Vida CristãLiturgia dominical

Festa da Exaltação da Santa Cruz

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Domingo da Festa da Exaltação da Santa Cruz
1ª Leitura: Nm 21,4b-9 / Sl 77 / 2ª Leitura: Fl 2,6-11 / Evangelho: Jo 3,13-17

A VIDA NOVA VEM DE JESUS

13 Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu: o Filho do Homem. 14 Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, do mesmo modo é preciso que o Filho do Homem seja levantado. 15 Assim, todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna.»
* 16 «Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. 17 De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele.
* 9-15: A grande novidade que Deus tem para os homens está em Jesus, que vai revelar na cruz a vida nova. Aí ele demonstra o maior ato de amor: a doação de sua própria vida em favor dos homens.

* 16-21: Deus não quer que os homens se percam, nem sente prazer em condená-los. Ele manifesta todo o seu amor através de Jesus, para salvar e dar a vida a todos. Mas a presença de Jesus é incômoda, pois coloca o mundo dos homens em julgamento, provocando divisão e conflito, e exigindo decisão. De um lado, os que acreditam em Jesus e vivem o amor, continuando a palavra e a ação dele em favor da vida. De outro lado, os que não acreditam nele e não vivem o amor, mas permanecem fechados em seus próprios interesses e egoísmo, que geram opressão e exploração; por isso estes sempre escondem suas verdadeiras intenções: não se aproximam da luz.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

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EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

Como a festa da Transfiguração, também a da Santa Cruz é intensamente celebrada na Igreja Oriental. Ambas as festas participam da mesma atmosfera: a presença da glória divina no sofrimento e morte de Jesus na cruz, mistério percebido com profunda sensibilidade pelos cristãos orientais e muito valioso também para nós. Tenha-se diante dos olhos os ícones ou crucifixos com o Cristo glorioso comuns na Igreja Oriental. A liturgia renovada deu a estas festas, juntamente com a da Epifania, um destaque especial, com vistas exatamente à comunhão com as Igrejas Orientais, que, além de significar a unidade, é também um grande enriquecimento para o Ocidente materialista e secularista.

A origem da festa remonta à dedicação das basílicas do Gólgota e do Santo Sepulcro construídas pelo imperador Constantino, em 13 de setembro de 335, sendo que no dia seguinte se mostrava os restos da Santa Cruz.

O fio central da liturgia de hoje é o simbolismo da elevação na cruz como elevação na glória, desenvolvido por João no evangelho (Jo 3,13-17; cf. tb. 12,32-33 e 19,37, lembrando Zc 19,37: “Contemplarão aquele que traspassaram”). A 1ª leitura vê este simbolismo prefigurado no episódio da serpente de bronze que Moisés levantou diante dos olhos dos hebreus para esconjurar a praga das serpentes (possivelmente lembrança de um antigo culto, cf. 2Rs 18,4).

O tema da elevação/exaltação, inspirado por Is 52,13 (o Servo Padecente, 4º cântico do Servo) preside também a 2ª leitura, sendo que aqui a exaltação é contrabalançada pelo rebaixamento (esvaziamento, quenose) no sofrimento infligido àquele que nem deveria considerar apropriação injusta à forma divina (Fl 2,6-11). Observe-se que neste maravilhoso texto o rebaixamento não é a encarnação na existência humana, mas a forma de servo/escravo em que essa encarnação é vivida por Jesus.

Olhando o conjunto dos textos somos levados a penetrar mais profundamente neste mistério, que constitui a intuição principal do evangelho de João: o dom da vida de Jesus, morrendo por amor fiel até a morte, na cruz, é a manifestação da glória, isto é, do ser de Deus que aparece: pois “Deus é amor” (1Jo 4,8-9), a tal ponto que Jesus, na hora de assumir a morte na cruz, pode dizer: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

Mas essa manifestação da glória de Deus no amor de Cristo que dá sua vida por nós na cruz tem consequências práticas para nós: “Jesus deu a vida por nós; por isso nós também devemos dar a vida pelos irmãos” (1 Jo 3,16). Também o hino citado por Paulo na 2ª leitura está num contexto semelhante: Jesus esvaziado como escravo e exaltado como Senhor é o exemplo dos que se reúnem em seu nome, para que considerem os outros mais importantes que a si mesmos e tenham em si o mesmo pensar e sentir dele (2,1-5).

O canto da entrada lembra Gl 6,14: “Que eu me glorie somente na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. As palavras seguintes, “o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (v. 15), alimentaram entre os cristãos de antigamente um desprezo pelo mundo. Não é, contudo, com desprezo da realidade terrestre que devemos olhar a cruz, mas como sinal de salvação. Para Paulo, para João, para nós, a cruz é sinal de salvação. Por isso, o mundo não tem mais o mesmo significado. Só conseguimos dar-lhe pleno valor na medida em que ele é marcado pela cruz de Cristo, o sinal da vida doada em amor até o fim.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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A GLÓRIA NA CRUZ

No Brasil, “Terra da Santa Cruz”, convém contemplar a cruz de Cristo. Não para recair no dolorismo de tempos idos, quando se pensava que quanto mais sofrimento, mais regalia no céu. E que Jesus teve de sofrer na cruz para “pagar” a Deus. A liturgia de hoje nos ensina a olhar para a cruz num outro sentido: como manifestação do próprio ser de Deus, que é amor. A cruz não é um instrumento de suplício que Deus aplica a seu filho (por nossa culpa), mas o sinal de quanto o Pai e o Filho nos amam – o Filho instruído pelo Pai (“obediente até a morte”, 2ª leitura). Nada de sádica exigência de sangue, só amor até o fim (cf. Jo 13,1;19,28-30).

Ninguém jamais viu Deus (Jo 1,18). Portanto, não temos nenhuma razão para pensar que ele seja um Deus cobrador, castigador. O único retrato de Deus que temos é Jesus (Jo 1,18). Mas esse retrato só ficou pronto na hora em que Jesus ia dar sua vida pelos que o seguiam, os que acolhiam sua palavra, e pelos que através destes a iam acolher: na véspera da morte: “Quem me viu, tem visto (= tem diante dos olhos) o Pai” (Jo 14,9). Nestas poucas palavras resume-se toda a existência humana de Jesus, sua pregação ao povo e aos discípulos, seus gestos de amor e de libertação, coisas que ele não quis negar, como também não renegou seus amigos, na hora do perigo da morte. Amou até o fim (Jo 13,1) e por isso, rompendo com os poderes deste mundo e vencendo-os pelo amor, morreu a morte dos escravos e rebeldes, na cruz.

Essa cruz é, portanto, o estandarte sobre o qual se eleva e se exibe ao mundo o próprio ser de Deus, seu amor que é sua glória. Ela atrai a si o olhar de todos que procuram a salvação (Jo 12,32-33). E assim como há uma relação entre o mal e o sinal de salvação para o qual levantam os olhos (cf. 1ª leitura, a serpente levantada), assim também enxergamos no Cristo elevado na cruz o mal do qual ele nos cura: o sofrimento que nosso desamor causa a ele e a todos nós. Aniquilado pelo pecado do mundo, ele mostra no seu corpo e sangue o infinito amor do Pai que nos quer salvar.

Contemplar a cruz não é afundar no dolorismo, mas reconhecer o amor de Deus que salva o mundo do desamor.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes