Seguimento de Cristo à maneira de Clara

1. Falar em Francisco e Clara é pensar em pessoas profundamente tocadas pela figura de Cristo pobre, crucificado, encarnação da bondade extrema de Deus.  Falar em franciscanos e clarissas é referir-se a pessoas que foram se deixando formar, modelar e plasmar  pela pobreza do Cristo.  A melhor palavra não é formar, mas deixar-se seduzir por esta pobreza que tem um nome:  Jesus Cristo.  Estamos conscientes que a pobreza não significa apenas uma sobriedade nas vestes, na comida, no uso das coisas materiais. Tem ela a ver com desprendimento, despojamento,  não posse. Não somente de bens materiais mais do velho homem que tenta sobreviver em nós. Não se trata apenas de um seguimento externo, mas de uma  identificação de vida a vida entre o discípulo e o Cristo pobre.  Na verdade,  não podemos nos ater ao Cristo histórico, encerrado nas páginas dos evangelhos, mas a esse Ressuscitado  que nos convida a entrar em comunhão nupcial com ele. Seguir Cristo à maneira de Clara será efetivamente estabelecer liames vitais e “virginais”,  totais com esse Esposo que aparece no espelho. O incontido amor por Cristo faz com que Clara se torne sedenta de amor do Esposo feito pobreza.

2. Clara, como Francisco, começa e termina a Regra com uma declaração programática: “A forma e a vida  da Ordem das Irmãs pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta:  Observar o  santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”  (Regra I,1). “Observemos para sempre a santa pobreza e humildade de  Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe e o santo Evangelho que prometemos firmemente” ( Regra XII).  Estas palavras abrem e fecham o texto da Forma de Vida escrita por Clara. Não constituem elas uma simples moldura, mas o fundamento que a tudo dá sustento.

3. “Por isso, de joelhos dobrados e prostrada, recomendo a todas as minhas irmãs atuais e futuras à Santa  Igreja romana, ao Sumo Pontífice e principalmente ao  senhor cardeal que for encarregado da Ordem dos Frades Menores e de nós, para que, por amor daquele Deus que pobre foi posto no presépio, viveu pobre no mundo e ficou nu no patíbulo faça com que sempre seu pequeno rebanho  que o Senhor gerou em sua Igreja pela palavra e o exemplo de nosso bem-aventurado Pai São Francisco para seguir a pobreza e a humildade de seu Filho dileto e da Virgem, sua gloriosa Mãe, observe a santa pobreza que prometemos…”  (Testamento 44ss).  Clara quer levar suas irmãs ao essencial.  Se o Filho de Deus escolheu o caminho da pobreza e do despojamento, então este é o caminho real que nos leva à Terra da Promissão.

4. Misturam-se nos escritos de Clara a imagem do Cristo rei  (2CtIn) e a imagem do Cristo caminho.  Clara  emprega as duas imagens em suas cartas a  Inês de Praga. Ela distingue os aspectos  do mistério total de Cristo que habita na alma.  A imagem do Cristo rei, reinando agora gloriosamente no céu, é a imagem do Esposo e objeto primário de seu desejo. Porém, a imagem do Cristo visto no contexto do mistério da Encarnação, o Cristo na sua humanidade, pobre e humilde, é o  caminho  para a desejada união.  Os desponsórios místicos têm seu fundamento no aniquilamento amoroso do amado.

