V. Pastoral

Atitudes pastorais a serem encorajadas em nossos tempos (I)

1. Desnecessário repetir que vivemos um tempo complexo na vida do mundo e da Igreja. Somos franciscanos e desejamos ser missionários no seio de uma Igreja que muitos amamos e num mundo em transformações radicais. Como São Francisco, somos convidados a restaurar a vida dessa Igreja. Fazemo-lo a partir de nossa vocação de seguimento do Evangelho do Cristo pobre, à maneira de Francisco. Realizamos nossa vocação a partir de nossa Fraternitas. Não nos sentimos “funcionários” de uma “agência do sagrado”. Muitos de nós trabalhamos nas paróquias que foram e continuam nos sendo confiadas. Fazemos o trabalho o melhor que podemos. A partir dessa revolução operada em nós pela vocação, pelo chamamento do seguimento de Cristo, procuramos compreender o mundo e ser agentes através de um sério e alegre retorno ao vigor do Evangelho. Pastores, documentos da Igreja sugerem, aqui e ali, algumas atitudes pastorais que precisam ser encorajadas em nossos tempos. Muitas delas se aproximam do espírito franciscano de ser no mundo e na Igreja. Fique bem claro que nossa presença na pastoral diocesana será na linha de colaborar com a Igreja sempre sabendo que levamos esse nosso ser de seguidores do Evangelho à maneira de Francisco. Não precisamos anunciar as cores e nem usar crachás e rótulos. Basta que passe em nossas palavras e gestos o fogo que nos habita.

2. Há preocupações. Como transmitir a fé? O que é transmitir a fé? Como reagir frente ao indiferentismo manifestado aqui e ali com relação à fé da Igreja? Que visibilidade tem a Igreja nesse momento no mundo? Fazemos sentir que constituímos um grupo de busca séria da verdade, do bem e de Deus? Quais as nossas preocupações pastorais de modo particular quando somos párocos e vigários paroquiais? Será que, sem querer, não aceitamos uma mentalidade meramente sacramentalista?

3. Vivemos, com efeito, num mundo de indiferença. Não temos que ficar lamentando o tempo todo. Será preciso acolher a indiferença com um apelo à renovação do testemunho e um convite ao discernimento. Pode-se dizer que, ao menos nas grandes e médias cidades, há o fenômeno da indiferença frente à Igreja. Não generalizemos. Há sintomas bonitos de busca séria do Evangelho, tanto nas paróquias quanto em grupos de movimentos. Esperamos sempre que esses movimentos não se tornem grupos fechados, com um linguajar bizarro, com práticas apenas emocionais. Há pessoas indiferentes à prática religiosa. Há os que não estão de acordo com certas posições da Igreja no campo da moral. Há pessoas que, além de indiferentes, devido a várias razões foram se tornando impermeáveis aos apelos da fé. Pessoas de certa idade constatam que seus filhos são indiferentes. Lamentam que eles se casem ou passem a viver juntos com pessoas separadas. Lamentam ainda que filhos e netos deixaram de sentir necessidade da missa dominical. Certos pais e avós sentem uma espécie de complexo de culpa. Filhos e netos não retiveram nada daquilo que se designa de transmissão da fé. O fenômeno da indiferença religiosa ou da indiferença para com a prática religiosa mostra que alguma coisa não toca as pessoas, não chega a ser recebida e percebida. Essa atitude de indiferença precisa questionar um certo tipo de pastoral em que as pessoas não fizeram uma verdadeira experiência espiritual. Nasceram numa família católica, foram batizadas, fizeram a primeira comunhão, nunca assimilaram de verdade os enunciados da fé, ficaram numa fé nocional. Os tempos da indiferença são um convite a uma pastoral de “personalização” da fé. Não se transmite a fé como se transmitem traços físicos dos pais e costumes de uma nação. Ora, a indiferença de muitos é um convite a que os agentes de pastoral e as comunidades cristãs digamos nossa fé de uma maneira nova. Sim, a indiferença pode ser um convite a que vivamos com coragem a fé em Cristo como verdadeira experiência espiritual, como uma experiência que não se inventa, mas que se recebe de Deus e modela nossa vida. Os responsáveis pela catequese em todos os níveis devem ser pessoas que estão sempre se reunindo, estudando, rezando, se preocupando em realizar sua missão da melhor e mais profunda maneira.

4. Outra atitude a ser encorajada em nossos dias é praticar um diálogo verdadeiro. Será fundamental não colocar de um lado o certo e do outro o errado em duas colunas. Não se pode elencar de um lado as afirmações da fé com o bloco das indiferenças. Em cada um de nós há o homem da fé e o homem da dúvida ou da indiferença. Há nossa verdade cristã católica, mas também existe a verdade desses outros buscadores sinceros de Deus no cristianismo e nas religiões. Hoje estamos convencidos de que será fundamental viver em constante diálogo. Há o diálogo entre os fiéis e seus pastores, o diálogo entre pais e filhos, o diálogo entre pessoas de religiões diferentes. Nas catequeses, nas homilias isso precisa transparecer. Nada da intransigência dos que dão a impressão de serem donos da verdade. Mas pessoas que estão convencidas da verdade de sua fé, sem o desejo de impor e de levar ninguém para práticas inquisicionais. Pensamos no diálogo entre pessoas de diferentes religiões, mas pensamos também no diálogo diante do pluralismo de pontos de vista dentro da própria comunidade eclesial. O diálogo não é uma estratégia para convencer os outros de nossas convicções ou pontos de vista, mas um clima de busca sincera da verdade que nos liberta. Daí a importância de fóruns, de tardes e dias de reflexão sobre temas candentes do mundo: respeito pela vida, sexualidade, mundo do dinheiro, opções sexuais e tantos outros temas. Quando uma “catequese” é feita em estilo dialogante, as coisas podem mudar. Pensamos de modo muito particular em todo um clima de acolhimento e de diálogo com pessoas que, rompido o vínculo do casamento, se recasaram. Pensamos também em todos os que se sentem discriminados.

5. Será importante cultivar “um estilo de vida” cristão. A fé em Cristo modela e transforma a existência. A fé leva a que adotemos um “estilo de vida” diferente. Sem posições emocionais exageradas, sem discursos, as pessoas devem se dar conta de um estilo de vida cristão que vivemos, que vivem nossas comunidades, que aparece nas exortações de nossos pastores. A evangelização começa sempre com a simples presença. Famosas e claras as palavras de Paulo VI na sua exortação apostólica Evangelii Nuntiandi : “E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais nada, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou grupo de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes e sua esperança em qualquer coisa que não se vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que o veem viver, perguntas indeclináveis: Por que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que eles estão conosco? Pois bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova“ (Evangelii Nuntiandi, 21). Através desse testemunho, desse “estilo de vida” cristão, já há uma primeira inserção do Evangelho de Cristo no tecido da realidade do mundo na ordem social, política, econômica e cultural. No dizer de um documento dos bispos franceses, pode-se dizer que “existe verdadeiramente um ethos cristão, um modo eficaz de manifestar a relação que une a fé proposta e os comportamentos vividos, sobretudo quando no meio ambiente há leis e costumes que estão em oposição ao Evangelho”. Um “estilo de vida” cristão requer uma referência explícita à Palavra de Deus e à voz da Tradição.

6. Em nossos dias, a diferença cristã é chamada a manifestar-se em condições novas. Na medida em que nossa sociedade esquece suas raízes cristãs, mais e mais os batizados deverão andar na busca da fonte de sua identidade e manifestá-la claramente. Esse estilo de vida exige uma formação toda especial que certos movimentos religiosas e famílias de vida consagrada desenvolvem. Não se trata apenas de incentivar o esforço de vida cristã, mas de fundar nosso estilo de vida nas exigências do Evangelho. A vida de consagração religiosa nas diferentes formas, também vivida pelos consagrados no mundo podem ser uma evangelização pela simples presença. Mas se trata também de um testemunho singelo e forte dado nos corredores das câmaras dos vereadores, nos balcões do comércio e e simplesmente num estilo de vida cristão.

Nota bene: Em nosso próximo número continuaremos esta nossa reflexão. Abordaremos outros empenhos pastorais a serem encorajados: manifestar a visibilidade sacramental da Igreja, formar comunidades fraternas e apostólicas, aprender a vivenciar a esperança cristã. Esse nosso texto se inspira, em boa parte, no documento La Passione del Vangelo, do bispo francês Claude Dagens e publicado em italiano na Revista Il Regno (8/2010).