Vida CristãLiturgia dominical

Terceiro Domingo do Advento/Ano B

terceiro-830

A testemunha não é o Salvador

Primeira leitura: Is 61,1-2a.10-11
Salmo responsorial:
(Lc 1,46-48.49-50.53-54) O Magnificat
Segunda leitura: 1Ts 5,16-24
Evangelho: Jo 1,5-8.19-28

6 Apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João. 7 Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8 Ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz.

-* 19 O testemunho de João foi assim. As autoridades dos judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntarem a João: «Quem é você?» 20 João confessou e não negou.

Ele confessou: «Eu não sou o Messias.» 21 Eles perguntaram: «Então, quem é você? Elias?» João disse: «Não sou.» Eles perguntaram: «Você é o Profeta?» Ele respondeu: «Não.» Então perguntaram: 22 «Quem é você? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. Quem você diz que é?» 23 João declarou: «Eu sou uma voz gritando no deserto: ‘Aplainem o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías.»

24 Os que tinham sido enviados eram da parte dos fariseus. 25 E eles continuaram perguntando: «Então, por que é que você batiza, se não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» 26 João respondeu: «Eu batizo com água, mas no meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem, 27 e que vem depois de mim. Eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias dele.»

28 Isso aconteceu em Betânia, na outra margem do Jordão, onde João estava batizando.


* 1,1-18: O Prólogo de João lembra a introdução do Gênesis (1,1-31; 2,1-4a). No começo, antes da criação, o Filho de Deus já existia em Deus, voltado para o Pai: estava em Deus, como a Expressão de Deus, eterna e invisível. O Filho é a Imagem do Pai, e o Pai se vê totalmente no Filho, ambos num eterno diálogo e mútua comunicação.

A Palavra é a Sabedoria de Deus vislumbrada nas maravilhas do mundo e no desenrolar da história, de modo que, em todos os tempos, os homens sempre tiveram e têm algum conhecimento dela.

Jesus, Palavra de Deus, é a luz que ilumina a consciência de todo homem. Mas, para onde nos conduziria essa luz? A Bíblia toda afirma que Deus é amor e fidelidade. Levado pelo seu imenso amor e fiel às suas promessas, Deus quis introduzir os homens onde jamais teriam pensado: partilhar a própria vida e felicidade de Deus. E para isso a Palavra se fez homem e veio à sua própria casa, neste seu mundo.

A humanidade já não está condenada a caminhar cegamente, guiando-se por pequenas luzes no meio das trevas, por pequenas manifestações de Deus, mas pelo próprio Jesus, Manifestação total de Deus. Com efeito, Jesus Cristo, que é a luz, veio para tornar filhos de Deus todos os homens. Um só é o Filho, porém, todos podem tornar-se bem mais do que filhos adotivos: nasceram de Deus.

Deus tinha dado uma lei por meio de Moisés. E todos os judeus achavam que essa lei era o maior presente de Deus. Na realidade, era bem mais o que Deus tinha reservado para todos. Porque Jesus, o Deus Filho, o verdadeiro e total Dom do Pai, é o único que pode falar de Deus Pai, porque comunica o amor e a fidelidade do Deus que dá a vida aos homens.


* 19-28: Quando João Batista começou a pregação, os judeus estavam esperando o Messias, que iria libertá-los da miséria e da dominação estrangeira. João anunciava que a chegada do Messias estava próxima e pedia a adesão do povo, selando-a com o batismo. As autoridades religiosas estavam preocupadas e mandaram investigar se João pretendia ser ele o Messias. João nega ser o Messias, denuncia a culpa das autoridades, e dá uma notícia inquietante: o Messias já está presente a fim de inaugurar uma nova era para o povo.

Messias é o nome que os judeus davam ao Salvador esperado. Também o chamavam o Profeta. E, conforme se acreditava, antes de sua vinda deveria reaparecer o profeta Elias.

João Batista é a testemunha que tem como função preparar o caminho para os homens chegarem até Jesus. Ora, a testemunha deve ser sincera, e não querer o lugar da pessoa que ela está testemunhando.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

terceiro-830

Alegria: o Senhor está no meio de nós

No domingo anterior vimos a figura de João Batista, como a apresenta o evangelho de Mc. Hoje, no evangelho, podemos ver como o evangelista João interpreta a figura do Batista, não mais caracterizada pelo tema da conversão, mas pelo do testemunho. No evangelho de Mc, centrado sobre Jesus que proclama a chegada do Reino de Deus, o Batista é o profeta escatológico, o novo Elias, que deve preparar os corações para que, mediante a conversão, participem do Reino.

A visão do evangelho de João é um tanto diferente. O conceito do “Reino” falta praticamente em Jo (é substituído pelo de “vida eterna”). Jo evita a historização do Reino; o Reino (de Jesus) não é deste mundo (Jo 18,36). Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama de “reino”, mas em Jesus mesmo (14,9). Escrevendo num outro contexto, Jo evita os tradicionais conceitos

apocalípticos: o reino, o profeta do Fim etc. Por isso, em Jo 1,19-21, o Batista recusa os traços de sabor apocalíptico, por exemplo, do novo Elias, que os outros evangelhos lhe atribuem. Ele não é um personagem apocalíptico, ele é a “voz de quem grita no deserto” (cf. Is 40,3; Jo 1,22-23), uma testemunha (lo 1,6-8.19.34; 3,26; 5,33).

Ele não é a luz do mundo, que é Jesus (1,6-8 8,12; 9,5), mas apenas uma lâmpada provisória (5,35). Seu batismo não é propriamente uma atuação escatológica, mas um sinal que aponta para o Enviado de Deus, o qual está, desconhecido, no meio do mundo (1,26). E, de fato, na continuação do texto, o Batista vai mostrar a seus discípulos Jesus como o Cordeiro de Deus (1,29.36, cf. 3,30).

A Luz que o Batista aponta está no mundo, mas o mundo não a quer conhecer (1,5.9-11). A parcela incrédula do mundo gosta de ficar nas trevas (3,19-20), cega (9,39-41). Se, portanto, o Batista aponta essa Luz como estando presente, desconhecida, no meio de nós (1,26), ele não apenas quer dizer que (ainda) não tivemos a chance de descobri-la, mas sugere que é preciso querer descobri-la. Para poder ver é preciso querer ver. Assim, o evangelho de hoje desperta em nós a necessidade de uma decisão pelas palavras do Batista: “No meio de vós está quem vós não conheceis”, somos convidados a querer descobri-lo, dilatando nosso coração em alegria.

A liturgia de hoje está banhada na alegria (é o antigo domingo “Gaudete”). Alegria do antigo povo de Israel, que, de volta do exílio, mas ainda não bem estabelecido, espera dias melhores para breve; pois o profeta lhe é enviado com uma missão particular do Senhor (isto significa sua unção, Is 61,1) anunciar a boa-nova da perfeita restauração da paz e justiça, ao povo oprimido: os pobres, os cativos, os sofridos; proclamar um ano de graça, isto é, um ano sabático ou um jubileu, instituições de Israel para restabelecer, na sociedade, chances iguais para cada um (devolução das terras hipotecadas, libertação dos escravos etc.). A perspectiva de tal restauração da harmonia (não temos conhecimento de que ela foi jamais realizada) provoca no profeta um grito de júbilo, como de um noivo ou noiva preparando-se para as núpcias. A justiça de Deus (a ordem sonhada por Deus) tornar-se-á coisa tão natural e cotidiana, tão vital e promissora quanto o germinar das frutas da terra. A liturgia completa este “Magnificat do Antigo Testamento” (Is 61,10-11; 1ª leitura) com o do N.T., que é o canto responsorial de hoje. Surge, destes textos, a imagem do Deus Libertador, que se dirige, em primeiro lugar, aos que mais esperam: os pobres e humildes. Nestes vive o desejo que permite reconhecer as maravilhas do Senhor.

Também na 2ª leitura vibra a alegria, por uma razão mais profunda ainda: o que Deus quis, afinal, com Jesus Cristo e sua obra, é que sempre possamos estar alegres e agradecer-lhe (1Ts 5,16). Ver-nos felizes, eis o desejo de Deus, ao qual nós respondemos por nosso desejo de vê-lo. Por isso, devemos deixar-nos animar sem cessar por seu Espírito. Na Igreja de Paulo, este Espírito era visível nos carismas. “Não apagar o Espírito” não significa, apenas, guardar vivo o fogo interior, mas também respeitar e incentivar a ação visível do Espírito na atuação carismática dos fiéis. Daí: não desprezar as profecias; antes, ponderar a avaliar tudo e ficar com aquilo que serve. E conservar sua integridade, sua “inteireza”, pois tudo em nós deve ser santo quando vier o Senhor. Ele, por sua parte, não falhará; ele é fiel.

