Especial São Francisco de Assis

Francisco de Assis, como eu o vejo

Maria Aparecida Crepaldi (*)

1. Um jovem que ainda não tinha despertado para o verdadeiro sentido da vida. Nascido num berço burguês por parte do pai Pietro Bernardone, teve a graça de esmerada educação por parte da mãe, D. Hortolana, de origem francesa. Em sua juventude, tornou-se líder de um grupo de amigos que gostava de aproveitar as festas e toda diversão que lhes oferecia a sociedade de Assis.

2. Deparou-se com uma rebelião dentro dele. Refletia e como sentia grande angústia por não ter claras as respostas, começou a buscar a Deus com toda sinceridade e humildade de coração. Pensando em ser Cavaleiro na Guerra entre Perusa e Assis, ficou um ano preso, voltou derrotado e doente. Tentou novamente ir para a Guerra de Apúlia, mas começou a acontecer-lhe coisas diferentes, e, por outro lado, já não aceitava as atitudes de seu pai. Entre as derrotas e as novidades que vinha descobrindo, Francisco sentia um turbilhão de coisas que era preciso entender bem. Quando começou a dar-se conta da vida que levava, da esperteza de seu pai com os clientes, dos miseráveis que não tinham o que comer, que eram escravos no trabalho e não tinham quem os defendesse e tantas outras coisas.

3. Foi redescobrindo todos os seus verdadeiros valores: detestava a covardia, a injustiça e seu caráter forte mostrou-lhe a insensatez de sua vida vazia, bem como de seu pai e da sociedade em que vivia até então. Ao ouvir a mensagem do crucifixo de São Damião, entendeu que devia empreender grande luta para vencer tudo o que lhe estava acontecendo e caminhar para onde queria chegar, de fato, em sua vida.

4. Neste período sofreu muito, mas foi o tempo em que mais cresceu como verdadeiro cristão, como servo de Deus, pois buscava por em prática aquilo que o Evangelho lhe ensinava, bem como aquilo que o Espírito Santo o iluminava em suas orações. Começou a frequentar cavernas para conversar com Deus, de onde saía muitas vezes lívido pelo cansaço de enfrentar-se a si mesmo e a Deus. A partir desses encontros foi descobrindo o verdadeiro amor. Crescia seu conflito com o pai e resolveu desligar-se completamente dele para seguir ao seu único Pai, o Senhor do céu e da Terra. E vendo o mundo com outros olhos, percebendo o imenso amor de Deus para com ele e com toda a humanidade começou a gritar para si mesmo e para todos ‘O Amor não é amado’ e apoderando-se do seu coração uma imensa compaixão, começou a cuidar dos leprosos em Gúbio, perto de Assis.

5. A intimidade com o Santíssimo Sacramento e com a Eucaristia era para ele o ápice, o maior tesouro encontrado. Admiro muito em São Francisco o grande respeito e cuidado por todas as coisas de Deus. Ele aprendeu do Altíssimo a suavidade, a delicadeza, a misericórdia, a prontidão no exercício da caridade e tantas outras virtudes com a prática da contemplação de Jesus Cristo pobre e crucificado. Refugiava-se nas Igrejas mais vazias para estar sozinho com o Senhor e assim adorá-Lo com toda liberdade e com todo o seu ser. Experimentava ficar só com o ‘Meu Deus e meu tudo’, como ele dizia dia e noite.

6. Vejo o processo inicial de evangelização de Francisco quando passou a sofrer junto com os espoliados de seu tempo todas as injustiças e procurava ardentemente conquistar os pecadores para o Reino de Deus. Prosseguindo sua conversão radical, vestiu-se de eremita e começou a reparação da Capela de São Damião, pensando que a mensagem que ouvira do crucifixo referia-se à Igreja de pedra. E assim prosseguiu com a Igreja de São Pedro e Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula. Tudo isto foi transformando radicalmente seu modo de viver, de ver as coisas, as pessoas e seus amigos que antes o acompanhavam nas festas e alguns chegaram a chamá-lo de louco com o povo de Assis, mas, passado algum tempo, foram se reaproximando e, depois que lhes explicava sua descoberta do Amor que não era amado neste mundo, muitos se converteram.

7. Pareceu-me que queria ser mais rigoroso que o próprio Cristo, porque sentia-se muito pecador. Tanto que, ao final de sua vida, com tantas penitências pediu perdão ao irmão corpo. Por volta do ano 1208, descobriu com mais clareza sua missão apostólica e trocou suas vestes pelas de um pregador ambulante, descalço, naquele tempo. Começaram as missões evangelizadoras um pouco mais programadas com seus companheiros. Era rigorosíssimo consigo mesmo, mas terno e acolhedor com os outros.

8. Era realmente apaixonado por Deus e doou-se completamente ao seu amor, com todas as suas forças. Por ser um homem determinado, compreendeu que em sua vida devia realizar uma missão que ajudaria muitas pessoas a compreender que, verdadeiramente, todos nascemos para conhecer, amar e servir ao único Deus verdadeiro. Por isso, não perdia nenhuma oportunidade de empreender missões, pregações e orientar ao povo que dele se aproximava para o seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo pobre e crucificado.

9. Ele não media esforços e superava tudo para conseguir aquilo que acreditava ser a vontade de Deus. Neste projeto de vida, resolveu com seus onze companheiros ir ao encontro do Papa Inocêncio III para obter aprovação de uma breve regra que tinha escrito, mas perdeu-a e obteve apenas aprovação oral. Isto aconteceu em clima de extrema pobreza e com muito sacrifício.