5. Com toda evidência, Clara exorta implicitamente a Inês a seguir aquilo que a literatura espiritual da Idade Média chama de  caminho real. Para São Bernardo, a “via real”  é aquela que se faz sem desvios,  sem delongas  desnecessárias. A pobreza é caminho real para a união esponsal porque elimina as causas de dissipação que nascem do apego aos bens terrenos. O caminho da pobreza, o caminho que o Senhor manifestou em sua  humanidade: o caminho da pobreza e da humildade que levam à posse do Reino dos céus: “Ó bem-aventurada pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas! Ó santa pobreza, aos que a tem e desejam, Deus prometeu o reino dos céus e são concedidas sem dúvida alguma a glória eterna e vida feliz.  Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo se dignou abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito  (1CtIn 15-17). “O reino de Deus só é prometido e dado pelo Senhor aos pobres”  (1CtIn 25). Este é o caminho duro e a porta estreita. Por meio de uma tal porta  realiza-se a união mística com Cristo, o início do reino celeste já nesta terra.  O caminho que Cristo nos mostra durante a sua vida terrena é o mesmo caminho que Francisco ensinou a Clara.  Com sua palavra e seu exemplo,  Clara orienta Inês e as Irmãs a percorrerem esta  via regia. Durante toda a sua vida, Clara lutou para que ninguém a retirasse de tal caminho. No Testamento, ela escreve: “O Filho de Deus se fez para nós o caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos  mostrou e ensinou  por palavra e pelo exemplo”  (Test, 5).

6. Podemos dizer que  Clara, na qualidade de guia espiritual, indicou e continua indicando para nós um só caminho que leva à união com Cristo, a via regia, o caminho percorrido primeiro  por Cristo e Maria e depois por Francisco, seguimento do Cristo esposo, pobre e humilde. Nas palavras que ela empresta da Regra Bulada de São Francisco, Clara  reforça  que este é o caminho real:  “Como peregrinas e forasteiras neste mundo… esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas caríssimas irmãs,   herdeiras e rainhas do reino dos céus… Esta seja a vossa porção que nos leva à terra dos vivos”  (RCl 8).

7. Clara interpreta  o seguimento essencialmente em termos de amor  sensível pela humanidade de Cristo –  humanidade esta que é o caminho que nos leva ao Pai –  e imitação das virtudes que o próprio Cristo viveu, principalmente a pobreza e a humildade. A prática destas virtudes místicas não se limita a uma imitação exterior de Cristo,  mas um modo concreto de  entregar-se  totalmente a Cristo e abraçar misticamente sua humanidade e desta forma aprofundar a união esponsal com ele.  Podemos avaliar a sensibilidade do amor de Clara para com Cristo no uso frequente de palavras que aludem ao seguimento em termos de abraço.  Trata-se do abraço místico ou da união mística com a humanidade de Cristo mediante   a prática das virtudes  por ele santificadas:

“Ó bem-aventurada  pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas!”(1CtIn 15). “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre. Veja como por você ele se fez desprezível e siga-o sendo desprezível por ele nesse mundo” (2CtIn 18-19). “Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza  que a levaram a abraçar o tesouro incomparável e escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual se compra aquele por quem tudo foi feito”(3CtIn 7).

8. O seguimento de Cristo para Clara  comporta o abraço místico da humanidade de Cristo; em outras palavras, o caminho da imitação exterior da humanidade de Cristo e a conformidade (o entregar-se) interior da vontade à vontade de Deus levam ao amor puro, ao coração dos esponsais místicos entre a alma humana e o Verbo.  “É essa a perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 5-7).

9. Maria Victoria Triviño,  clarissa espanhola, numa belíssima obra sobre os temas espirituais de Clara,  conclui assim o capítulo a respeito da espiritualidade nupcial de Santa Clara, que outra coisa não é senão esse enamoramento da alma virginal pelo Esposo.  Os temas do seguimento e da virgindade se entrelaçam: “Clara  sente-se fortemente atraída  – carisma de virgindade – e corre no encalço de  Jesus Cristo empenhando todo o seu afeto, todos os sentidos e faculdades.  Sua ascética consiste em “correr” impulsionada “pela violência do desejo”. Sua mística é o abraço esponsal. Sua bem-aventurança é a doçura escondida.

