Vida CristãLiturgia dominical

29º Domingo do Tempo Comum

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O povo pertence a Deus

Primeira leitura: Is 45, 1.4-6
Sl 95
Segunda leitura: 1Ts 1,1-5b
Evangelho: Mt 22,15-21

-* 15 Então os fariseus se retiraram, e fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Mandaram os seus discípulos, junto com alguns partidários de Herodes, para dizerem a Jesus: «Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém, porque não levas em conta as aparências. 17 Dize-nos, então, o que pensas: É lícito ou não é pagar imposto a César?» 18 Jesus percebeu a maldade deles, e disse: «Hipócritas! Por que vocês me tentam? 19 Mostrem-me a moeda do imposto.» Levaram então a ele a moeda. 20 E Jesus perguntou: «De quem é a figura e inscrição nesta moeda?» 21 Eles responderam: «É de César». Então Jesus disse: «Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.»


* 15-22: Cf. nota em Mc 12,13-17. O novo povo de Deus pertence unicamente a Deus, e só Deus pode exigir do homem adoração. [* 13-17: O imposto era o sinal da dominação romana; os fariseus a rejeitavam, mas os partidários de Herodes a aceitavam. Se Jesus responde «sim», os fariseus o desacreditarão diante do povo; se ele diz «não», os partidários de Herodes poderão acusá-lo de subversão. Mas Jesus não discute a questão do imposto. Ele se preocupa é com o povo: a moeda é «de César», mas o povo é «de Deus». O imposto só é justo quando reverte em benefício do bem comum. Jesus condena a transformação do povo em mercadoria que enriquece e fortalece tanto a dominação interna como a estrangeira.]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

 

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Dai a Deus o que é de Deus

Ao fim de sua pregação, Jesus entrou abertamente em conflito com as autoridades judaicas (cf. os evangelhos dos dois domingos anteriores). Por isso, quiseram armar-lhe uma cilada, para que o pegassem em alguma palavra contrária à Lei. Pensaram ter encontrado tal oportunidade na questão do imposto a pagar ao imperador romano, o César (evangelho). Se Jesus aprovasse pagar o tributo ao dominador estrangeiro, ele negaria a grandeza do povo messiânico. Se ele se declarasse contra, ele incitaria à rebeldia contra o dono do país…

A resposta de Jesus tomou-se provérbio: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Alguns interpretam essa frase como uma divisão de tarefas: o César para o domínio deste mundo (a cidade terrestre), Deus para o domínio sobrenatural (a cidade celeste): é a teoria dos “dois reinos”, que permitiu muitas vezes ao César soltar seus demônios, enquanto os responsáveis da Igreja se ocupavam com coisas piedosas, dizendo-se apolíticos!

De fato, há diversas maneiras de interpretar a controvertida frase: 1) “Os padres devem ficar na sacristia” (negócio é negócio, a Igreja à parte); 2) “O que é bom para César é bom para Deus”; 3) “Dai a César o que lhe pertence em justiça (mas não o que não lhe pertence); e a Deus também”; 4) “Dai a César o que é de César, dando primeiro a Deus o que é de Deus”, ou seja: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33), e então sabereis atender com justiça as exigências da ordem política. Esta última interpretação nos parece mais conforme o espírito do evangelho. Jesus admite as exigências da ordem política, mas relativiza-as, subordinando-as às exigências de Deus.

Seja como for, o que era de César, no caso aqui narrado, era uma moeda, instrumento do poder econômico do Império Romano e, além do mais, preço do reconhecimento civil da comunidade judaica, com os privilégios que isso implicava. Tratando-se disso, os interrogadores tinham de tirar as conseqüências: quem quer usufruir do Império tem de alimentar-lhe o tesouro… Mas isso não é o mais importante; o peso recai sobre a última parte da frase: “Dai a Deus o que é de Deus”. Jesus parece estar dizendo aos seus interlocutores: “Importunais-me com questões de César – bom, sede conseqüentes nessas questões – mas o que eu devo lembrar-vos é das questões de Deus”.