10. Vivia sua missão até sem dar-se conta claramente de todos os seus objetivos. Deixava-se conduzir pelo Espírito Santo. Só tinha uma clareza: em cada dia queria servir ao seu único Senhor fielmente, com grande humildade. Ensinava aos irmãos que sempre pedissem em suas orações ‘o Santo Espírito do Senhor e seu santo modo de agir’. Sua referência principal era sempre o Evangelho e procurava segui-lo fielmente.

11. Era realmente um homem privilegiado por Deus, por Ele guiado e, por isso, recebia e distribuía tantas graças. Como muitos outros candidatos, aproximavam-se querendo aderir ao seu modo de vida, mostrava-lhes em que consistia isto e os recebia com grande caridade. Quando passaram a viver na Porciúncula, local que lhe foi doado pelos beneditinos, ele viu aí o lugar central de sua missão. Era grande devoto da Virgem Santíssima a quem confiava tudo o que fazia e os que o acompanhavam.

12. Vejo em São Francisco de Assis um dos santos que alcançou o mais alto grau de liberdade interior que uma criatura possa alcançar.  E isto ele conseguiu com muita oração, meditação e contemplação. Francisco gostava das alturas para suas mais profundas meditações. De fato, não se contentava com lugares barulhentos, ou onde pudessem incomodá-lo.  Refugiava-se para estar a sós com Deus.

13. Vejo-o como alguém muito humano, que tinha verdadeira consciência de suas fraquezas, de sua pequenez, mas se ancorava corajosamente na Majestade do Altíssimo, por isto fazia tudo ‘em nome do Senhor’. Tinha, portanto, uma sabedoria divina que o fez compreender o modo de agradar a Deus e glorificá-Lo, transmitindo aos outros tudo o que tinha experimentado. Com seu caráter sempre transparente, não se envergonhava de falar de todas as suas misérias, pois nisto via que Deus era glorificado.

14. Em suas relações com o feminino, Francisco conhecia bem o pensar daquele tempo, mas não teve problemas, porque era prudente em seu comportamento diante da sociedade. Sabia protegê-las e cuidar de suas amizades preservando a dignidade das mulheres. Clara de Assis foi sua importante seguidora contemporânea. E sua amiga ‘Frei Jacoba’, assim chamada para entrar no lugar onde estavam os irmãos, esteve presente também no momento de sua morte.

15. O Senhor mostrou-lhe que tinha percorrido o caminho certo. Francisco de Assis gastou-se ao máximo pelo Reino de Deus. Sofria com os desencantos que lhe causavam algumas pessoas que entraram na Ordem, mas não entenderam bem a vocação de seguir a Cristo pobre e crucificado, mas ao mesmo tempo o Senhor o consolava.

16. Considero isto uma grande maravilha. Francisco de Assis é uma obra extraordinária de Deus. Quando estava quase morrendo e terminou o canto das criaturas já com tantas debilidades físicas, penso que deixou ao mundo a herança de sua imensa gratidão ao Criador de todas as coisas. Todos os louvores que dedicou ao Senhor foram de grande reconhecimento, de júbilo, de um coração exultante de alegria por ser filho de um tal Senhor!

17. O que vejo em Francisco de Assis como modelo fundamental é que ele nos ensinou que devemos conduzir nossas vidas de modo a chegar ao encontro com o Altíssimo, somente por sua infinita misericórdia, reconciliados com tudo e com todos.  Francisco conseguiu a plenitude da paz para si e foi instrumento de reconciliação em muitas ocasiões, morreu abençoando a todos. Teve uma morte santa, completamente despojado de tudo.

Somente uma criatura muito privilegiada podia ter uma visão assim tão ampla da integridade da Criação no século XIII. O fato de chamar de irmãs e irmãos a todas as criaturas me faz pensar como ele conseguiu harmonizar consigo mesmo tudo o que existia, pois atribuía ao Senhor todos os bens.

Jamais ele teria pensado que, muitos séculos depois de sua morte, viria a ser o santo preferido também de muitos intelectuais, artistas e tantas pessoas de elevado nível cultural e não somente dos pobres e pequeninos, pois via em todos a imagem e semelhança de Deus. Tampouco que iria extrapolar o âmbito da Igreja Católica, Apostólica, Romana, sendo referência para muitas outras religiões e culturas.

Penso que o fato de ter enfrentado e vencido a si mesmo, de ter alcançado a sabedoria de Deus, de ter compreendido que era seu dever transmiti-la a todos que cruzassem seu caminho, fez com que tanta gente descobrisse o verdadeiro significado de ser filho de Deus e a grande dignidade que isto representa.

Neste século XXI eu o vejo como um modelo de pessoa humana íntegra, que amava a todos, a sua cidade, procurou se relacionar com o mundo de sua época, era aberto a todas as realidades e buscava fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para mostrar a todos o ‘Caminho, a Verdade e a Vida’.  Louvava ao Senhor com gratidão por todos os seus imensos benefícios e, por tudo isso, creio que é o santo de todos os tempos.


(*) Maria Aparecida Crepaldi
é Conselheira da Presidência do CIOFS (Conselho Internacional da Ordem Franciscana Secular) e foi Ministra Nacional da OFS em dois mandatos de 1997 a 2000 e até 2003. É formada em Administração de Empresas e trabalhou cerca de 30 anos na Procuradoria Geral do Estado de São Paulo.