Não quer que seu pensamento se afaste da lembrança do Senhor, e o adivinha presente sob as mais diferentes aparências. Ama de todo o coração.  Comove-se e chora quando fala da paixão  (Proc XI,2), fica   fora de si quando o contempla sozinha (ProcIII,25), treme quando recebe o Corpo do Senhor… Exulta ao escutar o Vidi aquam… Uma tal  integração da afetividade  faz dela uma mulher ardorosa e apaixonada.

Pode-se dizer que Clara nada fez sem entusiasmo.  Basta recordar a fuga noturna, o desejo do martírio, o episódio dos sarracenos, o assédio de Vital de Anversa. No grande e no pequeno, no ordinário e no extraordinário sempre em tudo colocou um grande amor.

Mente, faculdades, coração, instinto… Tudo está polarizado num amor exclusivo. Assim  todos os níveis do ser unificam no amor a Jesus Cristo. A vivência da maternidade espiritual  faz com que ela se realize plenamente como mulher que se sente mãe, para Jesus Cristo e para com as irmãs.

Fruto desta unidade, em nível psicológico, é o equilíbrio, a harmonia. O que os autores modernos chamam de  psicologia dinâmica. O divino se enraíza no psicológico.  No plano espiritual, o fruto é um estado de bem-aventurança, a coroa da santidade: “.. estava sempre alegre no Senhor e jamais era vista perturbada, e sua vida era toda angélica” (Proc  III,6).

O tema nupcial, tão explícito na primeira carta, foi avançando com o clamor de Raquel (“Lembre-se da sua decisão como um segunda Raquel; não perca de vista seu ponto de partida…” (2CtIn 11) e com a adesão à Mãe dulcíssima que a ama, acompanha e cuida,  reaparece no começo do espelho.  Contemplando os mistérios no espelho  Clara se aprofunda no mistério do Amado. No final, a esposa repousa e descansa no beijo e no abraço da esposa do Cântico dos Cânticos (4CtIn 30-32).

Tudo o que disse Clara  foi revestido de delicadeza e de beleza. Para viver o que foi dito necessário foi muita fortaleza.  Estamos numa sociedade em que a virgindade é flor rara. Mal se fala dela.  Muitos são os que acreditam que ela não pode ser guardada. Sempre houve quedas e abandonos  que fizeram com que ela fosse menos digna de crédito. Quem não a acolheu não tem ouvidos para entendê-la, mesmo querendo discutir a seu respeito. A virgindade é um carisma que sempre ornou, orna e ornará a Igreja cristã.

É um carisma, um presente do Espírito  do qual se deve dar testemunho diante do mundo que não tem dele alta cotação.  A prudência humana não deve nos impedir de dar testemunho de sua beleza” (La vía de la beleza. Temas espirituales de Clara de Asís,  BAC  46,  Estudios y ensayos, p. 181-183).

10. Frei Herbert Schneider, OFM, refletindo sobre o tema Claire d’Assise, école de vie spirituelle,   in Quaderni dell’Ufficio pro monialibus, n. 46, dicembre  2010,  fala da espiritualidade como transformação: “Santa Clara exorta Santa Inês de Praga em sua segunda carta a realizar o tríplice passo da vida espiritual (2CtIn 20): olhar (intuere), considerar (considerare), contemplar (contemplare). É, por assim dizer, um tríplice passo do exterior para o interior para as profundezas lá onde ela se sente possuída pelo desejo amoroso (desiderare) de imitar (imitare). É o caminho da transformação em Cristo:  trata-se de, pelo olhar,  experimentar com ele o sofrimento, na  consideração de morrer com ele e a partir desse momento acontece a transformação numa vida nova  com Cristo. É a mudança em Cristo.  Na espiritualidade  da transformação/mudança, a forma de Cristo passa a manifestar-se no homem. O que é realidade no Cristo torna-se também pela transformação e a título de dom realidade no homem”.

11. Basta.  O seguimento de Cristo na vida contemplativa significa transformar-se me Cristo. O amado de tanto se espelhar no Amante ganha  seus traços e vive em comunhão com ele.

Frei Almir Ribeiro Guimarães