As questões de Deus (que não são necessariamente as da “religião”) devem constituir nossa “pré-ocupação”, antes de qualquer outra coisa (cf. Mt 6,24ss; 8° dom. do T.C.). Sem darmos a Deus o que é de Deus (isto é, tudo), nada podemos fazer de verdadeiramente valioso. A 1ª leitura nos narra até um caso em que Deus se serviu de um “César”, o imperador Ciro, da Pérsia, para realizar seu plano de salvação para o povo israelita. Pois Ciro, na sua perspicácia de déspota iluminado, achou melhor que os israelitas exilados cuidassem de sua própria terra em vez de viver num gueto lá na Babilônia. Pôs fim ao exílio babilônico. Assim, a sabedoria administrativa de um rei pagão serviu para realizar a bondade de Deus. O caso não é imaginário. Quando Deus tem a última palavra, as coisas de César podem servir-lhe. Por isso importa colocar César e seus projetos no bom rumo… A frase de Jesus não nos ensina indiferença para com aquilo que o César faz, antes pelo contrário; ensina-nos a submeter os negócios do César (e a ocupação mundana em geral) ao critério da justiça de Deus; pois este é, em última análise, o único Rei (SI 96[95], salmo responsorial).

Nestes últimos domingos do ano litúrgico, a 2ª leitura é tomada das Cartas aos Tessalonicenses, fortemente marcadas pela questão da proximidade da Parusia. Ouvimos hoje a abertura da 1Ts: uma saudação, que louva nos tessalonicenses a sua fé atuante, sua caridade abundante e sua esperança perseverante. Uma saudação que deveria poder repetir-se para o povo das nossas igrejas! Os fiéis são chamados irmãos de Deus!

A oração do dia e a oração sobre as oferendas inserem-se bem no tema central: estar à disposição do supremo Senhor. Na mesma linha, pode-se rezar o prefácio I dos domingos do tempo comum (o povo que pertence a Deus).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

 

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O Reino de Deus e a Política

“Devolvei a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus”. Esta frase do evangelho (Mt 22,15-21) será uma declaração política? De fato, tem peso político, mas talvez de outro modo do que se pensa. Qual é o fato? Os judeus pagavam dízimo ao templo, com prazer, pois era “para Deus”. Mas além disso, a potência estrangeira que ocupava o país, o Império Romano, cobrava dos judeus um imposto pessoal, em troca de um estatuto protegido no seio do Império. Em vista disso, os especialistas da Lei judaica perguntam a opinião de Jesus, querendo obrigá-lo a escolher entre os judeus e César, o imperador romano. Pensavam que sua pergunta fosse “queimar” Jesus de um ou de outro lado. Jesus deu a resposta que conhecemos. É como se dissesse: “Se vocês negociam com César em troca desse imposto, paguem-no, já que vocês aceitam o estatuto especial que ele lhes dá em compensação. Mas não esqueçam que também a Deus estão devendo, e não pouca coisa, já que lhes deu tudo!”

Deus não recusa a mediação política para o seu projeto. Serve-se até de um rei estrangeiro para libertar Israel do exílio, e ainda o chama de “meu ungido” (o rei persa, Ciro, na 1ª leitura, Is 45, 1.4-6). Mas esse rei é um “servo” de Deus: ele tem quem está acima dele. Deus confia aos seres humanos as responsabilidades humanas. As questões políticas devem ser tratadas em nível político, isto é, com vistas ao “bem comum”do povo. Um governo é bom se governa, o melhor que pode, para todos. Então, ele é bom para Deus também. Senão, que o povo se livre desse governo… Mas existe também o nível de Deus, que é o “fim último”, o nível da vocação humana a ser filho de Deus e a realizar semelhança com Deus (cf. Gn 1,26). A política, aos olhos dos fiéis, sempre será uma mediação para chegar a esse projeto de Deus, embora ela tenha suas regras específicas. Sem Deus, um governante poderia proclamar que o “bem comum” está sendo atendido quando os “inadaptados” são eliminados da sociedade. Quem , porém, quer “dar a Deus o que é de Deus” nunca poderá dizer isso.

“A Igreja não deve fazer política!”. Se essa frase significa que a hierarquia da Igreja não deve se colocar no lugar da administração civil, está certa. Mas não pode significar que os cristãos não devem, como qualquer cidadão, assumir sua responsabilidade política. Cristo ensinou a realizar a fraternidade humana. Ora, esta se encarna num projeto político, numa determinada maneira de entender o bem comum. Por isso, os cristãos, como cidadãos inspirados por Cristo, mexem com reforma agrária, levam os politicamente marginalizados a se organizarem, propõem alternativas para a política econômica etc. Tudo isso é retribuir a Deus o que é de Deus, a saber, os dons que Deus deu a todos… mesmo quando para isso é preciso tirar de César o que não é dele.

Enquanto, pois, se exerce a responsabilidade civil, deve-se pensar em dar a Deus o tributo devido, que é: reconhecê-lo como aquele que indica a norma última, o amor a Deus e ao próximo (ensinado por Jesus logo depois, em Mt 23,34-40).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes