Cultura franciscanaEntrevistas › 03/10/2015

M. Geral: ‘Somos chamados a estar com os pobres’

perryEnquanto aguardamos o documento final do último Capítulo Geral, o  Ministro Geral, Frei Michael Perry, confirmado no cargo até 2021, explica o período de profunda renovação que estão vivendo os Frades Menores: “O Papa indicou claramente o que espera: uma Igreja pobre com os pobres. Temos muitas estruturas e riquezas, mas devemos ser pobres com os pobres para criar uma nova relação com eles”. E também devemos abandonar certo fechamento  “paroquial”.

Acompanhe a entrevista  concedida a Riccardo Benotti, no site da Cúria Geral.

 Como se pode estar ao lado dos pobres?

Frei Michael – A pobreza não é algo que se dê valor, mas os pobres existem. No Evangelho de Marcos está escrito: “Pobres sempre os tereis no meio de vós”. Penso que se Jesus tivesse tempo para acrescentar algo, talvez teria dito: “Por que vocês não querem mudar seu estilo de vida?” Para ser irmãos menores temos que mudar nosso comportamento. O Papa Francisco está recuperando as ideias do cristianismo das origens. A Igreja não deve ser uma presença poderosa, mas humilde. “E sua  conduta é um exemplo para todos nós”.

Viver em uma tranquilidade burguesa é um perigo para a vida dos irmãos…

Frei Michael – É um risco percebido pelos próprios irmãos, que põem em crise a própria identidade de nossa vocação. Somos chamados a concretizar a misericórdia de Deus através de atos de justiça e caridade. Existem pelo menos dois remédios para tratar esta enfermidade. O primeiro é estar com os pobres, vivendo entre os que sofrem. Os pobres não são uma entidade abstrata, mas têm nome, provêm de uma família, têm filhos, buscam trabalhar todos os dias para melhorar a qualidade de suas vidas. E nós devemos estar ali. Se nos deixarmos acompanhar pelos pobres, redescobriremos a beleza da vocação franciscana.

E o segundo remédio?

Frei Michael – Abrirmo-nos à Palavra de Deus que não se encontra somente na Bíblia, mas também na Eucaristia da vida das pessoas que conhecemos todos os dias. Precisamos abrir as portas para acolher o mundo. Temos que estar na escuta e em diálogo com a Igreja e com as pessoas.

As paróquias e santuários são lugares em que se concentra a atividade pastoral dos irmãos. Por quê?

Frei Michael – Os irmãos respondem aos pedidos das Igrejas locais. Hoje, no entanto, é o momento de mudar. Através dos anos assumimos uma lógica “paroquial” que devemos romper. O pedido do Papa para sair é o mesmo dirigido por Francisco de Assis a seus irmãos. É difícil sermos peregrinos quando temos estas responsabilidades, ainda que sejam importantes. Mas também, nas mesmas paróquias e nos santuários, devemos repensar a presença envolvendo os leigos e permitindo a eles serem verdadeiros promotores do Evangelho. Por exemplo, eu não entendo por que nós temos que ter as chaves da igreja quando ela pertence ao povo…

Então é preciso valorizar os leigos?

Frei Michael – Para nós, Frades Menores, e para toda a Igreja, é fundamental repensar o papel dos leigos. Nas comunidades franciscanas dos santuários e das paróquias temos que preparar os leigos, cuja importância é decisiva para a Igreja. São Francisco costumava levar consigo também os leigos – homens e mulheres – que, com a permissão do bispo, catequizavam e pregavam. Não via obstáculos para permitir que as mulheres pregassem, tendo uma sensibilidade e perspectiva diferentes.

Há risco para os leigos e a vida fraterna que vem do clericalismo…

Frei Michael - O clericalismo fere a dignidade da vocação dos leigos na Igreja e no plano de Deus.  Também nós somos chamados a uma conversão nesse sentido. A Igreja nos pede para assumirmos muitas responsabilidades. Às vezes, no entanto, temos levado a cabo a pastoral de maneira caótica com consequências negativas para a vida fraterna. É importante, então, redescobrir a qualidade da vida fraterna de modo que possa ser oferecida aos leigos. O mundo necessita de fraternidade, basta ver os conflitos nas famílias ou na política. E temos a missão de ser testemunhas de Francisco de Assis. Seria um presente para o mundo de hoje.

É difícil guiar um grande número de irmãos em 110 países?

Frei Michael – Não me é fácil, mas é uma alegria conhecer a vida dos irmãos, a maioria dos quais vive o Evangelho profundamente. Recentemente estive em Hong Kong, onde os frades desenvolvem atividades pastorais com 4 mil cristãos chineses que participam cada semana da vida comunitária. Eles têm medo do que poderá acontecer depois das eleições de 2017, mas mantêm uma fé forte. Em Taiwan, no entanto, os frades chineses estão a serviço dos pobres nas paróquias, onde os sacerdotes diocesanos não querem ir. Estes são os testemunhos de que necessitamos. Como Ministro Geral, quero lavar os pés dos irmãos para que eles lavem os pés dos demais. Creio que é a melhor maneira de viver o discipulado de Cristo. Eu sou um pecador, com tantas limitações, mas é uma graça estar a serviço dos irmãos. Sou humano e por isso me sinto bem entre meus irmãos, porque eles também são humanos.

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