Mulheres podem escrever regras?
Santa Clara de Assis escreveu

A história nos diz que o Papa Gregório IX escreveu as primeiras orientações para as mulheres da comunidade de Santa Clara. Mas depois Clara tomou as coisas em suas próprias mãos.

Na verdade, os historiadores católicos consideram Santa Clara a primeira mulher a escrever uma regra, ou um conjunto de diretrizes, para a sua comunidade religiosa. Numa época em que a maioria das comunidades religiosas viviam de acordo com regras escritas por homens, a decisão de Clara de compor uma regra para sua própria comunidade foi um gesto ousado.

Ele também nasceu por necessidade. Tanto os homens quanto as mulheres das primeiras comunidades franciscanas sentiam que uma resposta autêntica do Evangelho não podia ser vivida sob as regras comuns de seu tempo.

Soa familiar? Sim, é. Pergunte a uma religiosa, hoje, e você provavelmente vai ouvir um sentimento semelhante. As “caixas” em que o Vaticano gostaria de colocá-las não permitem que muitas irmãs respondam plenamente ao chamado do Evangelho. Então, depois de uma vida inteira de experiência, as religiosas começaram a escrever um novo caminho com suas vidas.

Seus caminhos não acontecem sem consequências. O mesmo valeu para Santa Clara.

Sua decisão de escrever uma regra foi uma ruptura radical com as normas religiosas de seu tempo. Só depois de muita persistência, o Papa Inocêncio IV a aprovou dois dias antes de sua morte em 11 de agosto de 1253.

Deve-se notar que Clara não compôs a sua própria regra sem receber a colaboração de outros. Enquanto escrevia uma nova maneira de viver na história religiosa, sua voz estava em diálogo com a comunidade com a qual ela tinha crescido espiritualmente. Ela modelou muito a sua regra nas diretrizes austeras e igualmente novas da comunidade de Francisco, reformulando-a para melhor ajustar-se à experiência feminina.

A regra de Clara mostra o bem que vem de um diálogo saudável entre mulheres e homens. Ela é um modelo para os nossos tempos.

Na verdade, na regra de Clara, encontramos dois fragmentos escritos pelo próprio Francisco que ela incorporou em sua própria escrita. O segundo fragmento grava seu último desejo para a comunidade de Santa Clara: “Eu, irmão Francisco, (…) vos rogo, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza”.

Ele não enfatizou hábitos, claustros ou conformidade. Eram somente a vivência do Evangelho e a santa pobreza que, no fim, importava a São Francisco.

A última frase de seu desejo diz: “E guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja”.

Talvez Francisco antecipasse que essas mulheres ousadas seriam desafiadas mais tarde pelas autoridades da Igreja em seu modo de vida. Na verdade, elas foram.

Alguns anos após a morte de Clara, o Papa Urbano VI encarregou um cardeal com a escrita de uma nova regra para a Ordem de Santa Clara. Parece que regras radicais escritas por mulheres geraram controvérsia há 700 anos. Mulheres que escrevem regras ainda o fazem.

Só podemos esperar que as autoridades do Vaticano hoje sob a direcão do Papa Francisco tenham coragem, como o Francisco original, para confirmar os esforços das religiosas de responderem ao Evangelho. Os métodos das religiosas podem parecer diferentes do que prevê o Vaticano, mas assim também foram os métodos franciscanos há tantos séculos.

Graças a Deus por Santa Clara, que pavimentou e escreveu o caminho para que as mulheres respondessem ao Evangelho com sua própria voz. Graças a Deus pelas religiosas dos Estados Unidos, que procuram fazer o mesmo hoje.

Apesar de já terem passado sete séculos, Santa Clara de Assis continua a ser reverenciada por sua piedade e pobreza. Talvez ela também deva ser reverenciada por sua escrita.

A opinião é de Nicole Sotelo, autora de Women Healing from Abuse: Meditations for Finding Peace (Paulist Press), coordenadora do site www.WomenHealing.com