A oração do dia pede que possamos chegar às alegrias (eternas) da salvação e também celebrá-las, desde já, na liturgia. Ora, a liturgia é o momento de moldar a espiritualidade de nossa vida cotidiana. A alegria que ela celebra não é um parêntese em nossa vida, e sim, a manifestação do tom fundamental, o “baixo contínuo” de nossa vida. Articulando em hino e louvor o que vive no fundo de nosso coração e de nossa comunidade, a liturgia nos chama a uma autêntica vivência daquilo que ela articula. Se não formos capazes de participar do “Gaudete” de hoje, esticando nosso pescoço no alegre desejo de ver Aquele que está no meio de nós, alguma coisa não está certa em nós.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

terceiro-830

Alegria por causa de Deus, escondido, mas próximo

Em meio ao estresse de uns e a miséria de outros faz bem ouvir uma mensagem de alegria: “Transbordo de alegria por causa do Senhor… Como a terra produz a vegetação e o jardim faz brotar suas sementes, assim o Senhor fará brotar a justiça e a glória diante de todas as nações”. Este trecho, o “Magnificat do Antigo Testamento”, é a expressão de um povo que acredita na sua renovação, porque Deus está aí (1ª leitura).

Geralmente as pessoas têm medo da presença de Deus (cf. Is 6,5). Foi preciso que Deus se desse a conhecer de maneira diferente para que superássemos esse medo. Mas esse “Deus diferente” estava escondido. Quem nos prepara para a descoberta é João Batista, hoje apresentado na ótica do Evangelho de João. Ele não é a luz, mas vem testemunhar da luz (Jô 1,6-8). Ele não é o Messias, nem o Profeta (novo Moisés), nem Elias (1,21). Ele se identifica com a voz que convida o povo a preparar uma estrada para a chegada do Senhor (1,23, cf. Is 40,3). E anuncia: “No meio de vós está alguém que não conheceis, aquele que vem depois de mim, e do qual não sou digno de desatar a correia da sandália” (1, 26-27). Naquele que o Batista anuncia manifesta-se que Deus está perto de nós, não como realidade assustadora, mas como pessoa humana que nos ama com tanta fidelidade que dá até sua vida por nós. Não é essa uma razão de alegria? Alegria contida, pois sabemos quanto custou a Jesus manifestar a presença de Deus desse jeito…

Por que Deus não veio logo com todo o seu poder? Deus prefere ficar escondido. É discreto. Quer deixar espaço para nós, para construirmos a História que Deus nos confia. Discretamente assim, quer participar ativamente de nossa história, em Jesus, para que aprendamos a fazer a história do jeito dele. E esse jeito se chama shalom: paz e felicidade. Lembrando a vinda de Jesus ao mundo, celebramos a presença discreta de Deus em nossa história. Que significa “alegria” no mundo de hoje? Réveillon num restaurante cinco estrelas? Bem diferente é a imagem que surge da 2ª leitura: “Estai sempre alegres, orai sem cessar, por tudo daí graças. Não apagueis o Espírito….”As primeiras comunidades cristãs viviam na espera da volta gloriosa de Jesus para breve. Eram animadas pelo Espírito de Deus, que os fazia até falar profeticamente. Por isso era preciso “examinar e ficar com o que fosse bom” (5,19), pois havia também “profetas confusos”, como hoje… Mas o importante era que reinasse a alegria por causa da proximidade do Senhor. Deus mesmo quer nos aperfeiçoar e santificar e não desiste: “Quem vos chamou é fiel: ele o fará” (5,24). A alegria é saber-se aceito por Deus, como a amada pelo amado (cf. 1ª leitura).

Talvez esta imagem da alegria não convença todos. É pouco publicitária… Ora, este terceiro domingo do Advento chama-se pela primeira palavra da antiga antífona em latim, “Gaudete”, “Alegrai-vos”. Se não formos capazes de participar dessa alegria, esticando o pescoço no alegre desejo de ver aquele que está discretamente presente no meio de nós, alguma coisa não está certa…

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes