Especial São Francisco de Assis

Francisco da cidade de Assis

Na escola evangélica da venturosa desapropriação

Frei Almir Ribeiro Guimarães (*)

No seio da Igreja, ao longo dos séculos,  foram surgindo vigorosas famílias espirituais que, suscitadas pelo Espírito,  deram novo vigor e novo sopro à vida cristã. Entre essas tantas famílias está a dos franciscanos, que surge na primeira metade do século XIII e tem sua origem na figura sempre atual de Francisco da cidade de Assis, o homem novo, o irmão, o pobre, aquele que se liberou de todos os entraves da propriedade, o fascinado pelo presépio do menino das palhas e que morre nu deitado na terra nua. Desnecessário dizer e recordar que esse filho de comerciante nunca pretendeu  formar e constituir uma família religiosa na sinfonia da espiritualidade cristã. Os fatos foram mostrando, no entanto, que ele precisava criar um modo de viver diferente. Num determinado momento escreve meia dúzia de passagens evangélicas e pede autorização ao Papa para viver, ele e seus irmãos, uma fraternidade itinerante  à maneira dos apóstolos.

Francisco conserva uma enorme atualidade. Tal se deve à sua irradiante santidade e à profundidade evangélica de sua mensagem. Em poucos anos foram numerosíssimos os homens que ingressaram nessa Ordem que Francisco designou como  Ordem dos Frades Menores.  Em 1209, o Papa Inocêncio  III aprova oralmente o projeto de vida de Francisco.  Em 1215, eles são cerca de mil frades.  No momento da morte do Poverello, são mais de cinco mil.  Em 1257,  já eram 30 mil.

Parece que tudo já se disse a respeito de Francisco. E,  no entanto,  multiplicam-se livros e estudos sobre esse  homem de Assis.  Tudo já foi dito e muito há que dizer porque Francisco foi se tornando um outro do Cristo. De tão parecido com Cristo foi se tornando um ser inesgotável. Ele é fundador de Ordem. Mas, antes de tudo, está na origem de um movimento profundamente evangélico. Sim, esse assisense,  filho de um tempo novo, está na origem de um elã evangélico, de uma tentativa de fazer com que nunca o Evangelho seja domesticado e colocado nas frias categorias do jurisdicional. Francisco não cabe em suas biografias como o Evangelho não pode ser encerrado nas páginas de um livro. Francisco e Evangelho caminham juntos. Evangelho do novo, do pano novo, do vinho novo, do êxtase diante das coisas pequenas que escondem a grandeza. Êxtase diante do Menino das Palhas, de Maria, a Pobrezinha, do Crucificado chagado e morto no alto da cruz. Êxtase diante  do vermezinho que não deve ser esmagado, diante da Morte Irmã que vem buscá-lo para levá-lo  à  Terra dos Vivos. Mais de que fundador de uma Ordem, ele é patrimônio da humanidade.  Evocar sua figura é  trazer para junto de nós alguém, que traz para a terra de corações mornos o ardor das brasas do Evangelho. Pode-se dizer que, com sua vida, Francisco reescreve o Evangelho.

Tudo, absolutamente tudo, vem do Deus que é Bem, sumo Bem. François Delmas-Goyon (François d’Assise: une sainteté rayonante, in Croire Auyjourd’hui, septembre  2009,  p. 29-30), leigo, filósofo e teológo, professor no Colégio dos Bernardinos em Paris, afirma que o fundamento do caminho espiritual aberto por Francisco reside no reconhecimento de que  o Deus Trino, revelado por Jesus  Cristo, é o Bem soberano, do qual provém e ao qual pertence todo Bem. Todo ser humano é chamado a descobrir e a reconhecer os benefícios com os quais Deus o cumula e a dar uma resposta pela ação de graças. Francisco vê cada criatura procedendo das mãos de Deus. “Por este motivo, o leproso, o bandido, o sarraceno, o lobo, o vermezinho, a flor, a água, o fogo, o sol se tornam para Francisco irmãos e irmãs que são, por sua existência, testemunhas da bondade e da glória de Deus.  Mas atenção esta admiração diante da  beleza das criaturas nada tem de romântico, adocicado e superficial. Tal maravilhamento exige uma completa desapropriação de si.  Confessar que os bens têm sua origem em Deus significa reconhecer sua propriedade exclusiva e renunciar a toda sorte de apropriação. A única propriedade exclusiva do homem é o pecado. Para Francisco, a raiz de todos os pecados está precisamente na apropriação.

