivéssemos perfeitamente de acordo, não precisaríamos desse ensinamento de Jesus! As lutas e divisões que são a matéria da História e que têm reflexos mesmo entre os fiéis não devem excluir o amor à pessoa, ainda que se lute contra sua ideia ou posição. As divergências tornam ainda mais necessário o amor – que consistirá talvez em mostrar ao “inimigo” que ele defende um projeto errado ou injusto …

O ser humano realiza sua vocação de ser semelhante a Deus, quando ama a todos com o amor gratuito de Deus, sem procurar qualquer compensação. Por essa razão, deve empenhar-se de modo especial pelos pobres, estranhos etc. – e também amar os inimigos.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes