Vida CristãSantos franciscanos › 04/04/2017

São Benedito (o Mouro)

Religioso da Primeira Ordem (1526-1589). Canonizado por Pio VII no dia 24 de maio de 1807

Benedito nasceu em uma aldeia perto de Messina, na Sicília. Seus pais eram cristãos e escravos africanos de um rico proprietário de terras cujo sobrenome (Manasseri) eles adotaram, segundo um costume da época. O senhor de Cristóvão o fez capataz de seus servos e prometeu que Benedito, seu filho mais velho, seria livre. O pequeno se tornou um menino dócil e piedoso, a tal ponto que, com apenas 10 anos, já era chamado “O Preto Santo” (Il moro santo), apelido que o acompanhou por toda a sua vida. Certo dia, quando tinha cerca de 21 anos, foi grosseiramente insultado por alguns vizinhos, que escarneciam da cor de sua pele e da condição social de seus pais.

Aconteceu que nessa mesma ocasião passava pelo local um jovem chamado Lanzi, que se tinha retirado do mundo com alguns companheiros, para viverem a vida de eremitas à imitação de São Francisco de Assis. Ficou grandemente impressionado com a brandura das respostas de Benedito, e, dirigindo-se aos zombadores, afirmou: “Vocês agora gracejam do pobre negro; mas eu lhes digo que não estará muito distante o dia em que vocês ouvirão falar grandes coisas a seu respeito”. Logo depois, a convite de Lanzi, Benedito vendeu os poucos bens que possuía e foi-se juntar aos solitários.

Por diversas vezes, nos anos seguintes, os eremitas foram obrigados a mudar de domicílio e por último se estabeleceram em Montepellegrino, perto de Palermo, já santificado por ter abrigado S. Rosália. Aqui Lanzi morreu e a comunidade escolheu Benedito como seu superior, muito contra sua vontade. Mas, quando ele tinha cerca de 38 anos, o Papa Pio IV decretou que os eremitas deviam dispersar-se ou entrar em alguma Ordem religiosa. Benedito decidiu-se pelos Frades Menores da Observância e foi recebido como irmão leigo no convento de S. Maria perto de Palermo.

Inicialmente, foi empregado como cozinheiro, um posto que combinava com sua natureza retraída e que lhe dava oportunidade de praticar pequenos gestos de gentileza, mas sua bondade extraordinária não pôde passar despercebida. Quando ele estava na capela, sua face brilhava como uma luz sobrenatural, e o alimento parecia multiplicar-se em suas mãos.

Em 1578, quando os Frades Menores da Observância celebravam seu capítulo em Palermo, decidira transformar a casa de S. Maria em convento da reforma. Isto exigia a indicação de um guardião muito sábio, e a escolha do capítulo recaiu sobre Benedito, um irmão leigo que não sabia ler nem escrever. Ele próprio ficou extremamente perturbado com a indicação, mas foi obrigado a aceitar por obediência. A escolha foi amplamente justificada. Benedito revelou-se um superior ideal, pois seus julgamentos eram ponderados e suas exortações eram feitas com tanta discrição, tato e sabedoria, que jamais causavam ressentimento, mas eram sempre tomadas a sério. Sua reputação de santidade e de seus milagres propagou-se rapidamente pela Sicília, e quando ele foi assistir ao capítulo provincial, em Girgenti, o clero e o povo saíram para recebê-lo, homens e mulheres porfiando em beijar-lhe as mãos ou obter fragmentos de seu hábito como relíquia.

Liberado de seu cargo de guardião, São Benedito foi feito vigário do convento e mestre de noviços. Ele mostrou que também tinha qualidades para este posto. Uma ciência sagrada infusa tornava-o capaz de expor as Sagradas Escrituras com edificação tanto para os sacerdotes como para noviços, e sua compreensão intuitiva das verdades teológicas muitas causava espanto em examinadores eruditos. Era sabido que ele possuía a faculdade de ler os pensamentos dos homens, e este poder, aliado a uma grande capacidade de comiseração, fez dele um bem-sucedido diretor de noviços. Contudo, ele ficou contente, quando foi exonerado deste encargo e recebeu permissão de voltar à cozinha, embora sua posição dificilmente voltasse a ser a do obscuro cozinheiro de anos anteriores.

Agora ele era assediado o dia inteiro por visitantes de todas as condições – os pobres pedindo esmolas, os enfermos procurando a cura e as pessoas ilustres pedindo-lhe conselhos ou orações. Embora nunca se negasse em receber aqueles que o procuravam, esquivava-se das demonstrações de respeito para com ele, e, ao viajar, cobria o rosto com o capuz, e, quando possível, escolhia a noite, para não ser reconhecido. Durante toda a vida continuou as austeridades de seus dias de eremita. Em questão de alimento, contudo, costumava dizer que a melhor forma de mortificação não era privar-se, mas desistir de comer um pouco mais, acrescentando que era justo que partilhássemos da comida recebida como esmola, como sinal de nossa gratidão e para dar prazer a nossos doadores.

Benedito, “O Preto Santo”, morreu em 1589, aos 63 anos de idade, depois de breve enfermidade. Foi escolhido patrono pelos negros da América do Norte e protetor pela cidade de Palermo, tendo sido canonizado em 1807.


 

Uma palavra quanto ao dia em que se celebra a festa de São Benedito. Depois da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II, que se encerrou no dia 8 de dezembro de 1965, a festa foi fixada no dia 5 de outubro, um dia depois da festa de São Francisco. No dia da canonização, sua festa havia sido fixada no dia 4 de abril, dia de sua morte, data ruim para celebrar um santo, por causa da coincidência com a Semana Santa ou Páscoa ou sua oitava. No Vale do Paraíba, SP, sua festa foi celebrada ainda antes da canonização na segunda-feira de Pentecostes; depois, passou para a segunda-feira da Páscoa, até hoje. No Espírito Santo, desde meados de 1700, São Benedito foi celebrado no dia 27 de dezembro e continua nos dias de hoje. No Amazonas ocupa todo o mês de dezembro, envolvendo o Natal e Ano Novo. Também na Venezuela e Peru o santo é festejado em dezembro. No Nordeste, muitas comunidades continuam a celebrá-lo na segunda de Pentecostes (Frei Clarêncio Neotti, no livro “São Benedito, homem de Deus e do povo”, Santuário, 2016). 


 

O santo, que no Brasil é o padroeiro da cozinha e das cozinheiras e cozinheiros, é celebrado no Anuário Franciscano, Edizioni Porziuncola, no dia 4 de abril.

Vejam-se a vida (Vita di San Benedetto di San Fradello) escrita por Fr. Giovanni da Capistrano e publicada em 1808; a de Pe. B. Nicolosi (1907); e Léon, Auréole séraphique (trad. em ingl.) , lI, p. 14-31).