Francisco não pretendeu fundar uma congregação religiosa, mas experimentou profunda alegria ao ver que o Senhor lhe dava irmãos. Ficou feliz de ver que sua experiência pessoal desembocava no surgimento de um comunidade de irmãos. E o santo afirmou que quando o Senhor lhe deu irmãos, ele queria com eles viver segundo a forma do Evangelho.   Ninguém mostrou-lhe o que devia fazer… O Altíssimo é que mostrou o caminho da vida evangélica. Forma do santo evangelho: conformidade com Cristo, entrar  numa  “forma” do Evangelho. André Vauchez lembra que a expressão  “forma do santo Evangelho” quer significar “uma tentativa levada ao extremo de se conformar ao Evangelho e fazer dele a norma absoluta de  comportamento”. Francisco reúne meia dúzia de palavras do Evangelho, vai pedir ao Papa que as aprove e passa, com seus irmãos, a inventar uma forma nova de vida religiosa  que nada tinha a ver com as regras de outros fundadores. Uma vida evangélica…

Nos últimos tempos os que se ocupam de refletir sobre o gênero de vida que nasceu de Francisco, com razão, insistem no tema da desapropriação. Este é o caso de François Delmas-Goyon. No escrito acima mencionado desenvolve o tema da desapropriação ligando-o à fraternidade. O mais perfeito modelo de desapropriação é  Jesus. O Verbo se faz carne e deixando a glória vem despojadamente morar entre nós. Vem no rosto do Menino de Maria, se entrega na Eucaristia, nas humildes espécies do pão e do vinho. Vejamos literalmente como se exprime Delmas-Goyon:  “A desapropriação atinge todos os registros da existência humana e se reveste de muitas facetas:  a pobreza é desapropriação com relação aos bens materiais; o minorismo é a desapropriação no campo da vida social;  a humildade,  a desapropriação no relacionamento individual com Deus e com o próximo. Mais do que a pobreza, o minorismo é que caracteriza o “estar-no-mundo-franciscano”.  Testemunha isso a escolha do nome do grupo:  Frades menores. O termo latino  “minor”, é comparativo, significa o que é  bem “mais pequeno” e comporta a ideia de abaixamamento. Ser menor, no sentido franciscano, significa  recusar de se situar acima do outro, rejeitar poder sobre ele, e, à exemplo de Cristo, fazer-se seu servidor, Cristo que afirmara ter vindo para servir e não para ser servido. O serviço é inverso positivo da desapropriação. A desapropriação libera, o serviço investe a energia liberada. Por isso, Francisco insiste em unir os dois”.

Pobreza, minorismo e humildade quando se fazem acompanhar de um autêntico espírito de serviço desembocam na fraternidade. Ser irmão de alguém é  “projetar sobre ele um olhar de pura benevolência, colocar-se à escuta de suas necessidades e servi-lo com um coração de mãe. Para que alguém possa ser irmão, necessário ser pessoa desapropriada. Quem tem bens a defender, poder a dilatar,  prestígio a ser preservado está sempre na defensiva  e tem medo do outro, temendo que este lhe tome o tesouro  no qual colocou o coração. O que não está preso a nada sabe acolher todo homem como seu irmão seja leproso, bandido ou inimigo. O pobre desapropriado não provoca medo. Ninguém precisa ter as armas em mãos contra um desapropriado. “A fraternidade se fundamenta no fato de que temos um mesmo Criador e Pai, seu elemento catalizador  é a desapropriação, que desarma a violência e abre as portas para a mútua confiança, que constitui a base da fraternidade”.

Max de Wasseige, em  livro de reflexão-meditação sobre o Testamento de São Francisco, escreve: “Mesmo se a sociedade  nos impulsione na direção do individualismo, Francisco nos ensina que a força do homem não se encontra em seu saber,  nas aparências,  na acumulação dos bens ou do poder  mas no modo de nos fazemos cada vez mais irmãos uns para com os outros  (…).  Seu olhar fraterno tem sua origem na desapropriação total e na recusa da manipulação de pessoas e da criação.  A mensagem de Francisco nos fala da essência das coisas. Para Francisco, o acesso a uma autêntica sabedoria espiritual só é possível pela via do minorismo e do respeito que leva a fraternizar com todas as criaturas” (Le coeur du petit pauvre, Ed.  Franciscaines, 2011, p. 124-125).

A espiritualidade franciscana é  espiritualidade do olhar. Francisco nos convida a contemplar os outros homens, o mundo e todas as  criaturas com o olhar que Deus mesmo coloca sobre uns e outros. Ele nos ensina “a descobrir sua beleza, a admirá-la e a amá-la. A qualidade do  “ser fraterno” depende da qualidade do olhar. Não se pode amar o irmão  ignorando-o;  não será ele amado quando olhado do alto. Francisco soube olhar os leprosos e, para além das chagas purulentas, soube ver os “irmãos cristãos”  (cf. Delmas-Goyon).

Concluindo

As coisas tinham começado  com um vazio no peito, uma saudade de Deus. O filho de Pedro de Bernardone sentia não ter mais pé no mar da vida. Um leproso atravessa-lhe o caminho. Há um beijo, um abraço e um olhar diferente. Um olhar de atenção, de benevolência. Há o olhar do Cristo bizantino de São  Damião, negro e profundo como o mar negro. E chegam os irmãos. No minúsculo santuário de Nossa Senhora dos Anjos, um padre lê o Evangelho da missão… e as palavras ressoam na catedral do mundo.  Há um convite a ir… sempre ir… sem sapato, sem propriedade, olhando a tudo com um olhar novo, cantando e dançando,  chorando o amor que precisava ser amado. De repente, o mundo ficou mais bonito com esse filho de Pedro de Bernardone  que nu, depositando nas mãos do pai suas roupas, caminhou livre de amarras na direção do sol.