Especial São Francisco de Assis

Francisco, como o vejo

Frei Roberto Ishara (*)

Uma vez estava à procura de uma flor para o arranjo da capela. No jardim havia apenas mato verde. De repente, deparei-me com uma pequenina flor colorida. A única colorida em meio ao verde. Seria perfeita para o arranjo! Mas, na sua solidão, delicadeza e fragilidade, revelava em si uma força. A força da Inocência Original. Uma criatura apresentando-se na sua forma original em que Deus a criou, tão inocente, que não pude arrancá-la e lhe fazer mal algum.

Assim vejo Francisco de Assis: aquele que no seu modo de ser, ver, agir e viver, revelava em si a força dessa Inocência Original, dessa nossa condição e vida antes do pecado.

Como a criança inocente que conversa com seus brinquedos, Francisco conversava e escutava o Cristo na Cruz de São Damião. As feridas abertas do leproso eram as chagas do Cristo flagelado e, inocentemente, convivia com os leprosos como quem convive com Cristo. Por três vezes, abre o Santo Evangelho e, sem “exegese”, passa a vivê-lo. Na sua Inocência Original, o Evangelho se apresentava na sua Verdade Pura: Vida para ser vivida e a própria Pessoa de Cristo, e não objeto de especulações.

Ouviu do Senhor a ordem de “reconstruir Sua Igreja”. Inocentemente, Francisco junta tijolo por tijolo, sem saber que a humildade desse seu esforço físico, despertaria a humildade no Coração da Igreja, reconstruindo-a novamente. Na sua Inocência Original pedia esmolas, na liberdade da expropriação de tudo porque tudo é dom de Deus, confiando na Providência e, inocentemente, confiando no óbvio de que, quem tem, pode dar! Francisco, na força de sua Inocência Original, apresenta-se sempre “desarmado” diante de todos e da vida. Por isso, o temível Lobo de Gubbio não lhe fez mal algum por não ver em Francisco uma ameaça.

Na sua Inocência Original contemplava a atitude inocente de um Deus que se faz recém-nascido na Manjedoura, que se entrega na Cruz, que se torna Pão. Inocentemente, não imaginava que a imitação de Cristo passaria do coração para o corpo. E acaba por receber os estigmas da Paixão. Na sua inocência, nos últimos momentos de vida, pede para Sra. Jacoba lhe trazer biscoitos de amêndoas “mostaccioli” de que tanto gostava, ao invés de ser tomado pelo temor da morte ou pelo desejo desesperado de coisas grandiosas que ainda poderia sentir e viver no pouco tempo que lhe restava.

Na sua Inocência Original convivia com o Criador e com todas as Criaturas na Harmonia Original da Criação. Daí a reverência ao Altíssimo expressa em suas orações. Daí a reverência e o cuidado amoroso com toda Natureza. Daí a força da Inocência Original da única flor colorida que, mesmo querendo arrancá-la para enfeitar a capela, nos comove e nos faz deixá-la em Paz e Bem!

 

(*) Frei Roberto Ishara é paulistano e concluiu os estudos de Teologia no ano passado.
Ele vai ser ordenado presbítero no próximo dia 20 de outubro.