Santos: Multidão que ninguém pode contar

Frei Gustavo Medella

“Depois disso, vi uma multidão imensa de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar” (Ap 7,9).

Bela frase do livro do Apocalipse! Enche-nos de conforto e esperança este versículo, no qual o autor sagrado expressa o tamanho da misericórdia de Deus. Quantos homens e mulheres já fazem parte desta incontável multidão que enche de alegria o Coração do Pai. Assim como o Filho desejou ardentemente doar-se em alimento aos seus (Lc 22,15), o Pai nos aguarda de braços abertos, com desejo imenso de que cada um de nós busquemos fazer parte desta abençoada multidão coligada no amor infinito da Trindade.

O que dizer sobre santidade?

Não é dado científico, controlável, verificável, previsível pela razão humana, mas mistério de generosidade guardado na absoluta sabedoria de Deus. A multidão que ninguém podia contar revela o mistério insondável da generosidade do Pai que, no Filho e pelo Espírito, chama todo ser humano à santidade.

Não é status conquistado que permite acomodação numa zona de conforto, mas busca diária e constante de quem se sente chamado a apostar neste ideal. Ser santo não é uma conquista do agora. É construção do hoje e do amanhã, busca empenhada em conformar-se o quanto possível a Cristo, o Cordeiro em cujo sangue devemos lavar e alvejar as nossas vestes (cf. Ap 7,14).

Não é preservar-se daquilo que é humano para refugiar-se no divino, mas gastar-se servindo a Deus que escolheu se manifestar em meio às contradições da humanidade. Os eleitos que vieram da grande tribulação (Cf. Ap 7,4).

Não é aprisionar-se ou aprisionar outros em preceitos humanos que garantiriam a salvação a quem os praticasse, mas sentir-se livre e libertar os outros para o amor sem medidas com o qual Deus ama seus filhos. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus”  (1Jo 3,1).

Não é julgar-se pertencente ao seleto grupo dos bons, mas confiar-se inteiramente à misericórdia de Deus, afinal só Ele é Bom.

Não é mergulhar numa ascese fria e melancólica, externada num cristianismo com “cara de vinagre” (Cf. EG 85), mas abraçar a Alegria do Evangelho, expressa nas Bem Aventuranças (Mt 5,1-12).

Santidade é combinação entre o dom de Deus e a busca humana. É a grande vocação à qual todos somos chamados. Celebremos, com entusiasmo, todos os santos e santas que participam da glória divina e nos estimulam a buscar o mesmo.